Vitória da burocracia, da institucionalidade suicida e do republicanismo ingênuo

A revolução de 1917 foi um dos maiores acontecimentos do século XX, pois o capitalismo foi abalado com a possibilidade de um novo sistema, econômico e político, vir a ser implantado em todo o mundo, com a participação direta da classe trabalhadora. A vitória de Lula em 2002 foi o evento mais importante do Brasil no século XXI, trazendo inquietação ao establishment e esperança para a grande maioria do povo brasileiro

Vitória da burocracia, da institucionalidade suicida e do republicanismo ingênuo
Vitória da burocracia, da institucionalidade suicida e do republicanismo ingênuo (Foto: Ricardo Stuckert)

"A burocracia assemelha-se a todas as castas dirigentes pelo fato de se encontrar sempre pronta a cerrar os olhos perante os mais grosseiros erros dos seus chefes em política geral se, em contrapartida, estes lhe forem absolutamente fiéis na defesa dos seus privilégios." (Leon Trotsky, in A Revolução Traída, p. 269, Edições Antídoto, Lisboa, PORTUGAL com Introdução de Pierre Frank e Traduzida por M. Carvalho e J. Fernandes).

A revolução de 1917 foi um dos maiores acontecimentos do século XX, pois o capitalismo foi abalado com a possibilidade de um novo sistema, econômico e político, vir a ser implantado em todo o mundo, com a participação direta da classe trabalhadora.

A vitória de Lula em 2002 foi o evento mais importante do Brasil no século XXI, trazendo inquietação ao establishment e esperança para a grande maioria do povo brasileiro.

Mas, infelizmente, lá o capitalismo foi abalado, nunca derrotado e aqui o establishment assumiu o controle do Governo, pois o do Estado jamais perdeu.

A Rússia, depois a URSS, deveria ter sido um Estado operário saído de uma revolução campesina e proletária, que aboliu o regime capitalista e instaurou formas de propriedade coletiva e planificação da economia, perdeu-se na burocratização do poder, um processo que comprometeu a legitimidade institucional.

O PT de Lula, assim como boa parte de quem se apresenta de esquerda, encantou-se com a democracia burguesa e afogou-se na burocracia, na institucionalidade e num republicanismo medíocre (basta olhar e avaliar as indicações para o STF, STJ, TRF's, TRT's e da PGR), apesar da inegável competência na gestão e de avanços fantásticos na área social.

Não é possível mais fechar os olhos a um fato: a criação dos mitos e mentiras referentes à Revolução de Outubro e aos doze anos de governo de coalizão liderado pelo PT.

Não é possível ignorar que as mentiras de antanho e os Fake News de hoje, causaram e causam estragos terríveis.

Os mitos e mentiras apresentam-se de duas formas.

A primeira forma ou categoria de mitos e mentiras é composta pelos que provêm da burguesia, dos liberais da academia e da imprensa servil.

Naquela URSS poder-se-ia listar uma extraordinária antologia de afirmações conservadoras e levianas de autoria de jornalistas e homens de Estado, os quais em 1.917 só davam uma existência de dias, quando muito de semanas, a um Estado acusado de ser composto por homens incultos e capazes das piores monstruosidades, etc., etc. erraram.

Por aqui todas as grandes realizações do governo liderado pelo metalúrgico eram mitigadas e falseadas, creditando o êxito aos esforços do governo anterior. Uma falácia, pois tal governo, que tinha o PSDB liderando a coalizão , foi um governo irresponsável e fracassado, os números estão à disposição.

Os mitos e as mentiras servem sempre aos adversários, aos inimigos, aos levianos. Marx advertiu sobre isso quando afirmou que: "Até ao presente acreditou-se que a proliferação dos mitos cristãos, sob o Império Romano, só fora possível porque a imprensa ainda não tinha sido inventada. Pois ao contrário é que foi verdade: a imprensa diária e o telegrafo, que a todo instante espalham na Terra semelhantes invenções, fabricam mais mitos num só dia do que nunca se pôde fazer outrora durante um século, e o rebanho burguês acredita em tudo e propaga.". Faltou leitura aos revolucionários russos e aos nossos líderes contemporâneos.

