Raízen registra prejuízo histórico de R$ 27 bi

Balanço expõe dívida de R$ 58,2 bi, impairment bilionário e plano de recapitalização com Shell e Aguassanta

Siga o 247 no Google Notícias Seguir no Google Notícias Adicione o Brasil 247 como fonte preferencial no Google Apoie o jornalismo independente Apoie o 247

247 – A Raízen encerrou o ano-safra 2025/26 com prejuízo líquido de R$ 27,1 bilhões, um dos maiores resultados negativos já registrados por uma companhia brasileira de capital aberto em valores nominais. O balanço foi divulgado nesta segunda-feira (29), segundo reportagem do portal Brazil Stock Guide, e revela a profundidade da crise financeira enfrentada pela empresa.

O resultado coloca a Raízen no grupo dos grandes tombos corporativos do mercado brasileiro. Embora não supere os prejuízos reportados por Vale e Petrobras em 2015, de R$ 44,2 bilhões e R$ 34,8 bilhões, respectivamente, a perda supera, em valor nominal, o prejuízo de R$ 21,6 bilhões registrado pela Petrobras em 2014, no início dos impactos da Lava Jato sobre seus balanços.

O calendário fiscal da companhia foi encerrado em março. A deterioração do resultado foi puxada principalmente por um impairment de R$ 22,5 bilhões, além de aumento das despesas financeiras, baixa de ativos e custos ligados ao processo de recuperação extrajudicial.

A empresa chegou ao fim do período com dívida líquida de R$ 58,2 bilhões. A alavancagem subiu para 5,2 vezes o EBITDA ajustado, ante 3,2 vezes no ano anterior, indicando forte pressão sobre a estrutura de capital da companhia.

Apesar do prejuízo bilionário, o desempenho operacional ajustado não caiu na mesma proporção. O EBITDA ajustado anual ficou em R$ 11,3 bilhões, recuo de 2,3% em relação ao ano anterior. Já o EBITDA contábil despencou 92%, para R$ 1,1 bilhão, evidenciando o impacto dos ajustes contábeis e das perdas registradas no balanço.

A administração da Raízen tenta enquadrar o momento como parte de uma reestruturação mais ampla. No relatório de resultados, a companhia informou ter reduzido custos e despesas em cerca de R$ 1 bilhão, cortado investimentos em R$ 3,3 bilhões e avançado na simplificação do portfólio. As medidas teriam impacto positivo estimado de R$ 12 bilhões na posição financeira da empresa.

O ponto central da estratégia, no entanto, está na recapitalização. O plano de recuperação extrajudicial prevê aporte de R$ 3,5 bilhões da Shell, possível contribuição de R$ 500 milhões da Aguassanta e conversão de 45% dos créditos reestruturados em participação acionária, por meio de units compostas por ações ordinárias e preferenciais da Raízen.

Os 55% restantes dos créditos seriam substituídos, refinanciados ou ajustados por novos instrumentos de dívida. Na prática, a companhia busca reorganizar seu passivo em uma situação na qual a melhora operacional, isoladamente, já não parece suficiente para resolver o peso do balanço.

O caso expõe duas dimensões da Raízen. De um lado, a empresa segue dona de ativos relevantes nos segmentos de combustíveis, açúcar, etanol e bioenergia. De outro, enfrenta uma estrutura de capital deteriorada, custo financeiro elevado e necessidade urgente de reorganização patrimonial.

O principal contraponto positivo veio da distribuição de combustíveis no Brasil. O segmento registrou EBITDA ajustado de R$ 5,7 bilhões no ano-safra, alta de 35,5%, impulsionado por crescimento de volumes e melhora de margem. O desempenho ajudou a amortecer parte da queda nas áreas de açúcar, etanol e bioenergia.

Nessas operações, a companhia foi pressionada por menor moagem, preços mais fracos do açúcar e queda de produção. Esses fatores reduziram a geração de resultado em um momento de forte necessidade de caixa e de reequilíbrio financeiro.

Para investidores, a principal questão passa a ser quanto do valor gerado pela Raízen em um ciclo mais normalizado ficará com os atuais acionistas após a conversão de dívida em capital, os aportes dos controladores e a reorganização dos ativos.

O prejuízo de R$ 27,1 bilhões transforma a Raízen em um dos casos mais emblemáticos da atual fase de desalavancagem no Brasil. A companhia mantém operação estratégica e acionistas relevantes, mas o balanço indica que a reestruturação deixou de ser uma alternativa financeira e passou a ser condição para preservar o negócio.

❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com redacao@brasil247.com.br.

Cortes 247

Participe da discussão

Acompanhe as
últimas notícias