Além do estupro, Mari Ferrer foi vítima da ‘narrativa da desqualificação’, afirma advogada Mariana Serrano

“A narrativa da desqualificação é usada por advogados com o objetivo de analisar as condutas da vítima e tirar dessa vítima o atributo que faz dela uma vítima”, explicou à TV 247 a especialista. Assista

Mariana Serrano
Mariana Serrano (Foto: Divulgação | Reprodução)
Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

247 - A advogada e co-fundadora da Rede Feminista de Juristas Mariana Serrano explicou à TV 247 que a humilhação a qual foi submetida a jovem Mariana Ferrer durante audiência sobre acusação de estupro faz parte de um fenômeno chamado pela especialista de “narrativa da desqualificação”.

A advogada esclareceu que tal estratégia tem o objetivo de apontar supostos desvios de conduta da vítima para que ela perca, assim, seu status de vítima e consequentemente tenha seu direito de defesa contestado. “A narrativa da desqualificação acontece em casos de violências contra mulheres e é usada por advogados de defesa que pegam diversos elementos discursivos, que não têm nada a ver com a violência que está acusada naquele caso, com o objetivo de analisar as condutas da vítima e tirar dessa vítima o atributo que faz dela uma vítima”, disse.

Serrano também falou que as mulheres, diante do senso comum, precisam provar sua inocência para aí sim conquistarem o direito de serem defendidas e tratadas humanamente como vítimas de violência. “No imaginário popular existem atributos simbólicos que fazem a mulher vítima. Os homens não precisam provar esses atributos simbólicos quando eles são vítimas de crimes. Se você falar de um homem que está desmaiado e chega uma mulher com uma cinta pênis e faz coito anal com ele contra a vontrade dele, indubitavelmente as pessoas vão saber que foi um estupro, porque ele estava desmaiado e não tinha condições de dizer se ele gosta dessa prática ou não. Quando a gente fala da mulher, a sociedade impõe essa análise de se ela é a vítima perfeita”.

“No caso da Mari Ferrer o advogado [de defesa do acusado, André de Camargo Aranha] precisou falar que ela não era virgem mostrando fotos e fazendo aquele show de horrores. Veja: se ela é virgem, ela é quase uma santa, e se ela é quase uma santa ela merece defesa. Esse é o objetivo da narrativa da desqualificação, tirar o atributo de vítima falando que a mulher não merece defesa”, concluiu.

Inscreva-se na TV 247, seja membro e compartilhe:

O conhecimento liberta. Saiba mais

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247