Recuada de tropas da zona de conflito na Caxemira é insuficiente como solução permanente

A revogação do Artigo 370 da Constituição da Índia é a verdadeira causa do conflito, já que ela afetava diretamente os interesses econômicos chineses na região

Análise: Por que o conflito na Caxemira ameaça todo o mundo?
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Leonardo Sobreira, 247 - Na segunda-feira 6, fontes anônimas do governo indiano anunciaram que as tropas chinesas que haviam cruzado a fronteira disputada na região da Caxemira recuaram do avanço. Isso vem após um período de grande tensão entre os dois países, que se materializou em um conflito sem precedentes no último dia 15, matando 20 soldados indianos e um número indeterminado de soldados chineses. 

Como relatado pelo jornal indiano The Hindu, “em Galwan [região disputada entre os dois países], existem agora somente 30 soldados de cada lado, e a distância entre eles é de 4km - a zona de contenção combinada.” Essa constitui a primeira fase de acalmada das tensões. 

O porta voz do Ministério das Relações Internacionais, Zhao Lijian, declarou que os “dois lados estão tomando medidas efetivas de desengajamento e de aliviamento da situação na fronteira.” Ele continua: “esperamos que a Índia irá se aliar à China e tomará medidas concretas para implementar o que os dois lados concordaram, continuar a se comunicar proximamente através de canais diplomáticos e militares, e trabalhar juntamente conosco para aliviar a tensão na fronteira.”

No entanto, a postura chinesa demonstra uma certa ingenuidade. Em 5 de agosto do ano passado, Modi, o primeiro-ministro Indiano tido por muitos opositores como um ultranacionalista, revogou o artigo 370 da Constituição, que garantia um nível de autonomia à Caxemira. 

O artigo isentava a região da aplicabilidade completa da Constituição da Índia, limitando as áreas na qual o estado central podia interferir à defesa, política externa e comunicações. Assim, a revogação faz com que a região, de maioria muçulmana, seja subjugada à agenda nacionalista do movimento Hindutva, que é representada no Parlamento Indiano principalmente pelo partido de Modi, o Bharatiya Janata Party, conhecido como BJP. 

De acordo com o acadêmico indiano Badri Raina, “a direita Hindutva teve êxito em realizar sua tradicional agenda nacionalista. Ela cravou a mensagem nos muçulmanos da Caxemira de que sua decisão após a partilha de se incorporar à Índia, de maioria Hindu, foi errônea, e de que estes devem aprender a se enxergar não em termos de qualquer perspectiva histórica exclusiva, mas sim como apenas uma outra parte da minoria muçulmana na Índia.”
No âmbito internacional, a revogação também põe em xeque os interesses econômicos da China na região, expondo a fragilidade das medidas recentemente tomadas pelos dois exércitos. A Iniciativa do Cinturão e Rota, liderada pela China, projeta um investimento de US$ 60 bilhões no corredor econômico entre China e Paquistão, que passa pela área disputada de Gilgit-Baltistan. Como apontado por especialistas da região, a localidade agora pode se tornar vítima de incursões militares indianas, justificadas pela defesa do interesse econômico do país. 

A autonomia da região garantia, até certo ponto, uma estabilidade no que diz respeito à possibilidade de conflitos. Agora, com ela sendo subjugada aos interesses nacionalistas, estes se tornam mais prováveis. 

Assim, uma solução concreta para o conflito deve ir muito além de meros recuos de tropas militares. No coração do problema está o controle indiano direto sobre a região, e, a não ser que esse seja revisto, a possibilidade de uma verdadeira guerra - na qual os três beligerantes possuem arsenais de armas nucleares - é real. 

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