Ben Norton denuncia campanha do Vale do Silício contra a China na corrida da inteligência artificial

Jornalista afirma que big techs financiam influenciadores e usam a retórica da segurança nacional para defender monopólios tecnológicos

EUA e China duelam pelo futuro da IA
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247 – O jornalista Ben Norton, editor-chefe do Geopolitical Economy Report, afirma que as maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos estão conduzindo uma ampla campanha política, econômica e midiática para preservar sua supremacia global na inteligência artificial e conter o avanço da China. Em vídeo publicado em seu canal, Norton sustenta que corporações do Vale do Silício atuam em estreita parceria com o governo norte-americano para promover uma nova Guerra Fria tecnológica.

Com base em reportagens publicadas por veículos como Wired, The Guardian, Axios e Politico, Norton argumenta que empresas como OpenAI, Palantir, Google, Microsoft, Oracle, Nvidia, Amazon Web Services e SpaceX estariam articulando campanhas de influência, pressionando por subsídios públicos, colaborando com projetos militares e utilizando a narrativa da segurança nacional para justificar políticas destinadas a preservar seus monopólios tecnológicos.

Influenciadores seriam pagos para disseminar propaganda

Segundo Norton, reportagem da revista Wired revelou que empresas do Vale do Silício estão financiando influenciadores digitais para divulgar mensagens favoráveis à indústria norte-americana de inteligência artificial e contrárias à China.

Ele afirma que grupos como o super PAC Leading the Future e a organização Build American AI oferecem pagamentos a criadores de conteúdo, inclusive influenciadores sem atuação política, para publicar vídeos reforçando a ideia de que a China representa uma ameaça aos Estados Unidos.

Norton reproduz literalmente um dos roteiros distribuídos aos influenciadores:

 “Acabei de saber que a China está tentando muito vencer os Estados Unidos em inteligência artificial. Se isso acontecer, pode significar que a China obtenha dados pessoais meus e dos meus filhos e tire empregos que deveriam estar aqui nos Estados Unidos na corrida da inovação em IA. Eu sou time EUA.”

Segundo ele, influenciadores receberiam milhares de dólares por um único vídeo com esse conteúdo.

Protestos contra data centers seriam tratados como ameaça nacional

Para Norton, a campanha vai além das redes sociais.

Ele cita reportagem do Axios segundo a qual grupos financiados pelas grandes empresas de tecnologia procuram associar manifestações populares contra data centers a uma suposta estratégia chinesa para enfraquecer os Estados Unidos.

Na avaliação do jornalista, cria-se uma narrativa segundo a qual qualquer crítica aos impactos ambientais da inteligência artificial ou à concentração econômica das big techs favoreceria Pequim.

“O argumento deles é simples: se você critica esses monopólios corporativos, então está ajudando a China.”

Caso envolvendo Elon Musk

Outro exemplo citado por Norton envolve a empresa xAI, de Elon Musk.

Segundo reportagem mencionada pelo jornalista, a empresa foi alvo de ação judicial apresentada pela NAACP, que acusa a instalação de dezenas de turbinas movidas a gás metano sem licença ambiental para abastecer um centro de dados localizado em uma comunidade pobre e majoritariamente negra do Mississippi.

Norton destaca que o Departamento de Justiça do governo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, interveio em defesa da empresa.

Segundo ele, o governo argumentou que os data centers utilizados para treinamento de inteligência artificial são estratégicos para a economia e para o Departamento de Defesa, razão pela qual ações ambientais não deveriam comprometer esses projetos.

Para Norton, isso demonstra que Washington estaria priorizando os interesses das gigantes da tecnologia em detrimento das populações mais vulneráveis.

Uma nova Guerra Fria baseada na inteligência artificial

Ao longo da análise, Norton sustenta que Washington passou a enquadrar a disputa tecnológica com Pequim como uma verdadeira corrida armamentista.

Segundo ele, parlamentares norte-americanos e representantes do setor tecnológico descrevem a inteligência artificial como o equivalente contemporâneo da corrida nuclear travada durante a Guerra Fria.

Nesse contexto, afirma o jornalista, a principal preocupação do Vale do Silício é impedir que empresas chinesas ampliem sua presença internacional.

Eric Schmidt critica modelos abertos da China

Norton cita declarações do ex-presidente-executivo do Google, Eric Schmidt, segundo as quais a China estaria promovendo uma ampla difusão global de tecnologias abertas de inteligência artificial.

Schmidt afirmou:

 “O que eu não gosto é que a China está muito focada na ampla difusão dessa tecnologia globalmente e tudo é código aberto, o que significa que ela não é controlada e certamente não é controlada por nós.”

