Voltando a 2013 e a uma moça chamada Sininho

Sim, em 2013 Sininho defendeu a libertação daquele que seis anos depois faria o atentado terrorista contra a produtora do ‘Porta dos Fundos’, um tal de Eduardo Fauzi, que na época ninguém, a não ser a polícia, sabia quem era

Sininho, Eduardo Fauzi e Fábio Porchat e Gregório Duvivier em especial do Porta dos Fundos
Sininho, Eduardo Fauzi e Fábio Porchat e Gregório Duvivier em especial do Porta dos Fundos

Por Eric Nepomuceno, do Jornalistas pela Democracia - Quando as atenções do mundo estão postas no perigo desatado por Donald Trump no Irã e no Iraque, e as da maior parte dos brasileiros se debruçam na tentativa inglória de prever quais serão os absurdos mais ameaçadores a serem lançados por Jair Messias, tem algum sentido voltar a falar nas mobilizações de 2013, de uma moça que ficou famosa com o apelido de Sininho e do vídeo que gravou defendendo a libertação de presos, entre eles um tal de Eduardo Fauzi que na época ninguém, a não ser a polícia, sabia quem era? 

Sim, em 2013 Sininho defendeu a libertação daquele que seis anos depois faria o atentado terrorista contra a produtora do ‘Porta dos Fundos’.

Sininho era uma das ativistas mais visíveis e disponíveis para entrevistas no Rio de Janeiro daquelas manifestações. Foi presa, processada e depois mudou de rumo: deixou o apelido de lado – na verdade, disse e redisse que jamais gostou dele –, e tornou a ser Elisa Quadros. 

Ressurgiu agora, quando alguém nas redes sociais ressuscitou o tal vídeo em que ela defendia uma greve de fome (da qual não participou) pedindo a libertação de presos e mencionava o nome de Fauzi.

Para mim, no vídeo não há nada além de uma moça sorridente e falante, uma das ativistas mais incensadas pela televisão, lançando afirmações um tanto confusas e genéricas enquanto prega um anarquismo surgido de leituras apressadas ou da interpretação, digamos, um tanto peculiar de Bakunin ou Malatesta. 

Quem tirou o vídeo de algum baú perdido expôs de maneira talvez gratuita e fora do tempo a imagem de Elisa Quadros em seus tempos de Sininho. 

O gesto, em todo caso, deveria servir para que, passado tudo que aconteceu neste país desnorteado, se pense em como surgiram as manifestações daquele 2013 e de como desandaram até serem apoderadas pela extrema-direita generosamente financiada pelos donos do dinheiro, a começar pela FIESP e companhia. 

E, ao mesmo tempo, para pensar na inabilidade e no tremendo erro de análise do governo de Dilma Rousseff, e no excesso de autoconfiança ou diretamente falta de visão do PT em particular e da esquerda brasileira de modo geral diante do que estava acontecendo principalmente, mas não apenas, em São Paulo e no Rio.

Quando em outubro de 2014, dias depois da reeleição de Dilma, o playboy provinciano Aécio da Cunha (esse o seu verdadeiro nome: o ‘Neves’ vem do avô materno), perdido em suas aspirações, anunciou que não sossegaria enquanto não derrubasse quem o derrotou no segundo turno, as agrupações que tinham se apoderado das ruas já ocupavam um espaço no cenário político brasileiro que passou despercebido pelo setor progressista. 

Do ‘MBL’ financiado de maneira misteriosa até hoje aos movimentos ‘Direita Brasil’ espalhados pelo mapa, com força específica em vários estados, todos fortemente apoiados pelos meios hegemônicos de comunicação, uma direita que se autobatizou de ‘liberal’ mas na verdade defende um neoliberalismo xiita não fez mais que ampliar sua área de ação. 

E também – não só, mas também – assim chegamos onde chegamos, e ninguém sabe aonde é que tudo isso vai dar.

Pois é: ao ressuscitar uma Sininho que Elisa Quadros se esforça para deixar de lado, o autor da façanha bem que poderia despertar no campo progressista, a começar pelo próprio PT, a tão reclamada autocrítica. 

Mas, atenção: uma autocrítica centrada em um ponto exclusivo: não se estará reiterando a inação, a falta de sensibilidade e visão, que permitiu que a direita crescesse tanto naqueles 2013 e 14? 

Como é que, passado um ano de destruição e descalabro, do pior e mais patético governo da história da República, o setor progressista sobrevive mas não age, não propõe, não se une ao redor de um projeto concreto de oposição efetiva?

Enquanto Jair Messias e o setor mais boçal do seu governo continuam a nos distrair com suas aberrações, Paulo Guedes vai liquidando o país. E ninguém faz nada? 

Até agora, ninguém. Até quando?

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