Leonardo Attuch ao Global Times: inteligência artificial inaugura uma nova era do jornalismo e pode democratizar a produção do conhecimento

Editor do Brasil 247 afirma que a IA representa uma transformação comparável à invenção da imprensa, defende a tecnologia como bem público global e aposta na cooperação entre os países do Sul Global

Attuch discorre sobre o tema da IA
Siga o 247 no Google Notícias Seguir no Google Notícias Adicione o Brasil 247 como fonte preferencial no Google Apoie o jornalismo independente Apoie o 247

247 – A inteligência artificial representa a mais profunda transformação da história recente da comunicação e poderá redefinir completamente o funcionamento da imprensa nas próximas décadas. Essa é a avaliação do jornalista Leonardo Attuch, editor-responsável do Brasil 247 e da TV 247, em longa entrevista concedida ao Global Times, um dos principais jornais da China, publicada nesta semana. Ao longo de dez perguntas, Attuch abordou os impactos da IA sobre o jornalismo, os desafios éticos da nova tecnologia, o futuro das empresas de comunicação, a importância da cooperação entre os países do Sul Global e o papel da China na construção de uma governança internacional para a inteligência artificial.

Uma revolução comparável à invenção da imprensa

Na avaliação de Attuch, a inteligência artificial representa uma mudança tecnológica ainda mais profunda do que aquelas provocadas pela internet e pelas redes sociais. “A internet democratizou o acesso à informação, e as redes sociais democratizaram sua distribuição. A inteligência artificial é diferente porque democratiza a própria cognição”, afirmou. Segundo ele, pela primeira vez na história as máquinas não apenas facilitam o acesso às informações, mas também ajudam a interpretá-las, organizá-las, traduzi-las, resumi-las e produzir novos conteúdos.

Para o jornalista, enquanto a internet transformou a circulação da informação e as redes sociais mudaram quem podia distribuí-la, a IA está alterando a própria produção do conhecimento. “Nesse sentido, ela pode ser tão importante quanto a invenção da imprensa”, afirmou.

Brasil 247 já vive a transformação da IA

Attuch revelou que a inteligência artificial já está profundamente integrada à rotina do Brasil 247 e da TV 247. Hoje, as ferramentas são utilizadas diariamente para transcrição de entrevistas, tradução de conteúdos internacionais, apoio à pesquisa jornalística, organização de informações, sugestões de manchetes, legendagem, produção de cortes de vídeos e publicação multilíngue.

Segundo ele, essa incorporação elevou significativamente a produtividade da redação e permitiu ampliar a produção de conteúdo em diferentes formatos e plataformas.

Outro impacto importante foi a expansão do acesso às fontes internacionais. De acordo com Attuch, os sistemas de tradução e pesquisa baseados em inteligência artificial tornaram muito mais acessível o acompanhamento de veículos de comunicação de todas as regiões do planeta.

“Publicações como o Global Times, juntamente com muitos outros veículos da Ásia, África, América Latina, Europa e América do Norte, tornaram-se muito mais acessíveis ao público brasileiro por meio do nosso trabalho”, destacou.

Ao automatizar tarefas repetitivas, acrescentou, a tecnologia permitiu que jornalistas dedicassem mais tempo à realização de entrevistas, reportagens, análises e investigações. “Em vez de reduzir a dimensão humana do jornalismo, a IA a fortaleceu. O resultado não é menos jornalismo, mas mais jornalismo.”

O fator humano continuará sendo decisivo

Apesar dos avanços tecnológicos, Attuch ressalta que a inteligência artificial possui limites claros e não substitui o trabalho humano.

Segundo ele, os sistemas podem produzir erros, reproduzir vieses e criar conteúdos aparentemente convincentes, mas incorretos. Por isso, a supervisão editorial permanece indispensável.

“Reportagens investigativas, avaliação de fontes, julgamento editorial, decisões éticas e análise de contexto não podem ser delegados às máquinas.”

Na sua avaliação, as qualidades mais importantes do jornalismo continuam sendo humanas. “A IA pode processar informações, mas não pode assumir responsabilidade por suas consequências. Os jornalistas decidem o que é relevante, quais fatos precisam ser investigados e qual contexto deve ser apresentado à sociedade.”

Na era da IA, confiança valerá mais do que audiência

A entrevista também aborda a transformação da relação entre os veículos de comunicação e seus públicos. Attuch observa que um número crescente de pessoas passa a buscar informações diretamente em assistentes de inteligência artificial, em vez de acessar sites ou utilizar mecanismos tradicionais de busca.

“A IA está claramente se tornando uma nova porta de entrada para a informação”, afirmou.

Na sua avaliação, isso mudará profundamente o modelo de negócios da imprensa.

“No passado, os veículos competiam por audiência e tráfego. No futuro, competirão principalmente por confiança e autoridade dentro dos ecossistemas de informação baseados em IA.”

Segundo ele, a credibilidade passará a valer mais do que os cliques, pois os próprios sistemas de inteligência artificial dependerão cada vez mais de fontes reconhecidas pela qualidade de suas informações.

O jornalista do futuro trabalhará ao lado da inteligência artificial

Questionado sobre a evolução da profissão, Attuch afirmou que os jornalistas precisarão dominar novas competências tecnológicas, incluindo ferramentas de IA, análise de dados, produção multimídia e distribuição digital.

Entretanto, acredita que justamente as capacidades humanas se tornarão ainda mais valiosas.