Para Norton, essa declaração evidencia que o objetivo das empresas norte-americanas é preservar o controle sobre as tecnologias mais avançadas do setor.

Ele também lembra que Schmidt exerceu forte influência sobre a política científica durante o governo de Joe Biden, demonstrando, segundo sua avaliação, que essa estratégia transcende diferenças partidárias entre democratas e republicanos.

Peter Thiel: “a concorrência é para perdedores”

O jornalista também destaca a influência do investidor Peter Thiel, um dos principais financiadores de Donald Trump e mentor político do vice-presidente JD Vance.

Norton recorda um artigo publicado por Thiel em 2014 no Wall Street Journal, intitulado Competition is for Losers, e uma palestra ministrada na Universidade Stanford.

Na ocasião, Thiel declarou:

 “Se você está criando uma empresa, sempre deve buscar o monopólio e evitar a concorrência. A concorrência é para perdedores.”

Segundo Norton, essa filosofia representa a lógica predominante entre os grandes investidores do Vale do Silício.

OpenAI pede ajuda ao governo

Outro ponto destacado é a situação financeira da OpenAI.

Segundo Norton, embora a empresa tenha registrado perdas bilionárias, continua anunciando investimentos gigantescos e busca apoio financeiro do governo norte-americano.

Ele afirma que a OpenAI enviou carta ao Escritório de Política Científica e Tecnológica da Casa Branca defendendo maiores subsídios públicos para enfrentar a concorrência chinesa.

Também cita declarações do diretor financeiro da empresa defendendo uma espécie de garantia federal para investimentos em inteligência artificial.

Segundo Norton, documentos obtidos pelo jornalista Ed Zitron indicariam prejuízo de aproximadamente US$ 5 bilhões em 2024, apesar de planos de investimentos muito superiores.

Inteligência artificial e indústria militar

Norton dedica parte significativa da análise à crescente integração entre empresas de tecnologia e o Pentágono.

Segundo ele, o Departamento de Defesa anunciou contratos envolvendo OpenAI, Google, Microsoft, Nvidia, Oracle, Amazon Web Services, SpaceX e outras empresas para projetos militares classificados.

O objetivo declarado, segundo documento citado pelo jornalista, seria transformar as Forças Armadas dos Estados Unidos em uma força militar orientada por inteligência artificial.

Norton afirma que o Pentágono também solicitou US$ 54 bilhões para o desenvolvimento de armas autônomas.

Na avaliação do jornalista, isso demonstra que as grandes empresas de IA participam diretamente do complexo militar-industrial norte-americano.

Palantir e o avanço da vigilância

Entre todas as empresas citadas, Norton dedica atenção especial à Palantir.

Segundo ele, a companhia vem recebendo contratos bilionários para integrar bancos de dados do governo norte-americano e desenvolver sistemas de vigilância em massa.

O jornalista também critica projetos de policiamento preditivo, que, segundo ele, podem permitir que algoritmos apontem indivíduos como potenciais criminosos antes mesmo da prática de qualquer delito.

Além disso, Norton cita trechos de documentos públicos da Palantir defendendo maior mobilização militar da sociedade norte-americana e o fortalecimento da capacidade bélica dos Estados Unidos.

O conceito de “Surveillance Valley”

Para sustentar sua análise, Norton recorre ao livro Surveillance Valley, do jornalista Yasha Levine.

Segundo Levine, a internet nunca foi uma ferramenta neutra, mas nasceu profundamente integrada aos interesses militares e de inteligência dos Estados Unidos.

Norton lembra que o autor documenta a colaboração histórica de empresas como Google, Amazon e Facebook com o Pentágono, a CIA, a NSA e outras agências governamentais.

Na avaliação do editor do Geopolitical Economy Report, muitas dessas conclusões, antes tratadas como exageradas por parte da imprensa tradicional, passaram a ser corroboradas pelos próprios anúncios oficiais feitos pelo governo norte-americano e pelas empresas de tecnologia.

A disputa tecnológica como eixo da geopolítica

Ao concluir sua análise, Ben Norton afirma que os Estados Unidos utilizam a China como principal justificativa para ampliar sistemas de vigilância, fortalecer o complexo militar-industrial e consolidar o poder das grandes empresas de tecnologia.

Segundo ele, a narrativa da competição estratégica serviria para legitimar políticas destinadas a preservar a liderança tecnológica norte-americana, restringir concorrentes estrangeiros e ampliar a influência das corporações do Vale do Silício sobre o Estado.

Para Norton, a atual disputa pela inteligência artificial representa não apenas uma competição econômica, mas uma reconfiguração da geopolítica mundial, marcada pela crescente convergência entre governo, indústria militar e gigantes da tecnologia dos Estados Unidos.

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