Biofilia. Fomos programados para amar a vida

  A natureza faz bem à saúde, disso não existem mais dúvidas. Assim apontam diversas pesquisas científicas ligadas ao conceito de biofilia: uma teoria que defende que, ao longo da evolução humana, fomos programados para amar tudo o que é vivo, em vez de objetos, e, por isso, a natureza simplesmente nos faz sentir melhor. Afinal, o ambiente urbano foi adotado pelos seres humanos apenas nos últimos séculos de sua existência.

 
A natureza faz bem à saúde, disso não existem mais dúvidas. Assim apontam diversas pesquisas científicas ligadas ao conceito de biofilia: uma teoria que defende que, ao longo da evolução humana, fomos programados para amar tudo o que é vivo, em vez de objetos, e, por isso, a natureza simplesmente nos faz sentir melhor. Afinal, o ambiente urbano foi adotado pelos seres humanos apenas nos últimos séculos de sua existência.
  A natureza faz bem à saúde, disso não existem mais dúvidas. Assim apontam diversas pesquisas científicas ligadas ao conceito de biofilia: uma teoria que defende que, ao longo da evolução humana, fomos programados para amar tudo o que é vivo, em vez de objetos, e, por isso, a natureza simplesmente nos faz sentir melhor. Afinal, o ambiente urbano foi adotado pelos seres humanos apenas nos últimos séculos de sua existência. (Foto: Luis Pellegrini)
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Por: Equipe Oásis

Já sabíamos que o contato estreito com o verde da natureza incrementa a saúde física e mental. Novas pesquisas confirmam isso, indicando que tais efeitos benéficos podem durar anos a fio.

Deveríamos realmente considerar a possibilidade de passar mais tempo junto à natureza, de viver mais cercados pela vegetação. Se você mora atualmente em plena selva de pedra urbana, mudar-se para uma área onde o verde esteja mais presente e e abundante provavelmente lhe fará viver alguns bons anos a mais, gozando de melhor saúde física e mental.

Confirmando a sabedoria popular de todos os tempos, os benefícios, particularmente os psicológicos, advindos do engajamento com a natureza, estão agora bem estabelecidos pela ciência. Em 2012, pesquisadores alemães concluíram que simplesmente vislumbrar um retângulo verde por alguns segundos pode desencadear uma maior criatividade do que a observação de retângulos de outros tons. Essa descoberta sugere que até mesmo a mais ínfima exposição à vegetação pode fazer a diferença.

Números impressionantes obtidos por especialistas em saúde mental na escola médica da Universidade de Exeter, no Reino Unido, apontam o quão durável os benefícios podem ser. Usando dados do British Household Panel Survey, eles descobriram que para as pessoas que se mudaram de bairros pouco ou nada verdes para outros dotados de mais vegetação, os benefícios em termos de saúde mental duraram por pelo menos três anos. Por outro lado, aqueles que se mudaram de bairros mais verdes para áreas menos verdes tiveram piora da saúde mental no período imediatamente sucessivo à mudança. Embora, na maioria dessas pessoas, o estado mental saudável básico voltou após uma fase mais ou menos longa de adaptação.  Para determinar tais alterações, a pesquisa levou em consideração vários outros fatores que poderiam incrementar ou diminuir a felicidade e a satisfação, tais como mudança de emprego, melhoria do salário, etc.

Nos últimos anos, um conceito é objeto de atenção cada vez maior: o da biofilia. Trata-se de uma teoria que defende que, ao longo da evolução humana, fomos programados para amar muito mais tudo o que é vivo , em vez de objetos. E não podemos nos esquecer que o ambiente urbano foi adotado pelos seres humanos apenas nos últimos séculos de sua existência.

 

 

Nosso corpo, um sistema natural

“Parques, jardins, flores, fitocidas (substâncias produzidas por plantas contra micro-organismos) têm efeitos benéficos em humanos”, conta Yoshifumi Miyazaki, codiretor do Centro para Meio Ambiente e Saúde da Universidade de Chiba, no Japão, uma das instituições mais ligadas ao tema no mundo. Bem dentro da linha de pensamento da biofilia, Miyazaki afirma que o corpo humano foi feito para se adaptar à natureza. Seu trabalho tem como base a premissa de que passamos 99,99% de nossos cinco milhões de anos de evolução como primatas em meio à natureza. Seríamos essencialmente conectados a ela. Pode parecer esotérico, mas cientistas de diversos países — como Holanda, Reino Unido e Japão — perceberam que, ao entrar em contato com o verde, o corpo logo responde, de forma sutil, com pressão mais baixa e maiores níveis de glóbulos brancos (responsáveis pelas defesas do organismo), entre outros.

O conceito “biofilia” significa, literalmente, “amor pela vida” e foi popularizado quando o biólogo americano Edward Wilson publicou um livro com este título, em 1984. Dez anos depois, Wilson editou, com Stephen Kellert, outro livro, intitulado “A hipótese da biofilia”, que discute a possibilidade de haver base genética para nosso apreço pela natureza. Não há pesquisas amplamente aceitas que comprovem esta teoria, mas não faltam indícios da influência saudável do verde.

