Votação mostra a cara vergonhosa da Câmara

Caberá ao Senado, já que o Supremo Tribunal Federal lavou as mãos, fazer valer o império da Constituição, interrompendo o processo de afastamento da presidenta Dilma Rousseff e devolvendo a normalidade constitucional ao país

Caberá ao Senado, já que o Supremo Tribunal Federal lavou as mãos, fazer valer o império da Constituição, interrompendo o processo de afastamento da presidenta Dilma Rousseff e devolvendo a normalidade constitucional ao país
Caberá ao Senado, já que o Supremo Tribunal Federal lavou as mãos, fazer valer o império da Constituição, interrompendo o processo de afastamento da presidenta Dilma Rousseff e devolvendo a normalidade constitucional ao país (Foto: Ribamar Fonseca)
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Uma população dividida assistiu domingo, entre perplexa e eufórica, o lançamento do Brasil numa aventura de consequências imprevisíveis. A tragédia não aconteceu, graças a Deus, mas as perspectivas sombrias para um futuro incerto, com o agravamento da instabilidade e da insegurança no país, indicam o surgimento de problemas maiores do que os vivenciados atualmente. A aprovação do impeachment pela maioria da Câmara dos Deputados, portanto, longe de ser uma solução, como pretendem os seus conspiradores e executores, pode levar a Nação ao caos, com a possibilidade sempre presente de uma guerra civil. Caberá ao Senado, já que o Supremo Tribunal Federal lavou as mãos, fazer valer o império da Constituição, interrompendo o processo de afastamento da presidenta Dilma Rousseff e devolvendo a normalidade constitucional ao país, consertando a irresponsabilidade de deputados que, comportando-se como colegiais, votaram pelo impeachment como se estivessem na hora do recreio.

Apesar da gravidade da decisão, os parlamentares, com honrosas exceções, sorriam e davam gritinhos, como num convescote, projetando para o país e para o mundo uma imagem vergonhosa dos políticos brasileiros. E se transformaram em chacota para a imprensa mundial por conta dos motivos que apresentaram para justificar o voto favorável ao golpe: "Pelo meu pai, pela minha mãe, pelos meus avós, pelos meus bisavós, pela minha esposa, pelos meus filhos, pelos meus netos, pelos meus bisnetos, pelos meus irmãos, pelos meus sobrinhos, pelos meus vizinhos", etc. Outros foram mais específicos: "Pela minha esposa Paula, pelo meu neto Gabriel, pela tia que me criou, pela minha filha que vai nascer", etc. Um deles levou o filho para o plenário e queria que ele pronunciasse o seu voto no microfone, no que foi impedido pelo presidente da Mesa, deputado Eduardo Cunha, que não perdeu a sua reconhecida frieza até mesmo quando era chamado de "ladrão" por deputados contrários ao impeachment.

Outro motivo sempre citado, de maneira cínica, pelos parlamentares, para justificar o seu voto, foi a corrupção. "Pela ética, contra a roubalheira, pelo fim da corrupção", bradavam, como se o parlamentar que presidia a sessão, principal responsável pela armação do golpe, não fosse um dos mais investigados do Congresso justamente pelas acusações de recebimento de propinas milionárias e depósitos de fortunas em bancos suiços. Eles teriam sido mais honestos e coerentes com o seu voto se gritassem: "Contra a honestidade, contra a honradez e a favor da roubalheira e da corrupção!". O que menos se falou, talvez pela consciência de que estavam cometendo uma ilegalidade, foram nas "pedaladas fiscais", precisamente a causa invocada para promoverem o afastamento da Presidenta. Afinal, eles sabiam que não havia crime de responsabilidade e provavelmente ficaram constrangidos – se é que ainda conseguem constranger-se por alguma coisa – em citá-las como justificativa para o seu voto.

Apesar de vergonhosa, sob todos os aspectos, a votação teve o mérito de expor à Nação a verdadeira cara da Câmara, onde pontificam parlamentares infantilizados, mesmo alguns com cabelos brancos, evidenciando ao mesmo tempo um nível moral e intelectual bem abaixo do esperado, o que de certo modo explica a sua obediência à liderança de um espertalhão como Eduardo Cunha, o único que, na hora de votar, disse a frase mais apropriada para o momento: "Que Deus tenha misericórdia do Brasil". E foi essa Câmara, também recheada de deputados iguais a Cunha, com contas a ajustar com a Justiça, que votou o afastamento de uma Presidenta reconhecidamente honrada e honesta como Dilma Rousseff. Ou seja, além de cometerem uma ilegalidade estuprando a Constituição Federal, eles não tinham autoridade moral para uma decisão como essa, o que causou estranheza a observadores e à imprensa internacional.

A sessão também revelou à Nação a cara de traidores, como os deputados que assinaram um documento se comprometendo a votar contra o golpe e mudaram o voto na última hora, além de ex-ministros do governo Dilma. Houve também ministros que abandonaram o barco no último minuto, como Eliseu Padilha e Gilberto Kassab, com desculpas esfarrapadas. Alguém já disse que os políticos formam a única classe que desenvolveu o mimetismo, ou seja, a capacidade do camaleão de mudar de cor. São clássicos os exemplos da senadora Marta Suplicy e da ex-senadora Marina Silva, entre outros, que foram carregadas pelo petismo em sua trajetória política e se transformaram em críticas ferozes dos governos petistas aos quais serviram durante muito tempo, posições novas que assumiram não por ideologia, mas por interesses contrariados.

Vale registrar, por outro lado, o destemor dos deputados que, contrariando decisão dos seus partidos, votaram contra o golpe, inclusive manifestando sua indignação por ver no comando da sessão um homem sem nenhuma autoridade moral para conduzir o julgamento de uma pessoa sem mácula como a presidenta Dilma Rousseff. Infelizmente, porém, são minoria e nada poderão fazer para afastar Cunha da presidência da Casa, pois ele tem o controle da maioria dos oposicionistas, os quais manobra movendo seus cordéis como marionetes. E tudo indica que permanecerá no cargo até o final do seu mandato, pois o Supremo não vota a ação que pede o seu afastamento e os seus seguidores afirmam que ele saiu fortalecido da votação do impeachment. Resultado: o Conselho de Ética, mantido patinando no mesmo lugar por suas manobras, não consegue concluir o processo de cassação do seu mandato por quebra do decoro parlamentar. E se bobearem, ele ainda acaba sentando na cadeira de Presidente da República.

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