Venezuela: a distância entre a crise real e o retrato dramático pintado pela mídia

(Foto: Tereza Cruvinel)

“É incorreto julgar a situação da Venezuela pelos fragmentos que são divulgados em outros países”, diz o jornalista Ernesto Villegas, ex-ministro das Comunicações da Venezuela nos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro e atualmente vice-presidente de comunicação do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela). Ele está de passagem pelo Brasil para contatos com parlamentares, autoridades e jornalistas, buscando demonstrar a verdadeira dimensão das crises política e econômica interna, que atribui ao  esforço de inimigos internos e externos da revolução bolivariana em busca de seu desfecho. Evitando falar sobre a situação política interna do Brasil, condenou as restrições brasileiras a que a Venezuela assuma a presidência temporária do Mercosul. “Isso é uma aval às condutas conspirativas contra a Venezuela”. É sobre elas que veio falar. “Tentam criar descontentamento social com objetivos políticos”, diz ele, admitindo  que as dificuldades existem,  principalmente em função da queda do preço do petróleo, numa economia dele dependente, o que limitou sua capacidade de importar bens e até alimentos. Mas  denuncia a sabotagem de agentes econômicos internos e até mesmo o contrabando de mercadorias para outros países, como a Colômbia,  onde são adquiridas, a preços maiores, por venezuelanas que atravessam a fronteira para compra-las.  Nesta entrevista ao 247 ele reitera a disposição do presidente Nicolás Maduro para um diálogo nacional, sem imposição, a ser mediado, conforme proposta da Unasur, pelos ex-primeiro ministro espanhol José Luis Zapatero, pelo ex-presidente do Panamá  Martin Torrijos  e pelo ex-presidente da República Dominicana Manuel Fernandes. Depois da entrevista foi anunciada disposição do Papa Francisco em integrar a comissão.  Villegas é um premiado jornalista venezuelano, autor de dois livros de sucesso em seu país: Abril, golpe adentro, de 2010, sobre a tentativa de golpe contra Chávez em 2002, e El terrorista de los Bush, de 2005.  Veja a entrevista.

P – A visão que temos da Venezuela é a de um país politicamente conflagrado e onde falta tudo.  Como sair desta crise?

R -  De fato estamos vivendo uma situação complexa, de grande dificuldades econômicas. Mas é incorreto julgar toda a realidade nacional pelos fragmentos que são divulgados. Estes fragmentos muito dramáticos,  devidamente bombardeados sobre a opinião publica do Brasil e de outros paises,  cria uma percepção distorcida e exagerada da real situação. Não estou de modo algum negando que existam problemas mas daí ao retrato que estão transmitindo, de  caos, destruição e anarquia absoluta vai uma grande distância. O deputado brasileiro  Paulo Pimenta esteve recentemente na Venezula e constatou  a diferença,  fotogrando tudo com seu celular. Em farmácias, comércios, lugares públicos, falando com as pessoa...  Para além dos problemas do momento a Venezuela é um país com grandes potencialidades e com toda a disposição  para superar  a situação atual no menor prazo possível.  A Venezuela é um país forte, tem as maiores reservas petrolíferas do mundo e  enormes recursos naturais que lhe vão permitir superar estes momento. E vamos superá-lo, temos confiança nisso.

P – Qual é a explicação para a crise de um país tão rico?

R - Uma das principais razões foi a forte queda no preço do barril de petróleo e logicamente isso teve um efeito devastador sobre uma economia muito dependente do petróleo.  E há também uma atitude hostil por parte das forças econômicas, tanto internas como externas,  procurando criar descontentamento social para alcançar objetivos políticos.  Essas práticas já tiveram um antecedente  no Chile de Allende. Há documentos históricos, que já tiveram o sigilo levantado, mostrando que  o governo dos Estados Unidos, tendo como presidente Richard Nixon, atuou para asfixiar a economia chilena.

P – O desabastecimento é apenas consequência desta sabotagem de agentes econômicos ou têm outaras explicações?

