Você S/A na política brasileira: entre o pablitismo e o tabatismo

Sobre a votação na Reforma da Previdência – aquilo que o professor Pablo Ortellado sugeriu para escaparmos dos discursos fáceis -, a deputada Tábata Amaral respondeu: “Se com isso eu me tornar impopular e não ser reeleita, beleza. Com a formação que eu tenho, consigo emprego onde eu quiser”. Daqui a quatro anos corre-se o risco de não haver mais emprego

Tabata Amaral
Tabata Amaral (Foto: Will Shutter/ Câmara dos Deputados)

Em 15 de julho de 2017, um ano antes da campanha para a eleições presidenciais, o professor de gestão de políticas públicas da Universidade de São Paulo/Leste e cujas pesquisas já receberam financiamento das organizações de George Soros, Pablo Ortellado, escreveu uma coluna no jornal Folha de São Paulo com o título “Esquerda e Direita, parecidas demais”. Na ocasião, o argumento do articulista foi explicitado no primeiro parágrafo: “Um desavisado pode achar que o PT tem uma agenda radicalmente diferente do governo Temer. O partido votou contra o teto dos gastos, tem feito oposição sistemática à reforma da Previdência e criticado a agenda do governo, como se fosse o reverso da sua. No entanto, pouco tempo atrás, o governo Dilma apresentou propostas semelhantes”. 

Após estabelecer relações de equivalência onde não havia e nunca houve ao desconsiderar a ruptura institucional deflagrada pelo processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff, Golpe de 2016, o professor decretou que mais da metade da população brasileira era desavisada porque apoiava o legado dos governos petistas e o então candidato virtual à presidência da República pelo Partido dos Trabalhadores (PT), o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, para o pleito de 2018. Na ocasião, a questão para o articulista era entender as razões pelas quais a maioria da população reconhecia as diferenças entre os governos petistas e as reformas do governo de Michel Temer, após as eleições do final de 2016 nas quais o PT obteve resultados pífios em razão do recrudescimento nacional do antipetismo e a ascensão do bolsonarismo. 

Para tanto, o professor questionou a despeito do resultado da pesquisa: “se a diferença das propostas de Temer e Dilma é apenas de grau e detalhe, porque a retórica do PT faz crer que vivíamos um processo de expansão dos direitos e agora vivemos um "desmonte golpista"? Tal como um Procusto redivivo que tenta enquadrar a realidade à medida de sua cama de ferro, Pablo Ortellado tenta a todo custo convencer os leitores do jornal sobre a ausência de ruptura institucional entre os governos em 2016 e a incidência desse processo na continuação de políticas públicas. Para o professor, o apoio de mais da metade da população ao legado dos governos petistas ocorreu em razão de uma narrativa disruptiva da militância petista que, à época, afirmava que os governos petistas “estão em disputa e podem avançar mais, sendo necessário engajamento para fazer prevalecer a posição progressista. O que teria faltado aos governos petistas é vontade e compromisso”.

Na mesma coluna, Pablo Ortellado afirma tratar-se de falsa explicação acusar os governos petistas de ausência de vontade e compromisso, pois a verdadeira razão para a “continuidade” dos governos petistas & governo Temer foram os "constrangimentos institucionais" - limites contáveis e os imperativos da gestão macroeconômica. A certa altura desse rocambole argumentativo, o professor mobilizou a variável petista para o presidencialismo de coalização sobre “os limites da correlação de forças” para afirmar: "se quisermos influenciar a ação dos políticos, temos que parar de nos deixar enganar, entender os constrangimentos da política institucional e controlar os políticos no jogo da política real e não no da ilusão que nos vendem para nos distrair". 

Por que estou recuperando o rocambole argumentativo desse panfleto antipetista atávico do pablitismo? Porque trata-se da gênese da retórica da “Nova Política”, que além de construir trajetórias no lugar de projetos coletivos ao esvaziar a relevância de partidos e sindicatos como instâncias fundamentais de representação da classe trabalhadora, precisa apagar a experiência e o legado de governos de centro-esquerda que fortaleceram o Estado de Bem Estar Social e efetivaram políticas públicas de diminuição das desigualdades e assimetrias regionais – o Lulismo. Atualmente, essa “Nova Política” tem como expoente feminina a deputada Tábata Amaral (PDT/SP), que gosta de dar carteirada de pós-graduada em Ciência Política em Harvard, financiada pelas organizações Lemann/Etlin e não por acaso também é articulista da Folha de São Paulo. A atuação da deputada nos primeiros seis meses de mandato tem causado reações controversas na imprensa e nas redes sociais, sobretudo após a votação pela Reforma da Previdência, contrariando os interesses da classe trabalhadora e as orientações de seu partido. 

