Vidas uberizadas

A vida e o mercado de trabalho não podem ter como exemplo e referência uma empresa que faz da informalidade seu principal mote de lucro

A precarização da vida e, sobretudo, do trabalho nos dias atuais mostra como a qualidade de um viver básico com dignidade parece estar com os dias contados.

Podemos observar claramente isso quando lidamos com trabalhadores que sobrevivem na informalidade. São motoristas de aplicativos de transporte particular, camelôs, vendedores de marmitas, jornalistas, diaristas e tantos outros que se veem obrigados trabalhar sem jornada definida, sem direitos e proteção social do Estado.

Usamos serviços como o Uber, mas não temos a mínima ideia da realidade de quem está lá dirigindo. Por contrato, o motorista “parceiro” é obrigado a repassar 25% de seu faturamento para a empresa, trabalhando além de 12 horas por dia, para um patrão que é hoje um dos maiores exemplos de sucesso na aplicação de uma plataforma digital no uso das novas tecnologias na economia contemporânea, baseada e alicerçada na precarização.

Já o concorrente, o aplicativo “99”, comprado recentemente por uma empresa chinesa, cobra apenas 9% de comissão sobre o faturamento do motorista.
Segundo dados da própria Uber, hoje no Brasil, a empresa opera com mais de 500 mil motoristas.

Informalidade já representa mais de 40% da força de trabalho do Brasil. Sobre a informalidade, no país, o IBGE divulgou em novembro de 2018 que 43% da força de trabalho do Brasil atua na informalidade, em um universo de 92,6 milhões de pessoas. Ou seja, 39, 7 milhões trabalham sem carteira assinada no país. 

A falência premeditada do Estado brasileiro e a adoção de receitas neoliberais com cortes sociais, e precarizacão de serviços básicos como Educação, Saúde e Transporte só fez criar condições para o crescimento da informalidade no mercado de trabalho.

As reformas que alteram a legislação trabalhista e o modelo previdenciário jogam nas ruas um grande exército de reserva que sem direitos se sujeita à condições que vão desde aceitar serviços por valores abaixo do mercado, à execução de serviços em condições precárias de segurança do trabalho e sujeição a contratos ultrajantes.

O precariado da terceira idade

Hoje, nos centros urbanos da Região Sudeste, por exemplo, nota-se uma grande quantidade de pessoas da terceira idade dirigindo para aplicativos para garantir uma renda extra.

Ainda segundo o IBGE, um levantamento mostra que o percentual de pessoas com mais de 60 anos no mercado de trabalho já chega a 7,9%, sendo que apenas 26% desse universo possui carteira assinada. Isso mostra que grande parte da população aposentada do Brasil opta por voltar ao trabalho para complementar sua renda. Uma pesquisa da LCA Consultores mostra que cerca de 10 milhões de pessoas dependem da renda de algum aposentado para sobreviver.

Reforma fatal

Desta forma, a reforma da Previdência pode representar um crescimento ainda maior na informalidade no Brasil.

Diante disso, não se pode pensar um sistema de Saúde desvinculado de uma Previdência Social. É bom lembrar que esse mesmo sistema de Saúde está à beira da falência. Por isso, não há possibilidade plausível de planejar e implementar políticas que favoreçam a informalidade, sabendo que esses trabalhadores sofrerão os efeitos em sua saúde derivadas da precarização a qual são submetidos. Isso será uma tragédia que aplicada vai inviabilizar a Previdência que já com uma queda brutal de arrecadação, motivada pela informalidade, não terá condições financiar o sistema de Saúde.

A vida e o mercado de trabalho não podem ter como exemplo e referência uma empresa que faz da informalidade seu principal mote de lucro.

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