R – Certamente há uma mescla de fatores. De um lado, caíram as reservas cmbiais  obtidas pela Venezuela com a exportação de petróleo e criou restrições para as importações  que atendem  às necessidades cotidianas da população.  Quando o preço do petróleo cai de 140 dólares para 20 dólares, o efeito é devastador.

P – Isso explica a dificuldade para obter produtos importados. Mas há noticias de que até mesmo as mercadorias produzidas na Venezuela desapareceram das prateleiras...

R – Sim, isso também acontece porque na Venezuela existe uma burguesia  que criou uma estrutura que não é destinada ao desenvolvimento nacional e sim à captação da riqueza petrolífera.  Uma burguesia que durante toda a sua história tratou apenas de obter vantagens com o petróleo e importar o que necessário. Nunca se preocupou com o desenvolvimento industrial , aproximando-se do capitalismo mais desenvolvido dos  países do primeiro mundo ou mesmo de países em desenvolvimento como o Brasil e a Argentina.

P – E o papel do Estado? Depois da chegada do ex-presidente Chávez ao poder não poderia ter havido uma indução à industrialização e ao desenvolvimento da agricultura?

R – O comandante Chávez  fez grandes esforços para superar este modelo dependente, adotando  políticas de incentivo à industrialização mas não encontrou as condições favoráveis.  É preciso ver também que a queda dos preços do petróleo não é algo isolado. Ela  obedeceu ao desenvolvimento da tecnologia do  fracking nos Estados Unidos ,  um método de extração que lhes permitiu  inundar o mercado internacional  com petróleo americano barato, gerando uma guerra de preços com os países árabes.  Então, a queda do preço do petróleo não foi um fenômeno espontâneo mas decorrente de uma ação de geopolítica. E, internamente,  tivemos retração nos investimentos e um boicote geral que levou ao encarecimento dos produtos. Muitas matérias primas e mesmo produtos acabados entram na Venezuela e acabam sendo controladas pelo mercado paralelo.   E isso vale também para os bens subsidiados, de consumo massivo. Remédios e alimentos são desviados para o mercado paralelo ou aparecem nos países vizinhos e ali são comprados pelos venezuelanos a preços mais caros. Recentemente foi divulgada uma fotografia de venezuelanos que foram fazer compras na Colômbia e de lá voltaram trazendo produtos venezuelanos.

R – Apesar dos conflitos, as relações comerciais com os Estados continuam existindo?

R – Sim, os Estados Unidos compram nosso petróleo  mas é fato que seu governo declarou a Venezuela como uma ameaça à segurança americana. O presidente Obama assinou um decreto neste sentido e naturalmente esta medida teve repercussões negativas para a Venezuela em suas relações com outros países.  O decreto afetou muito, por exemplo, a capacidade da Venezuela de obter créditos e financiamentos externos.   Há países no mundo em situação muito mais  difícil que a Venezuela que não estão sendo alvo da mesma desqualificação que nos tem sido imposta pelas agências de risco. Há, portanto, uma política deliberada para levar a  economia venezuelana ao colapso. Houve um esforço muito grande os inimigos internos e externos da revolução bolivariana, bem como imperialismo norte-americano, para provocar seu  desenlace político a partir de uma desestabilização econômica. Mas estamos convencidos de que, com suas potencialidades, a Venezuela vai enfrentar e superar estas dificuldades.  Já houve uma recuperação, ainda que ligeira, no preço do petróleo, para cerca de US$ 40 o barril, e isso já nos ajuda a obter recursos para suprir as necessidades da população,  uma tarefa para qual o governo está mobilizando  as Forças Armadas . Com o aumento do ingresso de divisas, melhoram as condições para a importação dos  insumos e para impulsionar o crescimento interno. Alguns sinais positivos já começaram a aparecer. Na avaliação das autoridades econômicas do governo, o pior da crise já passou.  Os próximos seis meses serão cruciais para reverter o quadro de crise na economia. 

P – E que medidas estão sendo tomadas?

