Babenco a Solnik: 'Não filmo mais no Brasil'

Cineasta responsável por clássicos como “Pixote”, “Lúcio Flávio”, “O Beijo da Mulher Aranha” e “Carandiru”, Hector Babenco ganhou lugar no olimpo dos cineastas de todo o mundo; “Estou entre os vinte melhores, já estive entre os dez” disse ele, em entrevista ao jornalista Alex Solnik, colunista do 247; às vésperas de estrear “Meu amigo hindu”, que abre, no próximo dia 21 de outubro a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ele recebeu 247 em sua fantástica casa decorada pelo brilhante arquiteto Isay Weinfeld que ele hipotecou para financiar a produção; Babenco disse ter votado no PT nas últimas eleições, mas hoje afirma "sentir ódio" da legenda; confira a íntegra

Cineasta responsável por clássicos como “Pixote”, “Lúcio Flávio”, “O Beijo da Mulher Aranha” e “Carandiru”, Hector Babenco ganhou lugar no olimpo dos cineastas de todo o mundo; “Estou entre os vinte melhores, já estive entre os dez” disse ele, em entrevista ao jornalista Alex Solnik, colunista do 247; às vésperas de estrear “Meu amigo hindu”, que abre, no próximo dia 21 de outubro a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ele recebeu 247 em sua fantástica casa decorada pelo brilhante arquiteto Isay Weinfeld que ele hipotecou para financiar a produção; Babenco disse ter votado no PT nas últimas eleições, mas hoje afirma "sentir ódio" da legenda; confira a íntegra
Cineasta responsável por clássicos como “Pixote”, “Lúcio Flávio”, “O Beijo da Mulher Aranha” e “Carandiru”, Hector Babenco ganhou lugar no olimpo dos cineastas de todo o mundo; “Estou entre os vinte melhores, já estive entre os dez” disse ele, em entrevista ao jornalista Alex Solnik, colunista do 247; às vésperas de estrear “Meu amigo hindu”, que abre, no próximo dia 21 de outubro a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ele recebeu 247 em sua fantástica casa decorada pelo brilhante arquiteto Isay Weinfeld que ele hipotecou para financiar a produção; Babenco disse ter votado no PT nas últimas eleições, mas hoje afirma "sentir ódio" da legenda; confira a íntegra (Foto: Leonardo Attuch)

Por Alex Solnik

Ninguém sabe – nem ele – se Hector Babenco é o mais argentino dos cineastas brasileiros ou o mais brasileiro dos cineastas argentinos. Define-se como anarquista depois de passar pelo Partido Comunista que abandonou aos 17, porque “não queria ser todo mundo, queria ser eu”. Chegando ao Brasil, sozinho, com menos de 20, foi mascate, vendeu roupa e lugar em cemitério, mas em pouco tempo, graças a sucessos como “Pixote”, “Lúcio Flávio”, “O Beijo da Mulher Aranha” e “Carandiru” ganhou lugar no olimpo dos cineastas de todo o mundo: “Estou entre os vinte melhores, já estive entre os dez” disse ele. Às vésperas de estrear “Meu amigo hindu”, que abre, no próximo dia 21 de outubro a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo ele recebeu 247 em sua fantástica casa decorada pelo brilhante arquiteto Isay Weinfeld que ele hipotecou para financiar a produção. Pouco antes de tomar sua sopa de lentilhas, preparada por dona Verô e ir ao teatro assistir a uma estreia ele explicou porque esse é o último filme que faz no Brasil.

O que você está achando desse caos político? Aonde vai dar esse caos?

