A mais recente pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada nesta quarta-feira (1º), traz uma aparente contradição. Ao mesmo tempo em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém vantagem sobre todos os adversários nos cenários de primeiro e segundo turno, o governo enfrenta maioria de desaprovação e o eleitorado brasileiro segue se identificando mais com a direita do que com a esquerda.
Os números sugerem que a disputa presidencial de 2026 não será definida apenas pela força das lideranças, mas sobretudo pela capacidade de cada campo político de ampliar sua base de apoio entre segmentos que hoje não possuem identidade partidária consolidada.
A pesquisa mostra que 39,3% dos brasileiros se identificam com a direita (23,7% bolsonarista e 15,6% não bolsonarista), enquanto 34,2% se definem como de esquerda (22,7% lulista e 11,5% não lulista). Outros 22,8% afirmam ser independentes. Trata-se de um retrato que revela uma vantagem estrutural da direita em termos de identidade política, embora isso ainda não se traduza automaticamente em maioria eleitoral.
Outro aspecto relevante é a distribuição regional. O Nordeste permanece como o principal reduto do lulismo, enquanto o Sudeste continua sendo o maior desafio eleitoral para o PT, especialmente nos colégios de São Paulo e Minas Gerais, onde governadores de cunho bolsonaristas (Tarcísio de Freitas e Romeu Zema) têm forte capilaridade. Considerando que essa região concentra a maior parcela do eleitorado brasileiro, reduzir essa desvantagem estrutural será decisivo para qualquer estratégia nacional. Já o Norte aparece como a região com maior número de eleitores independentes, indicando um ambiente político mais volátil e sensível ao desempenho administrativo e às lideranças locais.
A pesquisa também reforça que a religião continua sendo uma das principais clivagens da política brasileira. Entre os evangélicos, a identificação com o campo bolsonarista permanece significativamente superior à do lulismo. Já entre católicos, a disputa é mais equilibrada, enquanto agnósticos e ateus seguem sendo o segmento mais identificado com a esquerda. Isso indica que o diálogo do campo progressista com o universo evangélico continua sendo um dos maiores desafios políticos da próxima década.
Outro dado merece atenção especial: a fragmentação partidária. Embora o PT apareça como o partido com maior preferência espontânea, a diferença para o PL é pequena. Ao mesmo tempo, chama atenção o crescimento do partido Missão, que já surge como terceira força partidária em preferência declarada, ocupando espaço junto ao eleitorado de centro-direita insatisfeito com o bolsonarismo. Mais significativo ainda é o fato de quase três em cada dez brasileiros afirmarem não ter preferência por nenhum partido, formando o maior grupo isolado do levantamento. Esse contingente confirma que a política brasileira continua sendo fortemente influenciada por lideranças, desempenho administrativo e capacidade de entrega de políticas públicas, mais do que por fidelidade partidária.
O cruzamento por idade talvez seja o dado mais estratégico de toda a pesquisa. Entre os jovens de 16 a 24 anos, predomina uma identidade de direita não bolsonarista, enquanto a identificação com o lulismo é a menor entre todas as faixas etárias. Embora o governo Lula tenha retomado e ampliado programas voltados à juventude, a pesquisa indica que esses investimentos ainda não lograram capilaridade comunicacional suficiente entre esse público. Os jovens dessa faixa, que viveram sua formação política em ambiente digital dominado por narrativas de direita não bolsonarista, seguem mais identificados com esse campo do que com o lulismo — revelando um descompasso entre oferta de políticas públicas e disputa de imaginário nas plataformas online.
Ao mesmo tempo, o levantamento evidencia outro paradoxo pouco debatido. O eleitorado com 60 anos ou mais é o grupo que mais se identifica com Lula e representa a parcela da população que mais cresce no Brasil. Embora o governo tenha mantido conquistas importantes como o piso previdenciário e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), o país ainda carece de políticas públicas mais estruturantes para o envelhecimento ativo, especialmente nas áreas de educação permanente, saúde preventiva e cuidados de longa duração. Em outras palavras, o voto desse segmento no campo progressista tem sido mais reativo — em defesa de direitos já conquistados — do que propriamente prospectivo, o que exige do governo uma agenda positiva e de longo prazo para essa faixa etária. A pesquisa Atlas sugere, portanto, que o desafio do governo não é escolher entre jovens e idosos, mas construir uma agenda capaz de dialogar simultaneamente com as novas gerações e responder às demandas de uma população que envelhece rapidamente.
Talvez o cruzamento mais revelador seja justamente o que compara a identidade atual com o voto de 2022. Entre os eleitores que escolheram Lula no segundo turno da última eleição, menos da metade hoje se considera efetivamente lulista. Uma parcela expressiva passou a se definir como independente ou apenas como de esquerda. Isso indica que a coalizão responsável pela vitória presidencial foi muito mais ampla do que o núcleo tradicional do PT e que sua manutenção dependerá da capacidade do governo de preservar o apoio desses eleitores moderados. Em contraste, o eleitorado bolsonarista mantém maior homogeneidade identitária, embora também apresente um espaço relevante ocupado pela direita não bolsonarista, segmento que tende a disputar protagonismo dentro do próprio campo conservador.
Diante desse cenário, a fidelização do eleitorado que já votou em Lula torna-se tão crítica quanto a ampliação da base. O dado mais alarmante para o campo progressista não é apenas a rejeição dos adversários, mas a porosidade da própria coalizão. A parcela expressiva de eleitores que migrou do “voto Lula” para a autodeclaração “independente” ou “apenas de esquerda” sinaliza um voto de confiança condicional, não uma adesão orgânica. Enquanto o bolsonarismo opera com lógica de trincheira — onde a lealdade se mantém mesmo diante de frustrações —, o voto lulista de 2022 é mais utilitário e menos vinculado ao PT. Para mantê-los, o governo precisará não apenas de entregas econômicas imediatas, mas de uma narrativa contínua que valide essa escolha, sob risco de vê-los migrar para a direita não bolsonarista ou para a abstenção em 2026, caso a insatisfação cotidiana se sobreponha ao recall positivo do passado e na manutenção e ampliação de conquistas sociais.
Lula permanece competitivo e lidera todos os cenários testados para 2026. . Entretanto, essa vantagem eleitoral convive com níveis preocupantes de desaprovação do governo e com uma composição do eleitorado que impõe desafios estruturais ao campo progressista. Mais do que fortalecer sua identidade histórica, o desafio do lulismo passa por consolidar a lealdade de sua base ampliada de 2022, reconquistar jovens, ampliar presença no Sudeste (especialmente em SP e MG), estabelecer novos canais de diálogo com o eleitorado evangélico e convencer o enorme contingente de independentes de que a capacidade de governar continua sendo seu principal diferencial.
A eleição de 2026 poderá ser vencida pelas lideranças. Mas a reconstrução de uma maioria política duradoura dependerá da capacidade de compreender as transformações profundas que a pesquisa Atlas acaba de revelar.
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