Beatriz Bevilaqua, 247 – O paulistano Alexandre Medeiros, 52 anos, mora há mais de uma década em Brejo Santo, no Cariri cearense. Consultor empresarial, artesão, vegetariano e fã antigo da TV 247, ele construiu uma trajetória marcada por mudanças radicais e hoje aposta na criatividade como eixo de transformação pessoal, comunitária e econômica.
Sua história começa em São Paulo, onde ainda jovem, montou uma locadora de CDs com dois amigos, em meados dos anos 1990. O negócio não deu lucro, mas foi sua primeira experiência concreta com o desafio de empreender no Brasil, que exigiu “resiliência, propósito e cuidado emocional”. Depois disso, Alexandre seguiu carreira na importação e passou vários anos trabalhando com brasileiros e taiwaneses.
Morou na China, mas a rotina intensa e uma doença autoimune o levaram de volta ao Brasil, para a área administrativa, onde descobriu outra aptidão: a análise de negócios e a melhoria de sistemas de gestão. Mas foi em 2013, com o nascimento da filha, que tudo mudou. “Eu olhei pra minha esposa e pensei: não quero criar minha filha em São Paulo, saindo antes de ela acordar e voltando depois que dorme.” O casal deixou a capital e tentou a vida na Paraíba.
Sem oportunidades formais, Alexandre fez algo que mudaria seu rumo: comprou uma serra de mesa para produzir os próprios móveis. “Ali, sem perceber, nasceu a Kariri Design”, conta. Antes com madeira, depois com mosaico, Alexandre descobriu um talento manual que se tornaria sua marca. O primeiro contato com o mosaico veio ao observar uma placa artesanal feita por um amigo. A partir dali, nunca mais parou. Hoje ele produz mesas, quadros, painéis e móveis que misturam cerâmica, pedras, madeira e simbologias culturais.
Entre as peças mais marcantes estão um painel em homenagem ao MASP, uma mesa inspirada na paz durante a pandemia e até um mosaico do presidente Lula, finalizado no dia 30 de outubro de 2022, data de seu aniversário e da vitória eleitoral que, segundo ele, “transformou a festa em dobro”. A arte se transformou em território de resistência e renda complementar, mas Alexandre é realista: é difícil viver exclusivamente dessa arte no Brasil. “Um quadro leva horas e horas. A pessoa acha lindo, mas quando você fala que custa R$ 300 ou R$ 400, já acha caro. Aqui no Cariri, muita gente não tem condições mesmo”, afirma. Por isso, ele continua atuando como consultor empresarial e, ao mesmo tempo, investe em marketing digital para atingir novos públicos de designers de interiores, arquitetos e compradores de maior poder aquisitivo. “Para vender arte, é preciso entender tráfego pago, funil de vendas, persona, escada de valor. Não tem como fugir. E a inteligência artificial tem ajudado muito”, explicou.
Após a pandemia, Alexandre se aproximou do coletivo Cariri Criativo, formado por artistas, produtores e empreendedores da região. Passou a participar de feiras, eventos culturais e ações integradas, que reacenderam seu entusiasmo. O movimento resultou na criação da Associação dos Empreendedores Criativos do Cariri (AECC), que hoje articula parcerias com UFCA, URCA, SESC, SENAC, BNB e prefeituras. Para Alexandre, essas iniciativas materializam um modelo de empreendedorismo que dialoga com a realidade brasileira: colaborativo, inclusivo, sustentável e emancipador.
Hoje, Alexandre divide seu tempo entre consultoria, arte e um sítio a poucos quilômetros de casa. O plano é claro: viver cada vez mais do trabalho manual, da terra e da criatividade. “Quero comer meus próprios alimentos, produzir arte, cuidar dos animais de rua e construir oficinas para crianças e idosos”, afirma. “A arte me cura. Cada quadro de mosaico é uma viagem: escolher as pedras, pensar as cores, montar o desenho… quando as crianças tocam o mosaico, parece que a alma vibra.”
Para ele, o empreendedorismo não se resume ao ato de abrir empresas, é uma forma de conduzir a própria vida. “Empreendo desde o momento que abro o olho até a hora de dormir. Planejar, agir, gastar menos do que ganho, entender propósito. O maior desafio está dentro da nossa cabeça: o medo. Quem trabalha com arte sabe bem.” O mosaico ainda não paga todas as contas, mas é o que dá sentido ao caminho. E é isso, diz ele, que sustenta quem decide empreender: não apenas a renda, mas a potência de criar algo que deixe o mundo um pouco mais bonito.
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