É caos com “ch”, é caos com “k” ou é caos com “c”? Deixa eu te dizer... Veja bem... É uma manifestação do corpo. Quando o corpo descompensa, por abuso de materiais químicos ou por ausência deles começa a acontecer aquilo que se chama falência de órgãos. Eu acho que o país está padecendo, sintomaticamente, em todas as suas áreas, especialmente nas nevrálgicas, aquelas que são mais importantes, mais vitais, estão começando a serem  corroídas, enfraquecidas, morrendo de tão mau uso ou da ausência de uso para as finalidades que foram feitas que o paciente provavelmente vai falecer de falência de órgãos. Agora, se o paciente vai depois, à última hora, depois de dado o extremus mortis, conseguir balbuciar algo, conseguir, por aqueles mistérios da química, da química, não da religião, nem de Deus, nem de nada se recompor, ter o último suspiro, que não seja um suspiro de alívio e sim um suspiro de “vamos ver de novo o que acontece”, aquela coisa do nadador que pega ar para poder dar quatro braçadas mais, talvez a gente se salve...senão, a gente vai ficar navegando como uma província embananada, à mercê dos soldados de plantão... porque, de certa forma, as pessoas que estão nos organizando a vida social são soldados de algum tipo de ideologia: seja do roubo, seja do socialismo extremo, seja do  controle total do estado, mas não deixa de ser uma ideologia. Tem vezes que me sinto em algumas gestões práticas da minha profissão com meu interregulador que existe porque eu faço cinema e eu não faço cinema porque ele existe, eu venho antes que a ANCINE, porque eu faço cinema antes da Agência do Cinema ser criada e ela existe porque tem gente que faz filmes que eu estou tratando como organização bolchevique da década de 50 durante o tempo de Stalin! É uma empresa que tinha 80 funcionários, hoje tem 600, onde as pessoas são contratadas por concurso, onde as pessoas são treinadas de determinada forma para atenderem ao freguês, nós, produtores, dentro de um certo modelo de tempo e comportamento que absolutamente não leva em consideração o tempo real da vida como ela é, no mercado, e o desconhecimento e o desprezo não anunciado pelas regras que regem a sobrevivência de qualquer produto, no meu caso, um filme, que é um entretenimento, como podia ser um restaurante, uma outra coisa, faz com que eu me sinta cada vez mais isolado. Isso me faz bem porque me fortalece. Porque me dá força para dizer que este filme que eu fiz é o último que eu faço no Brasil e estou te dando isso de primeira mão, eu vou anunciar isso na noite de estreia do filme, na Mostra Internacional de Cinema, de uma forma menos pomposa do que quando Mario Vargas Llosa disse que não queria mais escrever. Eu acho que não vou filmar mais!

Mas por que?

Porque não há condições.

A ANCINE mais atrapalha que ajuda?

Não é que atrapalha... ela inexiste. Inexiste.

É um órgão que parece fazer, mas não faz parte do Ministério da Cultura...não é?

Veja bem... não, não... é um órgão que faz parte do Ministério da Cultura, sim.

Não faz, quem me disse foi a Ana de Holanda, ela me disse que quando foi ministra não tinha ingerência na ANCINE, só a presidente da República.

Deixa eu dizer... alguém está tocando a campainha. Para um minutinho. Deixa eu atender que eu estou sozinho.

Foi justamente a Ana de Holanda que me disse...

O que disse ela?

Ela me disse que não podia nem nomear diretores da ANCINE, só a presidente da República, a ANCINE se reporta diretamente à presidente...

Exatamente...

E ela também se queixava do Manoel Rangel...

Veja bem. Eu estive na posse do Manoel Rangel. E eu talvez seja um pouco ingênuo, mas no dia da posse dele ele agradeceu ao PC do B por ter sido responsável pela nomeação dele e que ele honraria ideologicamente os princípios que regeram o crescimento profissional dele, com muita elegância, com muita empáfia, com muita calma, com muita serenidade. Eu saí de lá, foi no Ministério da Cultura no Rio, no prédio do Le Corbusier, onde funcionava o Ministério da Educação, sabe onde é?, eu saí de lá, peguei um táxi para ir sei lá aonde, para o aeroporto, nem me lembro, e eu me dizia “que coragem! Que será que isso significa”? E aos poucos fui vendo que eles estavam organizando tudo, editais lançados pela televisão, pela internet, enfim...transformaram o cinema brasileiro em duas grandes correntes. Uma corrente onde se produz cinema de baixo custo e de baixo calão, feito para um retorno comercial rápido apoiado em alguns benefícios e leis que foram criados para quem dá certo e outra metade está ao léu dos famosos programas, editais, então, você tem que se inscrever nos editais e esperar saber se você vai ser convocado ou não, milhares de projetos são analisados por pessoas que não têm nenhuma informação sobre cinema...

