A Turquia está ferrada - e a culpa é toda dos americanos

Em meio às crescentes tensões entre Turquia e Rússia sobre a situação na Síria, um fato importante se perdeu. É que não foi a Rússia quem criou os atuais problemas da Turquia, foram os Estados Unidos

Em meio às crescentes tensões entre Turquia e Rússia sobre a situação na Síria, um fato importante se perdeu. É que não foi a Rússia quem criou os atuais problemas da Turquia, foram os Estados Unidos
Em meio às crescentes tensões entre Turquia e Rússia sobre a situação na Síria, um fato importante se perdeu. É que não foi a Rússia quem criou os atuais problemas da Turquia, foram os Estados Unidos (Foto: Gisele Federicce)
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Por Arras

Publicado no blog The Saker

Tradução por Ruben Bauer Naveira

N. do T.: O título original é “Turkey is screwed”, cuja tradução seria “A Turquia está f...”

Em meio às crescentes tensões entre Turquia e Rússia sobre a situação na Síria, um fato importante se perdeu. É que não foi a Rússia quem criou os atuais problemas da Turquia, foram os Estados Unidos.

O problema mais crucial com que a moderna Turquia tem-se defrontado é a questão curda. Trata-se de um problema crônico que ameaça a integridade da Turquia e que é percebido pela elite turca como o maior problema de segurança do país. As políticas turcas para a Síria são determinadas pela questão curda mais do que por qualquer outra coisa. O abandono da assim chamada política de problema zero com os vizinhos que Erdogan e seu governo costumavam promover, o que foi uma surpresa para muitos, está diretamente relacionada à questão curda e aos acontecimentos no Iraque após a desastrosa invasão americana.

 

Aqui faz-se necessário um pequeno volteio na História. Quando o moderno estado turco foi erigido sobre as cinzas da derrota do império Otomano na Primeira Guerra Mundial, ele buscava uma nova identidade sobre a qual conseguisse se firmar. A nova e jovem elite turca optou pelo modelo do nacionalismo, à época um conceito progressista bastante popular na Europa de então.

A Turquia, assim como alguns de seus contrapartes europeus, estava contudo diante da herança imperial de diversos grupos étnicos vivendo no seu território recentemente demarcado. Havia vastas comunidades ancestrais de gregos, armênios, curdos e muitos outros povos vivendo na Anatólia e na porção europeia da Turquia. Os turcos étnicos propriamente ditos são relativamente recém-chegados a essa parte do mundo, tendo se instalado somente no século onze. Já a presença dos gregos e outros grupos étnicos naquilo que é hoje a Turquia pode ser datada da Idade do Bronze, ou antes (3.300-1.200 A.C.).

Os turcos deram conta de equacionar a questão grega após a guerra greco-turca de 1919-1922 e a imensa troca de populações que se seguiu a ela. A maioria dos gregos deixou a Turquia e a Turquia recebeu em troca um influxo de turcos étnicos da Grécia. A questão armênia já havia sido enfrentada durante a Primeira Guerra Mundial no que muitos chamam o genocídio armênio, termo ao qual a Turquia fortemente se opõe. Tratou-se da deportação forçada de armênios para os desertos da Síria. Estima-se que um milhão e meio deles tenham morrido. A Turquia reconhece a deportação contudo alega que a perda de vidas foi antes uma decorrência do que uma ação proposital.

Uma questão étnica que a Turquia entretanto não deu conta de superar foi a questão curda. Os curdos são uma comunidade ancestral de gente originária do Irã que abraçou o Islã. Eles são hábeis soldados e desempenharam um importante papel em exércitos islâmicos, inclusive o Seljúcida e o Otomano. A figura curda histórica mais famosa é Saladino (nome pelo qual é conhecido no Ocidente), general muçulmano que reconquistou Jerusalém durante as Cruzadas e foi sultão do Egito e da Síria.

Os turcos tentaram solucionar a questão curda pela assimilação pura e simples. Eles anunciaram que, dali por diante, os curdos seriam simplesmente “os turcos do leste” e baniram o idioma curdo. Os curdos resistiram e os turcos responderam com repressão, remoções forçadas, segregação e a mão bruta da opressão militar. Desde então, os curdos na Turquia estão numa constante rebelião de fato, às vezes menos intensa outras vezes mais, numa guerra contra o governo turco que já cobrou milhares de vidas dos dois lados.