“Pensamento crítico, criatividade, capacidade investigativa, julgamento ético e compreensão das complexas realidades sociais e políticas continuarão sendo insubstituíveis.”

Segundo ele, o jornalista do futuro não competirá com a inteligência artificial, mas saberá utilizá-la para ampliar a qualidade do seu trabalho, oferecendo aquilo que nenhuma máquina consegue produzir.

O desafio das empresas de comunicação

Como gestor de um dos maiores veículos digitais do Brasil, Attuch identifica o principal desafio das empresas de comunicação na conciliação entre inovação tecnológica e integridade editorial.

“As organizações precisam incorporar novas tecnologias sem abrir mão da precisão, da credibilidade e dos padrões éticos. Velocidade jamais pode substituir verificação, e eficiência nunca pode substituir responsabilidade.”

Para ele, há também um desafio cultural: preparar as equipes para trabalhar com novas ferramentas preservando os valores fundamentais do jornalismo.

O Sul Global precisa construir sua própria inteligência artificial

A entrevista dedica amplo espaço à questão geopolítica da inteligência artificial. Attuch alerta que existe o risco de os atuais modelos reforçarem as desigualdades históricas na circulação global da informação, já que a maior parte deles é treinada predominantemente com conteúdos produzidos em inglês e sob perspectivas concentradas no Norte Global.

Por isso, defende que os países em desenvolvimento ampliem sua cooperação tecnológica, acadêmica e midiática.

Nesse contexto, apresentou ao público internacional uma das iniciativas mais recentes do Brasil 247: o Instituto Sul Global.

Segundo ele, o centro de estudos nasce com a missão de fortalecer a cooperação intelectual entre países da Ásia, África, América Latina e Oriente Médio, conectando pesquisadores, universidades, jornalistas e centros de pesquisa.

A inteligência artificial, afirmou, permitirá produzir, traduzir, analisar e disseminar conhecimento em velocidade muito superior à observada até hoje, contribuindo para democratizar a produção intelectual e reduzir assimetrias históricas.

China assume papel de liderança mundial

Ao avaliar o desenvolvimento chinês na área, Attuch afirmou que a China se consolidou como um dos principais centros mundiais de inovação em inteligência artificial e tecnologias digitais, ao lado dos Estados Unidos.

Também declarou concordar com a visão do presidente Xi Jinping de que a inteligência artificial deve ser tratada como um bem público global.

“A IA é importante demais para se tornar propriedade exclusiva de um pequeno número de empresas ou países. Seus benefícios precisam ser compartilhados, especialmente com as nações em desenvolvimento.”

Segundo ele, a ênfase chinesa na cooperação internacional, na governança multilateral e no papel das Nações Unidas oferece uma base importante para que a tecnologia contribua para reduzir desigualdades e promover o desenvolvimento compartilhado.

No campo da comunicação, Attuch enxerga amplo potencial de cooperação entre China e demais países em áreas como tradução automática, distribuição multilíngue de conteúdos, formação de jornalistas, infraestrutura digital, verificação de fatos e pesquisa científica.

Ética internacional para uma tecnologia global

Outro tema central da entrevista foi a necessidade de estabelecer novos parâmetros éticos para enfrentar os desafios trazidos pelos deepfakes, pelas alucinações dos sistemas de IA e pela disseminação de conteúdos sintéticos.

Segundo Attuch, governos devem construir marcos regulatórios transparentes e democráticos; empresas de tecnologia precisam garantir segurança, responsabilidade e transparência; e os veículos de comunicação devem reforçar seus procedimentos de checagem e informar claramente quando utilizarem inteligência artificial na produção de conteúdos.

“A cooperação internacional é essencial porque a informação atravessa fronteiras”, afirmou.

O futuro pertence aos veículos que preservarem a confiança

Ao projetar os próximos dez anos, Attuch prevê que a inteligência artificial automatizará grande parte das atividades rotineiras de produção, edição, distribuição e personalização das notícias. Ao mesmo tempo, haverá uma explosão de conteúdos produzidos por máquinas.

Paradoxalmente, argumenta, isso tornará ainda mais valiosos os veículos capazes de oferecer credibilidade, contexto e responsabilidade editorial.

“A confiança, a credibilidade e a verificação serão mais valiosas do que nunca.”

Segundo ele, a missão essencial do jornalismo permanecerá inalterada.

“As organizações jornalísticas continuarão existindo para buscar a verdade, verificar fatos, oferecer contexto, fiscalizar o poder e ajudar as sociedades a tomar decisões informadas.”

E concluiu resumindo o maior desafio da era da inteligência artificial: “Num mundo em que a informação será cada vez mais abundante e produzida por máquinas, prosperarão as instituições que conseguirem combinar inovação tecnológica com julgamento humano, responsabilidade ética e compromisso permanente com o interesse público. A confiança será a principal moeda da indústria da mídia no futuro.”

❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com redacao@brasil247.com.br.

Cortes 247

One response to “Leonardo Attuch ao Global Times: inteligência artificial inaugura uma nova era do jornalismo e pode democratizar a produção do conhecimento”

  1. Concordo totalmente. Acho absurda a posição de boa parte da esquerda, hostil à inteligência artificial. É uma ajuda inestimável para pequenas e médias empresas, para pessoas físicas, para o jornalismo.
    Lembrando que há alternativas gratuitas, como o DeepSeek, gratuito e de código aberto (open source).

Participe da discussão

Acompanhe as
últimas notícias