Que coisa!

Outro dia liguei para uma pessoa na ANCINE e a pessoa me disse.... uma pessoa que eu não conhecia, me apresentei, falei sou Hector... e a pessoa: ah, eu sei quem é você. Você é famoso. Falei: famoso? Só? É, sei que você é famoso. “Mas você viu algum filme meu”? Aí houve um silêncio. Aí eu pensei com meus botões: como você está conversando de algum problema prático de agenda, de planejamento, sincronismo para que as coisas deem certo com gente assim e essa é a realidade hoje. Então, não adianta falar bem nem mal, coisas boas foram feitas, como essa lei que obriga os canais a cabo produzirem 30% de conteúdo nacional senão eles perdem a licença, uma medida um pouco militaresca “ou você faz isso ou te tiro a lojinha da esquina, você não pode mais vender tua pipoca” e todo mundo se reacomodou, houve uma avalanche de produção, eles soltaram inúmeros editais dando granas absurdas para quem quisesse produzir para a televisão e produtos foram feitos... desenho animado... documentários... ficções... e o mercado não os absorve...

Como assim?

Eles passam em qualquer horário, sem a menor promoção...é como se inexistisse tudo isso... ou seja, eu chamo isso de uma área de produção fantasma. Porque se você parte do princípio de que audiovisual é uma palavra nova, entretenimento é uma palavra americana, arte cinematográfica é uma palavra demodê, mas é para se comunicar com o público, é para ter o mínimo de veiculação com a sociedade...é para que o povo tenha acesso a isso. E esse fenômeno não se realiza. Me lembra muito uma tentativa frustrada que houve na década de 80, que o Nelson Pereira dos Santos na época da Embrafilme liderou um grupo que achava que o grande inimigo do cinema brasileiro era o cinema americano. E que a melhor forma de lutar contra ele... a gente não conseguia entrar nos poucos cinemas que havia porque eles eram ocupados pelo cinema americano. O que era um fato concreto. Grandes filmes brasileiros fazendo rendas altíssimas, inclusive um meu, tiveram que ser retirados porque os donos dos cinemas tinham um acordo, já, de determinadas semanas por ano, com a Fox, com a Disney, com a Universal.

Não dá pra acreditar.

Me lembro que o “Dona Flor e seus dois maridos” saiu do Cine Ipiranga na décima segunda semana fazendo mais que na primeira! E teve que sair para colocar “Todos os homens do presidente”. Que era um filme da Warner, ou da Sony. E que se chamava Columbia. Me perdi um pouco...o que eu quero dizer com isso? Ahh.. aí, o Nelson decidiu, liderou um grupo, com Luiz Carlos Barreto e outras pessoas, comprar um circuito de cinema, “vamos fazer o governo comprar, através da Embrafilme, e teremos cinemas para desovar nossos filmes”. Então, em Madureira, por exemplo, havia o Imperator e o Rialto, em frente. O Rialto pertencia à Embrafilme. Às moscas. Ninguém queria ver o filme. Queriam ver o filme americano. Então, nunca caiu a ficha das pessoas que você não faz entretenimento por decreto. “Eu decreto que você vai ver esse filme porque o cinema é do estado”. Eu tenho grátis a Globo, que é TV de primeira qualidade. Se eu vou ver um filme para gastar 50 pratas eu vou ver o filme que eu quero! A grana é minha! Não caiu essa ficha de que se a gente não ocupa o território do inimigo o inimigo continua dançando valsa! Não é nós olhando do terraço com inveja ao inimigo, dizendo que ele usurpa a nossa identidade, que ele ocupa o nosso espaço comercial. Cabe a nós fazer produtos à altura! A TV faz produto à altura das tevês estrangeiras! Por que não o cinema?