R – Nosso grande desafio é mudar a matriz econômica da Venezuela e muitas medidas estão sendo tomadas neste sentido,  mas  este é um processo que não produz resultados imediatos. Levará  um ano, dois anos, três anos... E com isso teremos uma economia menos vulnerável às variações internacionais. Mas neste momento, há um grande esforço para incrementar as exportações de outros produtos, além do petróleo.  Há planos para desenvolver outras atividades  derivadas do petróleo, como a indústria petroquímica, por exemplo.  Esta é a aposta para consolidar o socialismo bolivariano com a  participação do setor privado, com a participação de um empresariado  que não tenha uma visão meramente rentista, extrativista e predadora das riqueza das Venezuela.  Há setores do empresariado dispostos a assumir o desafio de produzir aquilo que consumimos. Não é uma ambição desmedida, a de que a Venezuela deixe para trás esta fase  de dependência completa das importações.  Para isso temos que avançar com a substituição das importações e o aumento de nossa capacidade de produzir o que nos alimenta. Mas isso não deve ser algo desconectado de outra linha fundamental,  que é a integração latino-americana. Persistimos buscando uma integração com os povos irmãos do continente, que nos proporcionará a complementaridade e o intercambio comercial que favoreça a todos.

P – A propósito da integração, como a Venezuela espera superar as restrições do Brasil a que assuma a presidência pro-tempore do Mercosul?

R – Nossa disposição é para fazer cumprir as normas estatutárias do Mercosul. Não há qualquer razão que impeça a Venezuela de assumir a presidência do bloco. Isso é como uma partida de futebol.  Ninguém pode alterar as regras da Fifa no meio do campeonato. Agora nos troca a presidência pelo sistema de rodízio e vamos assumi-la.  Dentro de seis meses, será a vez de outro país, a Argentina, assumir o posto.  Essa é a regra. O Mercosul deve ser espaço para a solução de nossos problemas comuns, não para o agravamento.  A estabilidade interessa tanto à Venezuela como ao Brasil, à Argentina, ao Uruguai e ao Paraguai. A Venezuela é um parceiro importante para os membros do Mercosul,  seja por sua localização geográfica, por suas reservas de petróleo como por seu grande mercado interno de consumo.  Não devia estar havendo este conflito sobre a presidência, que serve ao interesse de debilitar nossa economia e gerar uma situação de violência no país.  Nossos problemas internos devem ser resolvidos por nós, pelos venezuelanos. Não podem estar sendo utilizados para complicar a situação. Isso serve de aval às condutas conspirativas contra a Venezuela.

P  -  Par ao PSUV, quais são as perspectivas de estabilização e superação da crise política, uma condição para  a superação da crise econômica.

R – O presidente Nicolás Maduro está propondo um diálogo nacional a todos os setores da oposição .  Um diálogo sem condicionamentos e sem imposições e violências. Ele aceitou a proposta da Unasul para que haja uma mediação deste diálogo por uma comissão encabeçada pelo ex-primeiro ministro espanhol  José Luis Zapatero, pelo ex-presidente do Panamá  Martin Torrijos  e pelo ex-presidente da República Dominicana Manuel Fernandes. Esta proposta já teve, inclusive, o apoio da União Europeia.

R – Como o Brasil se posicionou acerca desta proposta?

R – Não houve manifestação oficial. Mas a secretaria-geral da Unaul tem sido muito ativa nesta gestão em favor do diálogo nacional . Oxalá a oposição venezuelana aceite, mas como é muito fragmentada, estão em fase de consultas e avaliações.  Alguns grupos têm questionado mediadores, criado pretextos e dificuldades. Mas confiamos que  todos aceitarão sentar-se à mesa para dialogar em favor do país.  O presidente e o PSUV estão empenhados nisso. Os venezuelanos têm como prioridade, neste momento, a solução dos problemas econômicos, e para isso, temos que superar os problemas políticos.  As pesquisas de opinião mostram isso. A agenda dos políticos de oposição é uma, a  dos cidadãos venezuelanos é outra.

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