Eu me sinto muito honrado e feliz com a crítica de Alcir Pécora ao romance “A mais longa duração da juventude”. Vi agora. Mas antes, há muito eu considero Alcir Pécora o maior crítico de literatura do Brasil.
Ele observa no romance o que eu mesmo não havia notado: o Recife é o protagonista do romance. Acompanhem como ele vê a narração da resistência contra a ditadura em “A Mais Longa Duração da Juventude”.
Copio a seguir a crítica publicada hoje no Rascunho, o jornal de literatura do Brasil:
Rebeldes do Recife
Urariano Mota relê os anos de chumbo em Recife, cruzando guerrilha, desejo e memória num romance de traições e retornos afetivos e históricos
Alcir Pécora, Edição 315, Julho de 2026
O romance A mais longa duração da juventude, do pernambucano Urariano Mota, foi publicado em 2017, pela editora paulista LiteraRua. Do autor, já havia lido Soledad no Recife, quando me surpreendi com a sua pungente recriação do massacre dos seis guerrilheiros da VPR, em janeiro de 1973, nos arredores do Recife. O grupo foi emboscado por agentes da repressão informados pelo Cabo Anselmo, que se infiltrara na célula. O episódio é conhecido sobretudo pelo assassinato de Soledad Barrett Viedma, grávida do infame infiltrado — nada que impedisse a homenagem ainda mais infame que o Cabo recebeu da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, em abril de 2019, graças à iniciativa de deputados bolsonaristas.
A mais longa duração… possui uma dispositio complicada, cheia de idas, vindas e retomadas, além de uma ambição nada medida: a de capturar vivos os momentos decisivos dos anos terríveis de 1972-73. Terríveis, porém, como deixa patente o romance, significativos dos melhores anos da vida de Júlio, seu narrador, que passou o resto dela tentando reencontrar a intensidade que havia neles. Paradoxalmente, só tem êxito em sua busca quando vem a saber da morte do seu amigo e antigo companheiro de luta, Luiz do Carmo, em 2016. Conquanto amarga, a notícia opera como a madeleine proustiana de Júlio, trazendo-lhe a consciência da presença persistente, em si, daqueles anos de guerrilha, nos quais vários companheiros foram mortos. Agora, finalmente, o beijo desajeitado que, certa vez, roubou de Soledad é-lhe devolvido na forma do presente contínuo que tenta fixar na sua narração.
Na elocução do romance, achei particularmente adequado o uso do recurso da autocorreção, que permite a Júlio não apenas precisar o rememorado, mas também dar-lhe aspecto de reflexão em ato e de literatura que se faz ao longo do caminho, ao sabor das próprias circunstâncias do caso e da enunciação. Então, vida e escrita se mesclam, perturbam-se, animam-se de coragem e consolam-se das feridas ainda abertas.
No mesmo viés da autocorreção, o romance repisa certos eventos — mínimos eventos, à primeira vista — que se definem então como cenas inaugurais, cifradas, que desafiam a capacidade de Júlio de interpretá-las. Surgem, a cada vez, novos detalhes, ângulos, organizações repentinas do acaso, que fazem com que Júlio retorne indefinidamente ao enigma daqueles anos de rebeldia. Autocorreção e reiteração fazem com que o enunciado da ação e a reflexão a seu respeito caminhem juntas no romance e se reforcem mutuamente. O hermeneuta do texto que vai sendo escrito alimenta o andamento das ações narradas, de modo que linguagem e metalinguagem, memória e metaposição se enovelam, tornando Júlio psicologicamente mais complexo, assim como o destino da sua rememoração.
De modo geral, a elocução do romance não é limpa nem de escrita perfeita. O estilo de Urariano Mota tem muito de sentimental, de sentencioso, assim como tem de brutalista e até de cruel em seus comentários, empregando várias metáforas e frases que tocam o chulo. No entanto, a oscilação do estilo — por vezes, desajeitado, por vezes, pesado e declaratório — funciona como análogo adequado das muitas passagens de conversas em mesas de bar, entre os companheiros de luta, tanto os jovens de 1972 como os idosos de 2016.