Na TV rola mais grana...

Tudo bem, nós não temos tanta tecnologia, não temos a tradição... o Brasil vive a sina de ser um país monolinguístico, só se fala português. E português só se fala no Brasil. Você não vai passar um filme brasileiro em Angola. Ou Moçambique. Não te pagam nem o frete. Portugueses não querem saber com nosso sotaque de filmes brasileiros. Então, nós somos ancorados no nosso território. E aí lutamos contra os problemas seríssimos de poder aquisitivo contra um entretenimento caro. Por que quem é que pode gastar 25 reais num ingresso para cinema? Duas pessoas mais a pipoca são 70 reais! Quem ganha 1200, 1500 reais por mês não pode ir ao cinema. Então, não há inclusão social do cinema. A única forma, acho eu... eu não tenho a solução, tá? Eu sou cada vez mais adepto quando me coloco um dilema daquele ditado japonês (me disseram que era japonês) ‘”sábio é quem acha o problema, não quem tem a solução”, então eu estou vendo o problema. Qual é a solução? Eu parto do princípio que um par de pessoas inteligentes pensando alto acham soluções. Soluções não se fazem por decreto.  Nem por determinações rigorosas: “a partir de agora será assim e não assado”.

A lei que obriga a passar filmes brasileiros não foi uma coisa boa? 

Fizeram a famigerada lei de 170 dias para o cinema, ou 140, obrigatoriedade de filme brasileiro, tá certo? Vê se funciona! Todo cinema quer passar o filme que lhe dá retorno. E o brasileiro estreia, passa cinco dias e para. Porque não aguenta. Porque com outro filme o cinema faz, sei lá, 300 espectadores por dia e com um mau filme brasileiro faz 15. Tem sessões que trabalham zeradas. E tem grandes comédias brasileiras que fazem dois, três milhões de espectadores. Mas o cinema como nós o concebemos, como uma extensão de um gesto, como uma vontade de contar algo, uma coisa tribal, que vem dos ancestrais em volta do fogo contando histórias, dando risada - eu vivi muito isso com os ianomâmis com quem eu convivi muito - desapareceu, se diluiu. E não é só no Brasil, é no mundo inteiro. O cinema perdeu o status de nobreza que tinha. Hoje o cinema virou uma espécie de estádio de eventos!

Num lugar assim não passa filme de autor...

Cada vez mais o filme é um evento. Tanto é assim que há uma metáfora, há um simbolismo0 inconsciente: os cinemas começam a ser construídos em forma de concha, como os estádios. Antigamente os espectadores iam nos estádios ver gladiadores ser mortos... então, o cinema no Brasil para mim, estou com 69 anos, deu o que deu. Eu sei que poderia ter feito mais do que eu fiz, remei constantemente contra um amigo às vezes, inimigo outras vezes chamado Brasil e agora estou fazendo meu filme de livre e espontânea vontade, com recursos próprios e de alguns parceiros e praticamente ignorando recursos públicos...

Ah, é? Sem Lei Rouanet?

Porque não tem como.

Mas qual foi a saída?

Hipotequei a minha casa.

Essa casa?! Você hipotecou a casa para fazer o filme?

Tô aguardando uns recursos do chamado “fundo setorial”, do qual atendi todas as imposições que eles fizeram e parece quede  parte substancial do que investi, pessoa física, no filme, que eles desconhecem - e não levaram em consideração que o filme já está feito, me tratam como se fosse alguém que está discutindo recursos de um filme que virá a ser feito, eles não têm capacidade e consciência de que podem ver o filme na manhã seguinte, se quiserem, está pronto - talvez eu tenha retorno. Fui aconselhado por vários amigos a fazer isso de qualquer maneira para não perder a casa, eventualmente.

O filme custou quanto?

Custou uma grana, mas eu hipotequei a casa por 3 pau. (Deixa ver se é minha mulher que está me ligando.)