Apesar de deter vantagem em efetivos e em equipamento, a Turquia parece estar lentamente perdendo essa guerra. Estima-se que os curdos respondam por cerca de vinte por cento da população da Turquia, e as famílias curdas têm em torno do dobro da taxa de natalidade das famílias turcas. Dentro de poucas décadas isso acabará por lavar a uma situação em que haverá mais homens curdos do que turcos em idade militar.

Para piorar as coisas para a Turquia, os curdos não vivem somente lá. Graças ao legado pós-colonial e à arbitrariedade com que França e Inglaterra traçaram as fronteiras ao longo das areias, planícies e montanhas do Oriente Médio, comunidades curdas de tamanhos equivalentes vivem nos países vizinhos da Síria, Iraque e Irã. Em conjunto, eles habitam uma grande área praticamente toda contígua chamada Curdistão. Para sorte dos turcos, os curdos nesses outros países padeciam, até recentemente, de perseguições similares às sofridas na Turquia. Todos esses países percebiam os seus curdos como ameaça à sua integridade territorial. O episódio mais bem conhecido dessa repressão foi quando Saddam Hussein usou gás venenoso contra os curdos no norte do Iraque. Isso não foi de modo algum um caso isolado, mas foi um que, à época, atendia aos interesses ocidentais para o Oriente Médio, e assim recebeu uma ampla publicidade da mídia ocidental – após décadas de silêncio cúmplice. Isso nos traz de volta às razões para a recente mudança nas políticas turcas e às crescentes tensões na fronteira turco-síria.

Quando os Estados Unidos decidiram invadir o Iraque em 2003, a Turquia corretamente concluiu que aquela operação era de alto risco, com desdobramentos imprevisíveis. Na esperança de minimizar o impacto negativo sobre a própria Turquia, eles se decidiram por guardar uma neutralidade estrita e não intervir, e chegaram ao ponto de se recusar a autorizar americanos e ingleses, seus aliados na OTAN, a usar o território e as bases turcas para um ataque.

O ataque americano ao Iraque e a ocupação desembocaram em guerra civil generalizada e acabou por particionar de fato o Iraque em porções xiita, sunita e curda. De repente, estava a Turquia diante não apenas da insurgência curda dentro da Turquia mas também, e pela primeira vez, com um estado curdo independente (de fato) colado às suas fronteiras, que poderia prover uma área de refúgio (reagrupamento e suprimento) segura para os curdos de dentro da Turquia. Isso era um desastre, que os turcos tentaram administrar por meio de incursões limitadas no Curdistão iraquiano, de tentativas de comprar os líderes curdos e de confiança na capacidade dos seus parceiros americanos em conter os curdos e prevenir danos – coisa que os americanos acabaram por se mostrar não muito capazes de fazer, ou mesmo não quiseram fazê-lo.

A lição que Erdogan e a liderança turca parecem ter aprendido dos acontecimentos no Iraque foi que abster-se dos conflitos na região não blindaria a Turquia das consequências negativas e assim, já que a Turquia não tem como evitar esses conflitos, é melhor então que tome parte neles de modo a que seja ao menos capaz de influenciar os desdobramentos para proteger os seus interesses.

Quando os americanos e os seus aliados da OTAN decidiram mudar regimes no norte da África e se engajaram em mais uma aventura imperial na Líbia a Turquia, após uma relutância inicial, concordou em se juntar. E quando os americanos decidiram começar uma guerra na Síria a Turquia pulou dentro do trem, provavelmente na promessa de uma vitória rápida e da instalação de um novo governo pela Irmandade Muçulmana, amigável à Turquia e ao seu partido governante. Ancara pode ter feito mesmo expectativas de que um tal governo seria seu satélite – essa certamente foi a expectativa de Riad, outra infeliz vítima das políticas americanas para o Oriente Médio.