A elocução carregada combina também com a sensualidade que permeia todo o romance, atravessa os debates teóricos do marxismo e choca-se contra o moralismo do Partido. Tudo é tesão na guerrilha juliana, ainda que reprimido. Dá mesmo a impressão de que a guerrilha é a própria expressão política do tesão acumulado, ou vice-versa. Isso torna mais enérgicas as cenas do passado, com os olhos de Júlio passeando afoito e tímido pelas coxas das guerrilheiras, e ainda impede que a luta pelo socialismo equivalha a uma luta exclusivamente partidária ou de ideias. É o sexo que busca a Causa entre os vestígios do tempo, é o sexo que pede a literatura, que melhor traduz a Revolução. O espírito descobre a carne, afligindo-se a si mesmo, por assim dizer.
Retomando, porém, a questão fundamental da disposição um tanto errática do livro, que alinhava cenas circunstanciais e depois retorna a elas várias vezes, diria que esse caminho meio bêbado é o principal vetor da força do romance. Ao menos três dessas cenas reiteradas me pareceram contundentes: a primeira delas flagra o militante Vargas, dentro do ônibus noturno para casa, certo de que é iminente a sua queda; durante o trajeto, desespera-se e se revolta: por si mesmo, por medo da tortura, mas ainda mais pelo risco de arrastar consigo a sua companheira, que acabara de ter uma filha. A segunda cena mostra Júlio como amante tímido que, num gesto atrapalhado e brusco, acaba revelando o que escondia: o amor por Soledad, que se confunde com o devotamento à Revolução.
A terceira cena é especialmente perversa: mostra o Cabo Anselmo, enquanto Soledad o abraça, enternecida, trocando olhares zombeteiros com o seu amante. Surpreendentemente, aqui, o cerne da traição é transferido da alcaguetagem da célula para a revelação da repulsa que Anselmo sentia pela mulher que lhe dera tudo: a confiança em sua sinceridade, apesar das suspeitas que recaíam sobre ele; o filho que já trazia no ventre; e talvez até mesmo a aceitação da sua bissexualidade. A fraternidade e a intimidade das pessoas é o que o romance mostra ser o derradeiro foco da traição. Menos abjetas eram as armadilhas do inimigo político do que a ruptura da sinceridade do amante ou dos amigos.
Não é difícil perceber que essas três cenas dialogam vigorosamente entre si. A traição de Anselmo tem como contraponto a fidelidade sacrificial de Vargas, que, ainda no ônibus, revolta-se contra a morte e as sevícias que o aguardavam ao fim da viagem, mas simultaneamente busca manter a razão para achar um modo de salvar mulher e filha. O desprezo de Anselmo por Soledad ofende a paixão que lhe devota Júlio. No limite, o livro de Urariano Mota é anacronicamente romântico como poucos o souberam ser na literatura da luta armada.
Antes de terminar, preciso falar da relevância da cidade do Recife na composição do romance, que não é apenas cenário, mas o seu derradeiro protagonista. Cada momento ativado por Urariano na memória das personagens está encharcado das paisagens do Recife. São elas que os companheiros bebem até perder a noção de que, segundo o partido, não se deveriam embriagar ou frequentar prostitutas. A geografia física e humana da cidade coletiviza, por assim dizer, a memória mais intensa de cada personagem — a que dura indefinidamente e que a literatura de Urariano ambiciona capturar.
É o Recife — os seus bairros e bares, o frevo e o jazz, os poetas e as pensões, a zona e a ponte debruçadas sobre o rio, os fantasmas antigos a perambular, perdidos — que acende a febre do tempo, sobrepondo 1972, 1973 e 2016. Uma febre incapaz de fornecer uma saída para o labirinto histórico da guerrilha falhada, mas potente como letra errática do seu espírito.
Alcir Pécora
Crítico literário, é autor de Teatro do Sacramento (1994); Máquina de gêneros (2001) e Rudimentos da vida coletiva (2002). É organizador de A arte de morrer (1994), Escritos históricos e políticos do Padre Vieira (1995), Sermões I e II (2000-2001); As excelências do governador (2002); Lembranças do presente (2006); Índice das coisas mais notáveis (2010); Por que ler Hilda Hilst (2010). Editou as obras completas de Hilda Hilst (2001-2008), Roberto Piva (2005-2008) e Plínio Marcos (2017).
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