Zemmour, um piromaníaco que incendeia as presidenciais francesas

"Ele ainda não é candidato, mas ocupa a cena política francesa como nenhum outro, onipresente na mídia. Nos últimos dias, Eric Zemmour ultrapassou Marine Le Pen nas pesquisas e se continuar crescendo estará no segundo turno, certamente contra Emmanuel Macron"

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(Foto: REUTERS/Benoit Tessier)
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A seis meses  das eleições, marcadas para 10 e 24 de abril de 2022, a França vive um clima extremamente confuso. O quadro político está suspenso diante de uma incógnita: a candidatura de Eric Zemmour, 63 anos, que a imprensa define como “polemista de extrema-direita”, que não hesita em declarar “guerra aos estrangeiros, sobretudo muçulmanos”.

Ele ainda não é candidato, mas ocupa a cena política francesa como nenhum outro, onipresente na mídia. Nos últimos dias, Zemmour ultrapassou Marine Le Pen nas pesquisas e se continuar crescendo estará no segundo turno, certamente contra Emmanuel Macron. O seu programa se resume em uma frase: uma “guerra civil” contra os “ocupantes” muçulmanos. 

Jornalista de origem, ex-editorialista do conservador Le Figaro, ex-analista político da TV CNews (espécie de Fox News francesa) panfletário de longa data e autor de livros de sucesso, não esconde sua vontade de se candidatar, embora adie o momento do anúncio deste segredo de polichinelo. Enquanto isso, cresce nas pesquisas de opinião e ganha a adeptos entre os políticos de direita que sempre se negaram, ao menos publicamente a apoiar Le Pen. Num mês, passou de 8 para 17% das intenções de voto no primeiro turno. 

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Zemmour aproveita o momento, já que não é oficialmente pretendente ao Elysée, para se manter no centro das atenções, ocupando ad nauseum o “tempo de antena”.

 A sua candidatura desestabilizaria todo o sistema. Sem ele, Le Pen teria 25%, com ele desceria para 16 e ficaria fora da segunda volta. Também iria roubar votos aos candidatos prováveis de Os Republicanos (direita), como Xavier Bertrand ou Valérie Pécresse.

 O temor dos concorrentes é que, se Zemmour confirmar a candidatura, forçará a polarização política. “Há o risco de radicalização da campanha”. Marine Le Pen tentou “normalizar” o seu programa para alargar o eleitorado e não quer a imigração continue a ser o tema obsessivo. Ora, o que Zemmour se propõe é relançar o tema imigração de forma mais virulenta do que Le Pen. Coloca-a perante um dilema: arriscar perder para Zemmour a franja mais radical do seu eleitorado ou renegar a linha de abertura e voltar ao gueto extremista. Declarou ontem escolher “a moderação”.

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Quanto à esquerda parece fora de combate. O candidato de esquerda, Jean-Luc Mélenchon, do partido Les Insoumis - Os Insubmissos, tentou se posicionar como uma alternativa à extrema-direita; desafiou Zemmour para um debate, mas apesar de ser um exímio tribuno teve de se contentar com um empate, em forma de vitória para o radical de direita. 

O  último livro de Zemmour - La France n’a pas dit son dernier mot , em tradução livre A França não disse a sua última palavra -  repete seus temas apocalípticos:

1) A França desagrega-se, está em curso uma ‘grande substituição’ [remplacement): com a cumplicidade de elites demitentes, os antigos colonos árabes e africanos colonizam os antigos colonizadores, desenrolam-se nos subúrbios os prólogos de uma guerra civil, Seine-Saint-Denis é o futuro da França; 

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 2) O islã é incompatível com a República;

 3) É preciso acabar com a imigração, sem hesitar em pôr em causa as jurisdições, nacional e europeia (como ameaça fazer o regime neofascista polonês); 

 4) Abolir o direito do solo ( que dá a quem nasce na França o direito à nacionalidade), interditar o reagrupamento familiar dos imigrantes, restringir fortemente o direito de asilo;

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 5) Exigir a assimilação total, única política possível para os imigrantes naturalizados;

 Zemmour descende do nacionalismo identitário francês do século XIX,  da extrema-direita de Charles Maurras que combatia a “anti-França”, representada naquela altura pelos “judeus, protestantes, maçons e metecos”. O antissemitismo foi substituído pela islamofobia. Tudo passa pela vitória da Nação sobre os muçulmanos. 

 Zemmour é um nome argelino. Ele é filho de judeus argelinos e identifica-se como “judeu de origem berbere”, para afastar a suspeita de uma ascendência árabe. Numa das suas tiradas que mais irrita os muçulmanos, diz: “se for presidente, impedirei que as crianças sejam registadas com o nome Mohamed”.

 Jean-Marie Le Pen, figura histórica da extrema-direita francesa, pai de Marine, a líder do partido fascista Rassemblement National, já se pronunciou a favor do polemista, salientando que ele tem uma grande vantagem: é judeu e, como tal, não pode ser qualificado de nazifascista (nós, brasileiros, sabemos que não são excludentes).

Apesar de judeu, defende a ação do marechal Pétain, que presidiu os destinos da chamada “França Livre”, colaboradora com a Alemanha nazista, e enviou milhares de israelitas para os campos da morte. 

Eric Zemmour é o correspondente de Michel Houellebecq na literatura. Ambos agitam a bandeira da teoria da substituição, advertindo para o perigo da imposição da sharia. São obcecados pelo perigo islâmico e pela “guerra de civilizações”.

O polemista já foi condenado duas vezes por injúrias e incitamento ao ódio racial. Mesmo assim ocupou, até dias atrás, 5 horas diárias no canal CNews. 

Num editorial de 2019, republicado no dia 8 de Setembro de 2021, escreveu o Monde: “Zemmour deve ser tratado pelo que é: um delinquente e um piromaníaco.”

A pergunta que todos se colocam agora é se o pequeno extremista com cara de diabo pode vir a ser o futuro presidente da França. A meio ano das eleições não há resposta. Entre os democratas, uns acreditam que a bolha vai estourar rapidamente, outros se inquietam, embora  Eric Zemmour tenha o maior índice de rejeição. As pesquisas indicavam o fim da chamada “frente republicana”, a unidade contra os fascistas na 2ª volta: 24% dos “insubmissos”, de  Mélenchon, 5% dos ecologistas e 21% dos eleitores de Os Republicanos (direita) admitiam escolher Le Pen, até então a única candidata da extrema-direita. Outros 52% dos seguidores de Mélenchon, 42% dos socialistas, 44% dos ecologistas e 41% dos eleitores da direita optariam pela abstenção.

Entre os possíveis candidatos da esquerda, à excepção do esquerdista Jean-Luc Mélenchon (11/13%), o panorama é desolador. O ecologista Yannick Jadot estagna nos 6%, a socialista Anne Hidalgo não passa dos 7%, o comunista Fabien Roussel recolhe 3%, o antigo ministro Arnaud Montebourg apenas 2%.

Todos os candidatos de esquerda serão eliminados na primeira volta. Na esteira da eleição legislativa, o risco é ver a esquerda praticamente desaparecer da Assembleia Nacional.Como diz Jean-Christophe Combadélis, ex-secretário nacional do PS: “A esquerda parece cada vez mais uma torre de Babel onde se falam línguas diferentes.”

 Para bom entendedor…

 A França vive num redemoinho político e ninguém sabe com certeza em que direção os ventos vão soprar. Só se sabe, com certeza, que uma inesperada e tenebrosa eleição de Zemmour teria efeitos devastadores no resto da Europa. E no mundo.  

 

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