Epidemiologista diz que tragédia brasileira não tem data para acabar

O epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Jesem Orellana, afirma que o cenário brasileiro é lamentável, e a tragédia não tem data para acabar. “O governo federal falhou na gestão da crise. A influência que criaram sobre a população criou a falsa expectativa de que a pandemia era inofensiva e de que a cloroquina, ou outros medicamentos, são a cura para a doença”, disse à RBA

(Foto: REUTERS/Lucas Landau)
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Rede Brasil Atual - A pandemia de covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, segue descontrolada no Brasil. Com 1.220 mortes e 42.619 novos infectados nas últimas 24 horas, o país se aproxima das 70 mil mortes. Desde o início da pandemia, em março, são 69.184 vítimas e 1.755.779 doentes oficialmente registrados. As informações são do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), em boletim divulgado nesta quinta (9).

O Brasil tem mais do que o dobro de mortos do que todos os demais países da América do Sul somados. Em números globais, o país é o segundo mais impactado pelo coronavírus, atrás apenas dos Estados Unidos. Entretanto, o país latino realiza muito menos testes. Cientistas argumentam que o Brasil é um dos países que menos testa pessoas, comparativamente.

Enquanto países europeus e asiáticos promovem relaxamento de medidas intensas de isolamento social com cautela, o Brasil nunca chegou a adotar o isolamento de fato. Essa é uma das razões pelo qual o país não vê reduzir o número de mortos, e há mais de dois meses figura como epicentro da pandemia no mundo.

Descaso

Uma série de fatores preocupa os cientistas brasileiros. Entre eles, está o descaso do poder público, em especial do presidente, Jair Bolsonaro, que minimiza a pandemia, faz piada com as mortes, e defende o uso de um medicamento, a cloroquina (hidroxicloroquina) como se fosse “milagroso”. Em sua “saga”, argumenta ter contraído covid-19 e faz propaganda do remédio, postando vídeo nas redes sociais.

A ciência vai no caminho oposto. A cloroquina não tem eficácia comprovada contra o coronavírus e, em muitos países, foi abolida dos protocolos de atendimento. A afirmação vem de pesquisadores de todo o mundo, fato reconhecido pela Organização Mundial da Saúde. Entretanto, a ciência parece não importar para Bolsonaro, que segue mostrando despreparo para lidar com a pandemia.

Para o epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Jesem Orellana, o cenário brasileiro é lamentável, e a tragédia não tem data para acabar. “O governo federal falhou na gestão da crise. A influência que criaram sobre a população criou a falsa expectativa de que a pandemia era inofensiva e de que a cloroquina, ou outros medicamentos, são a cura para a doença”, disse à RBA.

Falhas e mais falhas

A má condução da crise e o descuido com a saúde pública têm várias faces, explica o cientista, que trabalha no norte do país, região bastante afetada pelo vírus. “Temos falhas na estrutura da vigilância laboratorial e epidemiológica em muitas cidades. Tem falha na vigilância sanitária e as falhas seguiram na estrutura médica e hospitalar. Tem uma conjunção de fatores, que se aliam à sazonalidade”, disse.

Enquanto a covid-19 segue deixando milhares de brasileiros mortos, governadores e prefeitos, que no início do surto chegaram a adotar medidas leves de isolamento, agora relaxam. Com o vírus se disseminando cada vez mais pelo interior do Brasil, a tragédia se intensifica. Muitas cidades não possuem mínima estrutura hospitalar ou de medicina diagnóstica. A subnotificação, que já é realidade, tende a crescer.

“Vemos uma série de fatores que mostram para a sociedade, de forma inequívoca, que os erros e enganos levaram cidades como Porto Velho à beira do colapso na rede assistencial. Hoje, a capital de Rondônia tem uma situação diferente do que tinha em abril, quando o governador (Coronel Marcos Rocha (PSL)) iniciou o processo de flexibilização. Até então, a cidade tinha pouquíssimos casos e estava relativamente bem em relação ao restante do país. Mesmo com uma dificuldade enorme de fazer diagnósticos”, exemplifica Jesem.

As taxas de mortalidade da covid-19 em estados do Norte são as maiores do país, chegando a 71,6 mortos por 100 mil habitantes no Amazonas, 63,3 em Roraima, 54,6 no Amapá. A região tem 55,4 mortos por 100 mil habitantes, enquanto o Sudeste, por exemplo, que tem maior número geral de mortos e infectados, tem 35,1.

Covid-19 vira “natural”

A reabertura precipitada do comércio já mostra seus resultados negativos. “O caso é que hoje, mais de dois meses depois da reabertura do comércio, vemos Porto Velho encaminhando para o colapso. Rio Branco e Boa Vista também seguiram para essa situação bastante desfavorável e dramática”, afirma o cientista.

“O problema vai se estender por mais tempo e vai, provavelmente, vitimar mais pessoas de regiões mais distantes, regiões isoladas sem nenhuma estrutura hospitalar ou de vigilância. Temos de nos preparar para o pior. O avanço da epidemia no interior da Amazônia tende a tornar essa curta história de pandemia mais preocupante”, completa.

Para as reaberturas, muitos governantes usam de argumentos “pouco honestos”, argumenta Jesem. “Temos a naturalização da desgraça. Se olhamos a situação de Manaus e Belém, percebemos que em maio e junho houve uma redução na quantidade de mortes conhecidas, sem contar a subnotificação. O governo usa isso como argumento de que a situação está controlada e que é possível sair de uma suposta quarentena que, na verdade, nunca houve.”

“Insistem em dizer que a situação está controlada. Exploram essa comparação e isso é algo, no mínimo, desonesto. Estamos comparando uma situação ruim com outra situação pior. O correto seria comparar a situação ruim com a situação fora da pandemia. Não é isso que tem sido feito”, completa.

A base de comparação de muitas regiões do país também revela a desigualdade no tratamento. É como se uma vida em Manaus importasse menos do que em regiões do Sul, por exemplo. “Veja a naturalização da desgraça. Enquanto o governo de Manaus “comemora” 70 mortes, em Pelotas (RS), por exemplo, não tem nem 10 mortes até o momento e, o fato do salto de uma morte para cinco em 40 dias foi motivo para a cidade voltar para o isolamento, para uma quarentena mais restritiva. É uma diferença de percepção do governo e da sociedade”, finaliza Jesem.

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