Você foi militante político?

Aos 17 anos, quando a minha cabeça começou a ser feita dei um pontapé na bunda do Partido Comunista, onde frequentei muitas reuniões e trabalhava na livraria do diretor do Partido Comunista da minha cidade...

Na Argentina?

Na Argentina, em Mar del Plata. Achei que aquilo tudo, que trabalhava com a possibilidade de uma revolução futura não era algo que me interessasse e devo isso aos escritores beatniks, que me ensinaram, de alguma forma, o prazer de viver uma aventura existencial e isso me fez abandonar o Partido Comunista, eu não queria ser um monte de gente, eu queria ser eu. E fugi, cara! Sempre fui um anarquista, não me omito, você sabe que minhas opiniões eu falo, eu não me omito em falar nada, não sou um ser apolítico, sou um ateu convicto, e acho que esse sistema político que  está aí, republicano, talvez não seja adequado para o Brasil, um país com diferenças tão brutais como o Norte, o Nordeste, o Noroeste, o Centro-Sul, com diferentes culturas, hábitos, diferentes etnias, formação social, sei lá, o modelo republicano em que o país é representado por senadores que são escolhidos em troca de uma camiseta, um faminto vai votar, não me parece ser esta a representação que temos no Senado. Desde o cabelo tingido do Renan até as contas na Suíça do Cunha, é tudo a mesma história. São pessoas desqualificadas para respeitar e fazer o país crescer. Desde que estou no Brasil, 40 e cacetadas de anos, o único momento que me senti respeitado como cidadão foi no governo Fernando Henrique. Que eu senti que havia... que havia uma pessoa de verdade, tentando fazer o melhor pelo país. E eu acho que ele fez, dentro dos limites dele. O PT bloqueou absolutamente todas as coisas que o Fernando Henrique quis fazer. Não vou falar mais. Chega.  Chega. Pode desligar, querido, por favor. Você mora onde, hein?

Da última vez que nos encontramos, há dois anos, você estava indeciso sobre qual filme fazer e acabou fazendo “Meu amigo hindu”. Foi trabalhoso? Foi difícil? Não tem filme simples, né?

Não tem nada simples. Você conhece alguma coisa mais complicada do que trepar? Conseguir que o outro fique de perna aberta pra você.

Realmente... pensando bem...

Uma vez uma amiga me disse: você acha que é fácil ficar de perna aberta, numa posição tão ingrata, com as pernas levantadas no ar e ter um cara bufando em cima de você querendo te enfiar um negócio?

Um homem que trabalha na casa se despede de Babenco.

Babenco: Velho, tchau, obrigado, mais um dia de luta! Você consertou o celular? Vai, vai sem falta, por favor, eu me sinto mais seguro, Raimundo! Te peço, por favor. Ou passa agora, se quiser, numa loja e já resolve. Tchau.

Não tem coisa mais difícil, realmente. Precisa gostar muito. Ou fingir que gosta.

Eu quero te mandar um convite para você ir na Mostra, ver o filme. Eu tenho o teu e-mail, eu passo para a menina no escritório.  Você vai?

Claro! Gosto dos teus filmes, são cinema de verdade.

Veja, eu gosto muito de um ditado anglo-saxão. Apesar de ter um distanciamento crítico fantástico, eu soube comprar tudo o que os ingleses têm de bom e levaram para a América. “You don’t blow in your own corn”. Você não assopra sua própria corneta. Eu não falo do meu trabalho, não me elogio. Eu me salvei graças à medicina americana, não foi a homeopatia que me tirou do câncer, não foi pilulinha debaixo da língua, foi a medicina, a grande medicina, que são os filhos da puta que só pensam em ganhar dinheiro, porém eles têm pago o preço de salvar o freguês para pagar o dinheiro! Olha que linda essa colocação! O cara faz pesquisas durante dez anos, investe uma grana preta, para ganhar dinheiro, só que ele inventa coisas que fazem parte, entram no corpo de forma mundial, são vendidas patentes, países reproduzem, salvam vidas. O cinema é igual. Se você não participa com... se aquilo que você faz fica fechado no teu umbigo você vira um autista! O homem é um ser gregário, o entretenimento é uma coisa para todos, as pessoas fazem as suas escolhas. Você não determina o que as pessoas têm que ver! Concorda comigo?