 

 

Um dos primeiros a demostrar que a natureza faz bem foi Roger Ulrich, em 1984, ao comparar pacientes em quartos com janelas voltadas para árvores com aqueles cujos quartos ofereciam vista para uma parede de tijolos, em um hospital na Pensilvânia, nos Estados Unidos. Seus resultados demonstraram que pacientes com acesso ao verde saíram mais cedo do hospital, tomaram analgésicos mais fracos ou em menos quantidade, tinham menos comentários críticos sobre a enfermagem e menor número de pequenas complicações pós-cirúrgicas. Depois, outros estudos testaram objetos coloridos, porém inanimados, no lugar de plantas, e verificaram que as plantas ofereciam benefícios ligeiramente maiores.

A partir da pesquisa de Ulrich, citada em numerosos trabalhos, muitos passaram a defender a construção de mais áreas verdes em hospitais e até mesmo o contato com a natureza como uma forma de medicina preventiva. Com o tempo, surgiram análises também em escritórios, escolas e apartamentos, tanto sobre o uso da natureza no interior quanto ao ar livre. Em um estudo de 2000, a pesquisadora Tove Fjeld, da Universidade de Agricultura da Noruega, viu que reclamações sobre dores de garganta, por exemplo, diminuíram 23% depois que um escritório foi decorado com plantas. Já o estudo da pesquisadora Virginia Lohr, da Universidade do Estado de Washington, percebeu que a presença de plantas torna a dor mais suportável.

Para as pessoas que moram em cidades, e com dificuldades de encontrar espaços verdes, portanto, haveria alternativa: basta povoar varandas, mesas e paredes com belas flores e arbustos para sentir a diferença.

 

 

Passeios na floresta

Uma das pesquisas de Yoshifumi Miyazaki traz números interessantes sobre a influência de caminhar em ambientes naturais. Depois do segundo dia de andanças numa floresta local, um determinado tipo de glóbulos brancos, as células de defesa do organismo, teve um aumento de 56% nos indivíduos acompanhados. Uma quantidade 23% maior das células em relação ao estado original foi mantida durante um mês após a caminhada e o retorno à vida urbana. Para os pesquisadores, este foi um sinal claro de como a natureza pode contribuir para a medicina preventiva. Por causa disso, desde 2005, no Japão, há diversos locais onde se pode praticar a “Terapia de floresta” (chamados shinrin-yoku), uma caminhada por áreas verdes com potencial de curar o estresse. O governo japonês já investiu, desde 2004, US$ 4 milhões em pesquisas sobre o tema, visando também estabelecer mais de 100 lugares onde se pode participar da terapia.

Para eliminar dúvidas, os pesquisadores compararam os efeitos de caminhadas em ambientes urbanos e naturais, usando os mesmos indivíduos. Além dos glóbulos brancos, foram analisados a quantidade de cortisol (um indicador de estresse), pressão sanguínea e batimentos cardíacos. Notaram uma diminuição de 16% no cortisol, de 4% para batimentos cardíacos, de 2% para a pressão arterial, entre outros efeitos.

 

 

Há também estudos que demonstram os benefícios de se viver perto da natureza. Em uma pesquisa que acompanhou 350 mil pessoas, a pesquisadora Jolanda Maas, do Centro Médico Universitário de Amsterdã, concluiu que, quando 90% da área ao redor da residência é de verde, 10,2% dos moradores não se sentem saudáveis. Já quando 10% da área ao redor é de natureza, 15,5% relatam problemas de saúde. Maas encontrou maior prevalência de 15 entre 24 doenças selecionadas em pessoas que vivem mais longe de áreas verdes. Inclusive mentais: pessoas que vivem próximas da natureza teriam 21% menos chances de desenvolver depressão.

Os pesquisadores admitem que os efeitos são sutis, e que, dependendo da personalidade de cada um, podemos ser mais ou menos afetados por esta mágica natural. A dúvida se o nosso gosto pela natureza é cultural ou genético permanece. O biólogo Bjørn Grinde, da divisão de saúde mental do Instituto Norueguês de Saúde Pública, que faz vários trabalhos de recapitulação do tema, listando diversas pesquisas, acredita que os dois coexistem.

 

 

Como a mágica acontece?

As explicações para o efeito da natureza sobre nossa saúde variam desde fatores evolucionários à melhor qualidade do ar, ou ainda um gosto estético por tudo que é verde ou vivo. Grinde listou quatro possíveis causas apontadas por Ulrich em seus trabalhos: estar na natureza normalmente é relacionado a atividades físicas; atividades na natureza muitas vezes estimulam a socialização; e a natureza oferece uma oportunidade de fuga temporárias da rotina e suas exigências. A última é um questionamento: será que há mais vantagens do contato com a natureza que não as questões sociais e físicas a elas associadas?

A verdade é que ninguém sabe ao certo como a mágica acontece. Em uma longa pesquisa, que durou 17 anos e acompanhou 10 mil pessoas, Mathew White, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, mostrou que quem vive próximo a áreas verdes tem mais qualidade de vida, menos problemas psicológicos.

As pesquisas do psicólogo e engenheiro Robert Stone, da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, tentam medir os efeitos do contato com ambientes naturais virtuais em terapias de reabilitação, que contam com tecnologias similares às de videogames. Matthew White, da Universidade de Exeter, no mesmo país, participou de alguns desses estudos e justifica sua importância:

No Japão, o uso de fitocidas (substâncias produzidas por plantas contra micro-organismos) — há mais de 100 tipos deles — também tem tido resultados positivos. Estudos da Universidade de Chiba observaram diminuição da pressão sanguínea em cerca de 4% após a exposição ao odor por cerca de um minuto e meio. A substância é tida como um dos motivos pelos quais a terapia da floresta japonesa funciona tão bem.

 

 

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