De costas para o Brasil

Recentemente, o governo federal autorizou o repasse de mais R$ 500 milhões através do Banco do Nordeste para os agricultores atingidos pela seca. É pouco. Só a Bahia prevê uma perda de R$ 7,7 bilhões

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Após o deslizamento de terra no centro de Nova Friburgo, em 2011, a presidente Dilma Rousseff teve a sensibilidade de correr para a região serrana do Rio de Janeiro. De colete laranja e galochas, percorreu as ruas ao lado do governador Sérgio Cabral (PMDB) para socorrer as famílias desabrigadas. Na Bahia, milhões de pessoas sofrem com o maior período de estiagem da história, que prevê perdas da ordem de até R$ 7,7 bilhões segundo levantamento realizado pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI).

De frente para o mar, a opinião pública deve olhar para trás. E antes que a oposição fanfarreie por aí, os ministros Fernando Bezerra (Integração Nacional), Mendes Ribeiro (Agricultura), Pepé Vargas (Desenvolvimento Agrário), Tereza Campello (Desenvolvimento Social) e Isabela Teixeira (Meio Ambiente), especialmente, precisam acampar na Bahia. É periclitante a exposição de parte da Serra do Sobradinho, no Vale do Capão. A área, integrante da Chapada Diamantina, já perdeu mais de 500 hectares em quatro dias de chamas, além de sucessivos focos de incêndio ainda mais desastrosos para regiões como Jacobina, onde palmas dobram e pés de frutas, a exemplo da manga, morrem desde a raiz. Não bastasse a seca, o fogo consome e aperreia o juízo do sertanejo.

Em Jacobina, uma serra de mata fechada pegou fogo no início do ano. A flora da serra é composta por espécies como samambaia, assa-peixe, crioula, barba-de-bode, batata de teiú, jurema preta, pau de fuso, jurubeba, juazeiro, ingazeira, caatinga de porco, quebra-facão, umburana, angico, pinhão, tábua, barriguda, gameleira, mucunã, manacá, iço, graviola, jenipapo, madeiras de lei, entre várias outras, dizimadas pelos fortes ventos que alastram o fogaréu para todo o lado. Após uma solicitação feita por mim ao governador Jaques Wagner e ao secretário de Meio Ambiente, Eugênio Spengler, o estado contratou a empresa América Sul, que usou 60 mil litros de água para conter as chamas.

Segundo a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado (Faeb), as pequenas cidades vão enfrentar o desabastecimento de carne bovina e o conseqüente aumento de preço. De maneira preventiva, desde julho de 2012, fiz requerimento ao ministro da Fazenda, Guido Mantega para garantir isenção de ICMS para o transporte de rebanho dos estados atingidos pela seca no nordeste, tendo em vista o lamentável cenário de quem viaja pelo interior baiano e vê ao longo das estradas carcaças e mais carcaças de gado ao longo do trajeto. Felizmente, o Conselho Nacional de Política Fazendária (CONFAZ) atendeu no mês de junho e publicou no Diário Oficial da União o meu pedido de suspensão do ICMS nas saídas de gado para "recurso de pasto" entre os estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Sergipe e Tocantins.

Recentemente, o governo federal autorizou o repasse de mais R$ 500 milhões através do Banco do Nordeste para os agricultores atingidos pela seca. É pouco. Só a Bahia, como eu disse antes, prevê uma perda de R$ 7,7 bilhões. Ou seja: o montante de R$ 500 milhões para todo o nordeste disponibilizado com juros de até 3,5% para o médio e grande produtor e 1% para o pequeno produtor não melam sequer a boca seca do gado. A produção de leite, por exemplo, já apresenta uma queda aproximada de um 1/3, o que representa 1,5 milhão de litros por dia. Com redução de 60% na produção no setor, as cidades de Itapetinga, Jequié e Itabuna são as que sentem os maiores efeitos da seca no segmento do leite.

Por causa da seca, o governo proibiu o uso da água para fins comerciais e liberou apenas para abastecimento da população. A produção de abacaxi em Itaberaba, por exemplo, já está com a safra deste ano comprometida e com o plantio para o próximo ano atrasado. A longa estiagem na Bahia exige um esforço maior e o mesmo tratamento excepcional empregado pelo governo federal ao sul do país. O fato de a seca compor parte da identidade geográfica do nordeste não pode virar sinônimo de naturalidade ante as intempéries que enfrentamos.

Assim como o governador Jaques Wagner, a população do semiárido não dorme. O sisal, uma das plantas símbolo de resistência e adaptação à seca, agoniza ante a estiagem prolongada, com uma perda estimada, em 2013, de 75% da produção. Em 2011, por exemplo, a produção foi de 79.470 toneladas. Em 2012, caiu para 48.690 toneladas, uma perda de 38,7%. Apesar de tranquilizadora, a inauguração da Adutora do Feijão, em Malhada, e a Adutora de Pedras Altas, em Capim Grosso, bem como, o andamento das obras da Adutora do São Francisco e a previsão de construção da Adutora de Feira da Mata também revelam o catastrófico quadro de abandono no setor de abastecimento de água herdado, em 2007, pelo o atual governo.
Por hora, independente do escárnio da oposição, de quem inaugurava uma barragem ou uma adutora de eleição em eleição, fique a mensagem de quem experimentou dois governos petistas memoráveis para a população nordestina: não virem as costas para o nordeste.

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