Claro. O cinema é talento. É o tal cinema que está acabando, é o cinema de autor, o cinema-cinema. O que acontece no Brasil? Os filmes têm as mesmas histórias e mesmos atores das novelas. Qual é a graça?

O sistema de cinema nos Estados Unidos, França, Alemanha é diferente: atores de cinema não fazem televisão. Eu nunca vi um filme com Jack Nicholson na televisão. Num seriado. Porque        quando ele está no filme você vai ver o filme do Jack Nicholson. Por lei. Star system significa pessoas que estão em uma situação privilegiada de poder trabalhar muito pouco e em coisas escolhidas. Eles não são empregados da máquina de entretenimento.

Outro dia o Juca de Oliveira me disse que o cinema argentino é o melhor do mundo...

Babenco não concorda muito...com a cabeça.

Você, apesar de tantos anos de Brasil no fundo é argentino... em qualquer país que você more você é um argentino...ou não?

Claro, por mais que transmute, a essência é essa.

Você tem a sensibilidade argentina e a vivência brasileira. Não faz cinema para ganhar uma grana...

E se ganhar, tudo bem.

Lógico, sou a favor de que ganhe. Mas a arte tem que vir primeiro.

Não estou te criticando. Estou dizendo: por que não ganhar grana? Mas aí você falou uma coisa muito séria. Talvez a minha inadequação dentro da sociedade, e não posso culpar a sociedade por isso, é pelo fato de não ser nem uma coisa nem a outra, não ser nem argentino, nem brasileiro. Eu não sou nem argentino nem brasileiro, eu sou uma coisa meio híbrida e isso não se adequa, quando falo...

E nem judeu também.

E nem judeu... quando eu falo com colegas meus de cinema brasileiro sinto que eles não entendem o que eu falo. E eles devem sentir a mesma coisa com as coisas que eles falam.

É outra linguagem?

Sei lá. Cada um tem seus gostos.

E, vem cá, porque você está falando em último filme no Brasil? Vai fazer onde os próximos? Na Argentina? Nos Estados Unidos?

Eu posso trabalhar em qualquer lugar do mundo. Eu tenho nome. Em qualquer lugar do mundo eu sou um profissional, estou na lista dos vinte ou trinta melhores diretores, não na lista dos dez, mas já estive. Estou lá. Se eu vou na França fazer um filme ou na Inglaterra eu não tenho que dizer o que eu fiz. As pessoas sabem. Ninguém vai me dizer: eu sei que você é famoso! É foda, cara! É foda! Mas também na minha idade, agora, fazer um movimento de vida de ir pra fora, viajar, tenho um pouco de preguiça, sofro das colateralidades da doença... estou sarado aos 70%... então 30% eu tenho que estar administrando ainda...diabetes... alimentação... tem outras colateralidades...outros problemas, enfim, que todo homem de 70 anos começa a ter... não é um privilégio meu... talvez no meu caso seja um pouco mais agudo pelo fato de eu vir com o corpo mais castigado, mais machucado, mais exposto a centenas de noites em hospitais, que isso é uma ferrugem na tua alma, né. Na tua mente, na tua psique. Muito sorrateiro tudo isso. Quantidade de químicas que tomei...

Isso mexeu muito com você?

Por exemplo: eu queria ter um filho. Adoraria dar um filho à minha mulher, estou apaixonado pela Bárbara. Mas não posso dar. Porque poderia haver uma disfunção genética no meu espermatozóide devido às mutações que houve em meu corpo, provocadas por muitas drogas. Desde as reais até às experimentais. Que quando você está num processo de sobrevivência como eu estive você não tem escolha... assinei muitos documentos autorizando a tomar drogas não aprovadas pelo FBA americano. Sei lá, cara! Então, você passa a ter algumas limitações. E tudo isso já tem vinte anos, irmão! Eu era um homem de 49...no auge da plenitude. Fiquei doente com 38...fiz o transplante com 49...Eu fui muito machucado. Muito machucado. Parei de me perguntar por que. Porque não há resposta.

