Fernando Horta: “A fraude está sendo urdida no Brasil”

Historiador relaciona soberania tecnológica, disputas eleitorais na América Latina e avanço do descrédito das instituições

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247 – O historiador Fernando Horta afirmou que o Brasil vive um momento de risco para sua soberania política e tecnológica, em um cenário que, segundo ele, reproduz padrões observados em outros países da América Latina. Em entrevista ao Bom Dia 247, Horta sustentou que a contestação das instituições eleitorais, a dependência de empresas estrangeiras na infraestrutura digital e o crescimento do descrédito nas instituições fazem parte de um mesmo processo político. Para ele, “a fraude está sendo urdida no Brasil”.

Ao analisar o contexto latino-americano, Horta estabeleceu um paralelo entre a atual conjuntura e os golpes militares ocorridos nas décadas de 1960 e 1970. Segundo o historiador, naquele período a narrativa predominante era de que os regimes militares representavam uma reação espontânea das sociedades à chamada ameaça comunista. Posteriormente, afirmou, pesquisas históricas demonstraram que havia uma ampla articulação dos Estados Unidos envolvendo financiamento político, apoio institucional e operações destinadas a influenciar os rumos políticos da região.

Na avaliação de Horta, uma lógica semelhante pode ser identificada atualmente, embora utilizando instrumentos distintos. Em vez de intervenções militares, o foco estaria na deslegitimação das instituições eleitorais e no enfraquecimento da confiança pública.

“A fraude está sendo urdida no Brasil. A América Latina inteira está sob uma sombra de fraude eleitoral.”

Segundo o historiador, o roteiro observado em diferentes países começa com campanhas que colocam sob suspeita os sistemas eleitorais, os tribunais e os mecanismos de apuração dos votos. A partir desse ambiente de desconfiança, surgiram lideranças que se apresentam como alternativas ao sistema político tradicional. Horta citou episódios ocorridos na Venezuela, na Colômbia e no Peru como exemplos de um padrão que, segundo ele, se repete em diferentes contextos nacionais.

Ao tratar especificamente do caso brasileiro, Horta afirmou estar preocupado com a infraestrutura tecnológica utilizada para a transmissão dos dados das urnas eletrônicas. Segundo ele, teve acesso a consultas de preços e editais elaborados por Tribunais Regionais Eleitorais que privilegiam soluções baseadas na infraestrutura da Starlink, empresa de internet via satélite controlada por Elon Musk.

Para o historiador, o momento mais sensível das eleições não ocorre durante a votação nas urnas, que permanecem desconectadas da internet, mas justamente na transmissão dos dados para o Tribunal Superior Eleitoral.

“Enquanto o voto está na urna, ele está fora da rede. O momento mais delicado é justamente quando esses dados são transmitidos.”

Na avaliação de Horta, essa etapa deveria permanecer sob controle de instituições brasileiras. Ele defendeu que empresas públicas, como a Telebras, participem obrigatoriamente da infraestrutura de transmissão dos resultados, juntamente com órgãos como a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e o Ministério da Justiça.

Segundo o historiador, mesmo que não exista qualquer evidência de fraude, a simples possibilidade de atrasos seletivos na transmissão dos dados poderia produzir uma grave crise política. Como hipótese, ele afirmou que um atraso na chegada dos votos das regiões Norte e Nordeste seria suficiente para alimentar discursos de contestação do resultado eleitoral antes da conclusão da apuração.

A preocupação de Horta vai além das eleições. Durante a entrevista, ele afirmou que o Brasil acumulou, ao longo dos últimos anos, uma crescente dependência tecnológica de empresas estrangeiras, tanto no armazenamento de dados públicos quanto na utilização de plataformas digitais.

Como exemplo, citou o Cloud Act, legislação aprovada pelos Estados Unidos em 2018 que permite às autoridades norte-americanas requisitar informações armazenadas por empresas sob sua jurisdição, ainda que esses dados estejam fisicamente localizados em outros países. Para o historiador, esse cenário demonstra a necessidade de ampliar os investimentos nacionais em infraestrutura tecnológica.

“Na tecnologia é sempre melhor desenvolver do que comprar.”

Segundo Horta, embora desenvolver soluções próprias demande mais tempo e recursos, essa estratégia fortalece a autonomia do país e reduz vulnerabilidades em áreas consideradas estratégicas. Essa preocupação acompanha análises recentes sobre geopolítica digital, que apontam infraestrutura de dados, satélites, redes de comunicação e armazenamento em nuvem como elementos centrais das disputas contemporâneas entre Estados. 

Na parte final da entrevista, Horta comentou um artigo recente de sua autoria, no qual discute a relação entre a perda de credibilidade das elites políticas e o fortalecimento do fascismo. Segundo ele, o apoio popular a projetos autoritários não nasce de uma predisposição moral, mas da percepção de que existe um profundo distanciamento entre o discurso das instituições e a realidade vivida pela população.

O historiador afirmou que decisões envolvendo privilégios de autoridades, benefícios concedidos ao alto escalão do Judiciário e manobras políticas em torno de temas de interesse social acabam produzindo um sentimento crescente de indignação.

“Quando os discursos se descolam da realidade, sobra apenas a violência como resposta para uma população indignada.”

Na avaliação de Horta, esse ambiente favorece o crescimento da extrema direita, que passa a canalizar a insatisfação social prometendo romper com o sistema existente. Por isso, argumentou, a esquerda não pode limitar sua atuação à defesa das instituições tal como elas funcionam atualmente, mas precisa apresentar um projeto de transformação capaz de recuperar a confiança da sociedade.

Ao concluir a entrevista, o historiador afirmou que democracia, soberania tecnológica e desenvolvimento nacional passaram a ser temas inseparáveis. Para ele, preservar a integridade do processo eleitoral exige não apenas segurança institucional, mas também capacidade tecnológica própria e um projeto político que responda às demandas da população.

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