Meu objetivo aqui não é criticar o apequenado desempenho político da deputada Tábata Amaral – coisa que boa parte da esquerda brasileira tem feito com afinco desde a aprovação em primeiro turno da Reforma da Previdência. Meu interesse é pensar as trajetórias de Pablo Ortellado e Tábata Amaral como partes de um grupo coeso que tem crescido como força política no cenário nacional: as razões pelas quais a tal da “Nova Política” obtém ressonância entre os leitores da grande imprensa e obtém milhares de votos, sobretudo no centro-sul, mesmo quando a única novidade dessa turma é a explicitação da representação dos interesses do estágio atual do neoliberalismo da classe dominante. Meu argumento é que não é possível a compreensão desse fenômeno descolado de outro fenômeno estrutural: a subjetivação do neoliberalismo na política. 

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Uma das críticas mais contundentes sobre os governos petistas recaí sobre a ausência de politização da sociedade para a implantação de políticas públicas que começaram a diminuir as desigualdades estruturais do país, desconsiderando a contradição entre o Lulismo, na acepção de André Singer, e o Neoliberalismo. Vejamos. Uma das maiores forças do neoliberalismo em seu estágio atual é a promessa de rentabilidade material e simbólica com o processo de “autovalorização de si”, com o sujeito acumulando valor indefinidamente por meio da própria trajetória. Não se trata mais da classe dominante dos tempos idos que se constituía como tal por deter os meios de produção. Trata-se, ao contrário, de um processo de tornar a si mesmo e a própria relação consigo mesmo em capital, cujo processo Laval e Dardot enquadram na fórmula (S-S’). 

A questão que se coloca no processo de subjetivação neoliberal é que quando o sujeito engendra a si mesmo, ilimitadamente, em capital material e simbólico, ele apaga progressivamente os legados simbólicos, a alteridade e a impossibilidade que a determina até reduzir a própria existência em um presente absoluto e sem saída para além do próprio umbigo. Na política, isso é trágico, pois significa negar as diferenças políticas com suas implicações para a elaboração de políticas públicas, esvaziando por completo o papel de partidos políticos e de sindicatos como instâncias de representação da classe trabalhadora formal e mesmo informal e precarizada. 

Não parece ter sido por outra razão que quando duramente questionada por parte de seu eleitorado sobre a votação a favor da Reforma da Previdência – aquilo que o professor Pablo Ortellado sugeriu para escaparmos dos discursos fáceis -, a deputada Tábata Amaral respondeu em uma rede social: “Se com isso eu me tornar impopular e não ser reeleita, beleza. Com a formação que eu tenho, consigo emprego onde eu quiser” – esquecendo-se, inclusive, que daqui a quatro anos, quando terminar seu mandato, corre-se o risco de não haver mais emprego no bolsonarismo nem para os formados em Harvard. Logo depois, em sua última coluna na Folha de São Paulo, a mesma deputada afirmou: “muitos partidos já não representam de fato a sociedade, mas somente alguns de seus nichos” rsrsrs. Em marte, desconhecemos, mas aqui na terra nunca houve um partido político que representasse a um só tempo os interesses da classe dominante e da classe trabalhadora. Tampouco houve quem se elegesse com 215 mil votos, como é o caso da deputada, sem estar em um partido político. 

Para além do aspecto cômico/trágico que a marca “Harvard” tem obtido com o bolsonarismo e seus colaboracionistas no Brasil, a principal questão que precisamos nos colocar no campo da esquerda sobre o processo de subjetivação neoliberal na política brasileira é como barrar esse círculo vicioso? Se a subjetivação neoliberal na política, assim como em outras esferas, é re-produzida pela autovalorização de si mesmo, como escapar daquilo que é a sua própria essência? Como dialogar com alguém e/ou uma turma que não consegue ou finge não entender que nada mais interessante para a classe dominante que apoiou e elegeu o bolsonarismo do que reduzir o exercício da política à algumas trajetórias que “flexibilizam” as demandas da maioria da sociedade em um momento de recrudescimento do Golpe de 2016 e o desmonte total do Estado de Bem Estar Social iniciado durante os governos petistas? Como dialogar com os eleitores da “Nova Política” que se reconhecem no processo de subjetivação neoliberal mesmo quando são as maiores vítimas desse processo, que pauperiza crescentemente a maioria da sociedade brasileira no bolsonarismo?