Por um lado você foi machucado, mas por outro transformou isso em arte.

Eu já tinha feito “Pixote”, “Mulher Aranha”, “Lúcio Flávio”... já tinha demonstrado ao que é que vim...Já havia uma obra...Espera um minutinho. Dona Verô! (“Tô indo”, responde uma voz feminina) Boa noite. (“Boa noite”.) Essa é a dona Verô, que trabalha comigo... Verô tem 19 anos como você pode ver de longe. De perto talvez ela tenha um pouquinho mais. Dona Verô: dois cafezinhos, dois copos d’água. E eu vou ter que sair às 7. Eu queria tomar uma sopinha de lentilha antes de sair. Para que não caia meu açúcar. Então, põe para mim um pratinho, porque quando eu termino com ele vou pôr uma calça comprida e vou tomar uma sopa. (“Tá legal”.) Obrigado, querida. Olha o corpinho que ela tem. Tem 55 anos. Parece uma adolescente. Uma menina. Você é casado?

Estou casado com a Doris.

Com quem?

Com a Doris Giesse.

Eu não sabia! Ela é linda. Interessante. Muito carismática. Quando aparecia no vídeo era muito forte. Tem um jeito muito maneiro. Um olhar interessante. A voz linda. Me lembro.

Não por acaso Boni a escalava para ler todos os textos que diziam respeito ao Collor, no Fantástico.

Há quanto tempo vocês estão juntos?

Há vinte anos. Temos filhos de 18.

Como ela está?

Aconteceram muitas coisas com ela. Caiu do oitavo andar...

Machucou muito?

Nada.

Que rabo! Você poderia estar casado com uma mulher em cadeira de rodas! Vem com ela na estreia do filme.

Entra dona Verô. Babenco fala com ela.

Que horas são?

Ela: Dez para as sete.

(Para mim) Quer tomar uma sopa comigo?

Te acompanho.

É só pôr mais um prato.

Não, não. Faço companhia para você.

Você não quer tomar uma sopa?

Não.

Tá. Eu vou ter que tomar porque às oito eu tenho que estar no teatro... e o teatro é no Bom Retiro. Longe pacas.

Sentamos à mesa.

Isto aqui é uma mesa presidencial. Aqui cabem todos os ministros da Dilma.

Cabem... são 47 ministérios...

Você não soube? Temos menos oito agora.

Eu sou diabético. Eu não posso me dar ao luxo de ficar sem comer nada. Vou tomar uma sopinha para ficar com a pança cheia.

De qualquer maneira, eu acho que o pior que pode acontecer é alguma ruptura, não acha?

Aqui?

Sim, acho melhor continuar como está...

Não sei. Acho que continuar como está é uma forma... sei lá! Vem o Lula aí, será?

O Lula com todas as críticas...

Ele tá louco pra vir!

Ele é mais político que ela.

Evidente. Ele que nos deu essa herança asquerosa...

E ele é um político... com todos os defeitos que ele tem...

Já vi que você é PT.

Não, eu só acho que nessa recessão econômica se vem uma ruptura política aí degringola de vez.

Eu votei no PT. Nas últimas eleições eu votei no PT. Votei mesmo. Filhos da puta! Que ódio eu tenho daquele Rui Falcão! Daqueles ideólogos filhos da puta! Enfim... fodeu o país! Quer ir ao teatro comigo? Vamos junto? Quer ir ao teatro? Pegamos um táxi e vamos. Tá de carro?

Tô de carro.

Vamos ao teatro. É um texto do Drausio, ele vai estar lá.  Come um pouquinho. Está maravilhosa. Vou pôr uma calça. Um homem da minha idade não fica bem ir de bermudas.