Na URSS a segunda categoria de mitos e mentiras foi fabricada por homens que, a partir de 1.923, estiveram na direção da União Soviética e foram levados, por razões e circunstâncias que fogem ao objetivo deste artigo, a reescrever a própria história da Revolução de Outubro, chegando algumas vezes a desfigurar seus protagonistas, seja divinizando Lenine ou caluniando outras dirigentes, dente eles Trotsky, atribuindo a eles papéis que não representaram.

Por aqui não foi diferente. A imprensa burguesa levianamente desqualificou Lula e o PT o tempo todo e o governo de coalizão liderado por Lula errou quando ignorou que o Brasil não foi descoberto em 2003, que muitos esforços foram feitos por muita gente boa ao longo da nossa História. Brizola, Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Jango, dentre outros, foram injustamente ignorados.

No Brasil de Lula o pecado foi perder a base social, perder a relação com a população, com sua dor e com os sonhos do povo brasileiro, o que aconteceu na medida em que os novos amigos - empreiteiros e banqueiros - passaram a ocupar lugar privilegiado na agenda de Lula e seus ministros. Foi um governo excessivamente conciliador, que manteve o jogo, as regras e os jogadores tal qual sempre foi. Enquanto isso leais serviçais do establishment – como Moro e os Shitboys de Curitiba – preparavam a narrativa que criminalizou a esquerda e levou a direita ao Planalto.

Acredito que a História nos pregou uma peça, faltou coragem a Lula e ao governo de coalizão que liderou para fazer reformas, fato que o colocou a mercê dos seus algozes, nossos algozes.

Se a Revolução socialista teve início na Rússia atrasada e não na Alemanha, Inglaterra ou França, mais desenvolvidas em termos capitalistas, o que tornou-se um problema para seus dirigentes (pois em não havendo uma classe operária consolidada, articulada e organizada na URSS os dirigentes revolucionários passaram num primeiro momento a substituir a classe trabalhadora e depois o Partido passou a ser uma espécie de tutor político da classe trabalhadora, o que pode ter significado um distanciamento do Partido dos verdadeiros desejos e aspirações dos trabalhadores, um distanciamento que o tempo pode ter conduzido a URSS à perestroika), por aqui a nossa perestroika foi o distanciamento de nossas lideranças tradicionais e jovens da base social, perdemos boa parte da base social (que nessas eleições migrou para a direita e para a extrema-direita) em razão da excessiva institucionalização que nos reduziu àquilo que o establishment quis nos reduzir, criminalizando a esquerda e seus quadros, apoiadores e simpatizantes.

A História ensina para quem está disposto a aprender.

Os dirigentes soviéticos, assim como nossos líderes - institucionalizados e domesticados pelos prazeres da burguesia - tornaram-se porta-vozes da burocracia, uma burocracia que negou à classe que diz representar o direito à efetiva participação no poder e na construção de um Estado socialista ou que indicasse esse caminho.

Por aqui sem as reformas necessárias nossas possibilidades não passaram de panfleto eleitoral, utopia juvenil, sem projeto e sem metas.

Formamos consumidores, não cidadãos.

A falta de democracia fez da URSS um Estado operário degenerado pela burocracia estatal. Por aqui o republicanismo e a soberba, que transborda do hegemonismo, nos legou Bolsonaro Presidente.

Foi o distanciamento da classe trabalhadora e a burocracia do PCUS que lançou as sementes da perestroika, o que Trotsky antecipou quando afirmou que: "... ou uma contrarrevolução social vitoriosa reconduzirá a União Soviética ao sistema capitalista ou então o desenvolvimento da revolução socialista mundial e das massas soviéticas, estimuladas pelos progressos econômicos do país, entrarão em conflito com as algemas burocráticas que saberão quebrar por meio de uma revolução política, e assim a construção do socialismo continuará no quadro da democracia soviética restaurada.".

Por aqui venceu a burocracia partidária, a institucionalidade suicida e o republicanismo ingênuo e nos lançaram a uma aventura de extrema-direita.

Parece que Trotsky estava certo e a burocracia asfixiante trouxe sob o nome de perestroika a tal contrarrevolução social que reconduziu a URSS ao capitalismo, e no Brasil voltamos tragicamente a 31 de março de 1964.

Me parece útil recuperar a análise de Trotsky, os acontecimentos relacionados à perestroika, pois talvez na correlação entre a análise e os fatos seja possível compreender o que aconteceu por aqui.

