Disputa por partidos de aluguel reforça urgência da reforma política

As reclamações tornadas públicas nesta quinta-feira (1º) do presidente do PHS e do vice-presidente do PEN, ambos em Sergipe, contra a intromissão de Edivan e Eduardo Amorim sobre esses partidos servem para mostrar quão desorganizada e pouco programática se tornou a relação entre as legendas partidárias no país; no arranjo geral das dezenas de siglas de aluguel, a maioria dos políticos tem feito uso de articulações para atrair para si esses pequenos feudos, exercendo sobre eles influência e, com eles, disputando espaços de poder; é este cenário que explica o porquê do Congresso ter se recusado a levar adiante a proposta da presidente Dilma Rousseff (PT) de se fazer uma reforma política ouvindo toda a sociedade

Disputa por partidos de aluguel reforça urgência da reforma política
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Valter Lima, do Sergipe 247 – Na ausência de uma reforma política que torne o sistema partidário brasileiro mais honesto e moderno, os partidos multiplicam-se, servindo de moeda de troca a todo tipo de politicagem. Com acesso a recursos públicos e a tempo de TV e rádio na propaganda partidária, estas siglas (acertadamente denominadas “de aluguel”) são órfãs de programas e projetos sérios de gestão. Fatos recentes, que ocorreram em Sergipe, corroboram para o desenho deste quadro.

Após perder o controle do PTB para o deputado federal Almeida Lima (que estava no PPS, mas que se elegeu pelo PMDB), o agrupamento político de Edivan e Eduardo Amorim (que até então controlava 12 partidos) partiu em busca de novas siglas que turbinassem o projeto político deles para 2014. Tentaram atrair o PHS (até agora não obtiveram êxito) e conseguiram o PEN, um dos mais novos partidos criados no país. Em ambas as situações, o modo de operação se mostrou ultrapassado e pouco condizente com atual momento político brasileiro.

Sobre o primeiro caso, o presidente atual da sigla, João Nascimento, disse nesta quinta-feira (1º), em entrevista ao radialista George Magalhães, que emissários de Amorim tentaram sensibilizar a direção nacional do PHS com uma proposta financeira. “Não decidimos apoio a partir de acordos financeiros. Proposta de Amorim é arcaica e mercantilista. Tentaram sensibilizar a direção nacional do ponto de vista financeiro desde quando o grupo de Amorim assumisse a direção estadual do partido. Não foi aceito”, afirmou.

Em relação ao PEN, o grupo conseguiu retirar o presidente, Professor Bosco, e colocar alguém da confiança de Amorim no lugar, o advogado Emanuel Cacho (que foi candidato a senador em 2010 pelo DEM, numa chapa adversária a Amorim). Na noite desta quarta-feira (31), inclusive, Cacho já apareceu na TV nas inserções partidárias, com discurso muito semelhante ao que fez Eduardo Amorim na propaganda do PSC no primeiro semestre. Também entrevistado por George Magalhães, o Professor Bosco lamentou a forma como lhe retiraram da liderança do partido.

“Fizemos a nossa propaganda partidária mostrando, entre outras coisas, os problemas deixados na saúde pelo senador Eduardo Amorim quando foi secretário estadual. Ele não gostou, reclamou ao diretório nacional, que me indagou sobre o programa e me destituiu do cargo, me deixando na vice-presidência. Eu participei da construção do partido em Sergipe. Não é justo. Vou a Justiça, porque entendo que tenho direito de permanecer presidente”, disse.

Na edição desta quinta-feira, o blog do jornalista Cláudio Nunes publica a troca de mensagens entre o Professor Bosco e o presidente nacional do PEN, Adilson Barroso, discutindo essa questão. A mensagem de Barroso: “Prezado Bosco, entre um dos meus melhores amigos que eu fiz no PSC, está o Senador Amorim de SE, eu fiquei sabendo que você invés de falar do programa do partido no rádio e na Tv, foi falar mau de políticos, isso não é bom para nós, pois o nosso foco é a sustentabilidade e não derrubar governos, a não ser democraticamente, você pode ver que mesmo você não cumprindo a meta de abaixo-assinado eu deixei você ai como presidente, mas vendo que sua experiência neste meio político é pouca, eu estou trocando a Presidência aí, estou deixando você como Vice presidente estadual, eu preciso eleger deputados para poder defender a sustentabilidade”.

A resposta de Bosco: “não é verdade que falei mal do senador Eduardo Amorim, além do mais ele não é governo e nem governador. Estou trabalhando duro com mais de 20 candidatos com potencial de eleição para Deputado Estadual e três para Deputado Federal. Aqui em Sergipe atingi a meta das assinaturas necessárias e homologuei o partido entre os 9 estados necessários para a homologação do PEN a nível nacional junto ao TSE. O partido e seus políticos ouviu o grito das ruas e alertando a classe política para o novo momento que se apresenta no cenário político nacional e local colocou como exemplo a saúde e fez alerta aos políticos nacionais e sergipanos, ressaltando que não dá para continuar fingindo que não passou pela  Pasta da Saúde e jogando para a galera”.

Para além dessas picuinhas políticas, o que se percebe é que a forma como os arranjos políticos são feitos está em total dissonância com o grito dos protestos, que se alastraram pelo país desde junho – e que continuam acontecendo quase diariamente. A ânsia de Edivan e Eduardo Amorim em montar um palanque vistoso para 2014 só revela que não há para eles diferença alguma na definição de aliados e das siglas que comporão seu projeto.

Em menor medida, o que os irmãos Amorim fazem no atacado, outros políticos sergipanos fazem no varejo, embora com menor agressividade na negociação. Sem qualquer consistência programática, o PTB, que estava com a oposição, migrou para o Governo, numa articulação do governador em exercício Jackson Barreto (PMDB), dando a sigla para Almeida Lima.

Em tempos menos recentes, o PSDB, que sempre foi presidido pelo ex-governador Albano Franco, foi colocado nas mãos de José Carlos Machado, até então quadro histórico do DEM, para dar sustentação ao projeto de João Alves Filho (DEM) e evitar sustos na formação da aliança em 2012, como os que se deram em eleições passadas. À época, o PSDB estava em aliança com o PC do B, de Edvaldo Nogueira.

Até mesmo, quando na criação do PSD, um dos partidos mais fisiológicos do país, o governador Marcelo Déda (PT) participou da negociação que colocou a sigla na base governista, impedindo que ela migrasse para o balaio de partidos comandado por Edivan Amorim. Atualmente presidente do PT de Sergipe, o deputado federal Rogério Carvalho, atua para que mais um novo partido, o PROS, seja liderado no Estado por um aliado seu, o ex-prefeito Valmir Monteiro.

Ou seja, no arranjo geral das dezenas de siglas de aluguel, a maioria dos políticos tem feito uso de articulações para atrair para si esses pequenos feudos, exercendo sobre eles influência e, com eles, disputando espaços de poder. É este cenário que explica o porquê do Congresso ter se recusado a levar adiante a proposta da presidente Dilma Rousseff (PT) de se fazer uma reforma política ouvindo toda a sociedade. Está mais do que comprovado que o país não precisa de tantos partidos sem conteúdo ideológico.  

 

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