Longe de dar respostas prontas, algumas questões. Tanto a direita rediviva com as manifestações de Junho de 2013, quanto a centro-esquerda da chamada “Nova Política” foram incensadas pela formação e financiamento dos chamados “think thanks” ligados a dupla Soros & Lemann que, por meio de táticas e narrativas muito próprias, têm tentado com algum êxito ocupar o centro do espectro político brasileiro, vazio desde a adesão do PSDB ao Golpe de 2016. Na esquerda brasileira, predominantemente composta pelos partidos PT, PSOL e PC do B, também houve tentativas de ampliar seu espectro político e ganhar esse espaço vazio por meio da criação de novos coletivos e o uso de novas tecnologias na militância e nas campanhas desde 2016. No entanto, a esquerda brasileira mesmo estando em processo de fortalecimento e contando com o apoio de pelo menos 30% da população votante do país ainda patina em torno dos impasses da conjuntura, à medida que tanto a direita rediviva quanto a esquerda da “Nova Política” dialogam sem constrangimentos com o bolsonarismo, chegando a levar ao limite a perda de crença na via partidária e sindical ao naturalizar as rupturas, igualar tudo no mesmo balaio e decretar tais instâncias obsoletas em nome de um ethos neoliberal de trajetórias que vendem flexibilização das demandas da classe trabalhadora e empreendedorismo individual, como o fazem o professor Pablo Ortellado e a deputada Tábata Amaral. 

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Há quem diga que a saída para esse impasse reside na radicalidade da defesa da democracia participativa e no fortalecimento de partidos e sindicatos – dimensões historicamente conflitantes na esquerda brasileira, uma vez que é preciso superar suas antinomias constitutivas. No entanto, uma coisa é certa: para boa parte do eleitorado do centro-sul, base social do bolsonarismo e da “Nova Política”, a crescente pauperização da maioria da população é projeto e o preço a ser pago para a manutenção das estruturais desigualdades e assimetrias regionais, pois o Nordeste não é mais o mesmo depois dos governos petistas. 

Fato é que ainda em 2017, durante um evento sobre cultura na Universidade Federal do Recôncavo Baiano, uma professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, expoente da “Nova Política” carioca e candidata a deputada federal pelo PSOL/RJ, foi convidada a falar sobre a crise política brasileira e os caminhos da esquerda para uma plateia lotada de universitários. A professora iniciou sua participação com uma foto da ex-presidenta Dilma Rousseff apertando a mão de Aécio Neves no final do último debate da campanha presidencial de 2014, na rede globo. O objetivo de usar a foto foi mostrar para uma plateia diversa da região do Recôncavo Baiano que não houve Golpe em 2016, pois o governo Temer era a continuação da política petista durante os mandatos da Dilma Rousseff – i.e. não houve uma ruptura democrática em 2016. 

Muita gente ficou indignada, incomodada, questionou e tal, mas ao final de sua apresentação ela foi educadamente aplaudida. Horas depois, um grupo de alunos veio conversar comigo e eles estavam indignados porque a Universidade Federal do Recôncavo Baiano era um projeto de 20 anos, duas décadas de luta daquela população e, afinal, "como assim é tudo igual? Não é mesmo porque o [ex presidente] Fernando Henrique Cardoso não criou a nossa Universidade; quem fez isso foi o Lula", disse uma aluna. Tudo isso para escrever: metade da população brasileira não é desavisada e sabe perfeitamente bem o que é desonestidade intelectual e sabe a diferença entre as conquistas sociais antes do Golpe de 2016 e depois, sobretudo agora na arquitetura da destruição do Estado Brasileiro no bolsonarismo. 

Gosto muito de contar esse episódio porque ele é paradigmático da maior antinomia a ser superada por parte da esquerda: a empáfia de achar que o Estado Brasileiro se reduz ao centro-sul do país e que o custo de suas demandas é o retorno ao chamado Brasil profundo, como se esse país não fosse terrivelmente assimétrico regionalmente. Regiões como o Norte e o Nordeste ainda têm parte da população faminta de comida, água, conhecimento, cultura, casa, roupa, sapato, mobilidade urbana, mobilidade internacional, boa política e bom combate – mesmo depois de começar a ter acesso a tudo de tanto nos governos petistas e que essa “Nova Política” com seus políticos S/A tratam com desdém desde 2013 e o Bolsonarismo tem retirado porque além de a desigualdade e o desmonte do Estado de Bem Estar Social serem projeto, nessas regiões Jair Bolsonaro não obteve 18% dos votos, configurando-se em áreas de grande resistência no país. 

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