Da nossa idade. Sabe de uma coisa? Eu não sinto a idade que tenho. Você sente?

Eu sinto quando tenho que fazer alguma coisa... sei lá, eu sinto diferença em alguns gestos...

Mas, internamente, eu me sinto com 18... sei lá...me sinto tão imaturo, tão despreparado, pensando “o que eu vou ser quando crescer”? Você não tem essa sensação?

Eu estou começando a ter agora.

Vejo às vezes anúncio para estagiários e me pergunto por que não tento?

Tenta ir lá para ver a porrada que você vai levar!

Aos 16 anos, eu bati na porta da Última Hora dominical onde não conhecia ninguém. O porteiro perguntou: você quer falar com quem? “Com o chefe”. É aquele lá, pode falar com ele.

E falou?

Claro. E me contratou na hora. Alberto Helena Jr. “O que você quer”? Quero fazer uma matéria. “Já fez alguma”? Não. “Mas gosto do jornal de vocês”. Eu lia muito aquele jornal.

Era a contrapartida do Notícias Populares, né?

Não. Eu estou falando de 1966... por ai... Última Hora dominical foi o primeiro jornal colorido do Brasil.

Deixa eu pôr uma calça, vai.

Tomei a sopa de lentilhas. Deliciosa.

No carro.

Uma vez o Rudá de Andrade, meu professor na ECA fez uma coisa muito louca. A gente estava no Embu, numa filmagem. Do sítio onde a gente estava hospedado até a locação eram dez quilômetros. Embarcamos no jipe com Rudá na direção. Ele fez os dez quilômetros de marcha a ré, acredita?!

Eu conheci o Rudá, me foi apresentado pelo Francisco Luiz de Almeida Salles...no barzinho do Museu...

O “Presidente”? Lembra? Ele colocava a mão no coração e dizia “Fabuloso”!

Meu primeiro amigo no Brasil foi um polonês e eu me lembro que ele recebeu uma carta de uns conhecidos que viriam da Polônia para cá, dentre eles uma menina muito linda... Era a mulher mais linda que eu vi na minha vida!  Eu falei: você tem que casar com ela. E eles se casaram. Ele era louco por ela.

Eu conheci. Eu fui o melhor amigo desse polonês no colégio. O Roman Stulbach. Saímos muito nós três juntos, eu, Roman e ela.

Eu só sei que depois o Rudá ficou com ela e o Roman nunca mais se recuperou.

A história é mais comprida do que isso. Roman e Rudá se tornaram os maiores amigos da turma de Cinema, Rudá diretor e professor e ele aluno da Escola de Comunicações e Artes. Saíam para beber todas as noites. Eram amigos fraternos. Tinham as mesmas opiniões. Frequentavam a casa do outro. Roman trouxe Rudá para dentro da sua casa e da extensão da sua casa. Rudá conheceu a mulher do Roman e a irmã dela mais nova, então com 18 anos. Em pouco tempo, Rudá e a irmã dela se apaixonaram e se casaram.  Pouco tempo depois, não sei como nem porque Rudá e a mulher do Roman estavam juntos. E se casaram. O Roman mudou-se para o Rio.

Morreu de cirrose há pouco tempo. Foi meu primeiro amigo, ele me ajudou muito, a mãe dele dava roupas para mim...

E ele foi um grande poeta, escrevia como gente grande já no colégio...olha, aquele ali é o prédio onde ele morava, lembra?

Claro. E neste em frente aconteceu uma coisa engraçada. Uma moça me levou para trepar num apartamento desse prédio. Só que o marido dela chegou e eu estava de cuecas. E ele tinha um revólver.

Um revólver?

Pelo menos dizia que tinha. E então ocorreu uma cena incrível que um dia eu vou colocar num filme. Ele baixou as calças. Mandou que eu baixasse as minhas. (Eu já tinha me vestido a essa altura.) E perguntou à mulher: qual pau você prefere? Ele tinha uma tromba e o meu pau era mais modesto do que iss

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