Como é a regra com iniciativas americanas similares em política externa, elas raramente funcionam tal como anunciado na propaganda. Quando Assad comprovou ser resiliente, Ancara e Riad ficaram esperando que Washington fizesse o que fizera na Líbia, e interviesse a pretexto de uma zona de exclusão aérea para uma suposta proteção dos civis, um pretexto já bem testado na Iugoslávia. Nenhum homem no entanto pisa duas vezes no mesmo rio, já compreendia a sabedoria dos gregos antigos. Depois do desastre na Líbia, a oposição à intervenção, liderada principalmente por Rússia e China, se mostrou mais forte, e o apoio interno nos Estados Unidos e nos seus aliados França e Inglaterra mais fraco do que poderia ter sido previsto. Uma zona de exclusão aérea não se materializou. Note-se que os turcos e os sauditas foram os proponentes mais ostensivos disso, e até hoje eles insistem no estabelecimento de uma zona de exclusão aérea sobre a Síria (eufemismo para uma intervenção liderada pelos Estados Unidos). Enquanto isso, a administração Obama foi embora, silenciosamente agradecida aos russos pelo pretexto de uma saída honrosa na forma do acordo para retirada das armas químicas da Síria.

A mudança de regime na Síria teria então que ser efetuada somente por intermédio de terceiros, na forma de uma coletânea multicolorida de vários grupos islamitas sunitas mais ou menos repugnantes, tanto nativos quanto estrangeiros. A Turquia e a Arábia Saudita engajaram-se num apoio entusiasmado a tais grupos, ajudando abertamente aqueles chamados de moderados e menos abertamente os demais, enquanto que de público fingiam combater estes últimos como radicais e terroristas. Na verdade, o único grupo que a Turquia combateu na Síria foram os curdos que, ironicamente, são provavelmente o único grupo significativo de oposição na Síria que de fato merece ser chamado de moderado. Apesar da catastrófica heterogeneidade desses grupos oposicionistas, que estão dispostos a se combaterem uns aos outros tanto quanto estão dispostos a combater o governo sírio, parecia que o governo acabaria derrubado mais cedo ou mais tarde numa guerra de desgaste.

Mas eis então que adveio a inesperada intervenção russa e, contrariamente a todas as seguranças de Washington de que os russos teriam um novo Afeganistão [N. do T.: o que seria conveniente para os americanos na medida em que comprometeria a já combalida economia russa], os russos deram conta de virar a mesa e forçaram os rebeldes a algo que vem cada vez mais se parecendo com uma retirada total. Isso é um desastre de proporções épicas para a Turquia. No lugar de um regime amigável em Damasco do tipo Irmandade Muçulmana, coisa que Ancara estaria em condições de controlar, eles estão diante da criação de um segundo estado independente curdo nas suas fronteiras. Foi isso que colocou a liderança curda em modo pânico, e é por isso que os turcos parecem estar irracionalmente elevando as tensões na fronteira com a Síria. Em minha opinião, a derrubada do jato russo, o bombardeio de artilharia sobre os curdos e a concentração de tropas na fronteira, acompanhados de retórica belicosa, não são nem tanto para ameaçar a Rússia ou Assad, mas são antes de mais nada esforços desesperados para forçar Washington a liderar no fim das contas uma invasão da Síria – coisa que Washington mesma provavelmente teria levado Ancara e Riad a esperar antes de tudo. Agora Washington é vista desconversando e voltando atrás. Nem a Turquia nem a Arábia Saudita estariam dispostas a invadir sozinhas.

Para concluir, as políticas americanas de desestabilizar países e regiões inteiras na última década ou duas, segundo a conveniência dos seus interesses geopolíticos e econômicos, se mostraram tão danosas aos aliados dos Estados Unidos quanto aos seus oponentes, senão ainda mais. Outro caso em questão é, sem dúvida, a crise migratória na Europa. O efeito que isso irá provocar nas relações entre os Estados Unidos e os seus aliados por um lado, e entre os oponentes dos Estados Unidos por outro, ainda está por ser visto. Mas é razoável esperar-se que a insatisfação com a liderança americana vá aumentar.

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Comentário do tradutor: é bem provável que, como o autor sustenta, não haja guerra entre Turquia e Rússia. Porém, caso haja (e o risco é real), será uma guerra que poderá facilmente escalar para uma guerra global. É um crime inominável que não se possa encontrar uma única linha na imprensa tradicional a esse respeito. A imprensa brasileira apequenou-se à função de mera repassadora daquilo que vem das agências de notícias americanas e europeias. E a imprensa americana e europeia não quer que o seu público se dê conta de que são as suas políticas o que está aumentando o risco de guerra global (a esse respeito, ver este outro artigo). De forma descentralizada e distribuída, precisamos nós mesmos constituir a nossa própria imprensa.

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