Em março de 1.922, no XXI Congresso do PCUS Lênin mostrou claramente a sua preocupação com o excessivo fortalecimento da burocracia estatal: "Desde a guerra, não as pessoas de classe trabalhadora, mas os malandros, foram para as fábricas. E serão as nossas condições sociais e econômicas no presente tais que os verdadeiros proletários procurem as fábricas? Não. Deveriam procurá-las, segundo Marx. Mas

Marx não escreveu sobre a Rússia, escreveu sobre o capitalismo em geral, tal como se desenvolveu desde o século XV. Tudo isso foi certo durante seiscentos anos, mas é inaplicável à Rússia de hoje.".

E no mesmo congresso Shliapnikov, falando em favor da Oposição dos Trabalhadores, afirmou o seguinte: "Vladimir Ilich disse ontem que o proletariado como classe, no sentido marxista, não existe (na Rússia) Permitam-se congratular-me com vocês por serem a vanguarda de uma classe inexistente.".

Fato é que a URSS foi incapaz de propor ao mundo uma economia política socialista, pois sempre trabalhou sob paradigmas da economia política capitalista. Por aqui não se esperava uma revolução, longe disso, mas Lula não teve coragem de realizar reformas fundamentais na institucionalidade burguesa.

Há uma entrevista de Fidel Castro ao Jornalista Inácio Ramonet na qual ele diz que "... a teoria e prática do socialismo ainda estão por serem escritas."

E segue, com extrema lucidez dizendo: "Veja só, o que é marxismo? O que é socialismo? Isso não está bem definido. Em primeiro lugar, a única economia política que existe é a capitalista; mas a capitalista de Adam Smith. Então andamos fazendo socialismo muitas vezes com categorias adotadas do capitalismo, o que é uma das grandes preocupações na construção do socialismo, (...). Marx fez apenas uma breve tentativa na CRITICA DO PROGRAMA DE GOTHA de definir como seria o socialismo, porque era um homem muito sábio, muito inteligente e realista para imaginar que se poderia escrever uma utopia sobre como seria o socialismo. O Problema foi a interpretação das doutrinas, e foram muitas. Por isso os progressistas permaneceram tanto tempo divididos, e as polêmicas entre anarquistas e socialistas, os problemas depois da revolução Bolchevique de 1.917 entre trotskistas e stalinistas ou, digamos, para os partidários daquelas grandes polêmicas que foram geradas, a divisão ideológica entre os dois grandes dirigentes."

O fato é que se a lógica da burocracia - tão criticada por Trotsky - não fosse vitoriosa na URSS e se a classe trabalhadora tivesse participado direta e efetivamente da experiência de construção de um Estado Socialista teria frutificado uma teoria para a economia política socialista, com categorias próprias e originais, pois o que Marx fez foi apenas a crítica da economia política capitalista.

Fato é que teria sido possível a Lula realizar a reforma politica necessária para romper com a lógica e a institucionalidade liberal, pois a meu juízo ele acreditou que a grande conciliação bastaria a garantir uma lenta e gradual mudança. Ledo engano.

Na URSS a burocratização da economia impediu que a classe trabalhadora exercitasse sua capacidade criativa e criadora, a repressão burocrática cerceou a liberdade e não agiu como representante da vanguarda revolucionária do século XX. No Brasil os nossos líderes foram vencidos pela sedutora burocracia partidária, pela institucionalidade burguesa e por um republicanismo medíocre que nos legou Joaquim Barbosa, Fux, Rosa Weber, Gurgel, e outras merdas do mesmo quilate.

Agora nos resta resistir à onda ultradireitista, ao liberalismo canibalizante, à criminalização de nossos liberes e de nossas ideias.

Nossa tarefa é voltar a debater política pela base, formar novos quadros fora de institucionalidade, ouvir mais e muito João Pedro Stédile, Freixo, Samia Bonfim, temos que ouvir todos os nossos companheiros do PDT, PSOL, PCdoB, PSTU, PCB, PPL, os quadros progressistas do PMDB, figuras fundamentais como Bresser-Pereira (pondo fim ao hegemonismo medíocre do PT), defender a democracia, denunciar ao mundo o golpe, denunciar que Lula é um preso político e "começar do zero" e a partir de agora em melhor companhia.

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