247 – A China inaugura uma nova fase de investimentos no Brasil com um data center no Ceará e o avanço de empresas chinesas em infraestrutura digital, em um movimento que reforça a expansão de gigantes asiáticas no setor de tecnologia e consolida o país como peça estratégica na corrida global por infraestrutura de inteligência artificial e armazenamento de dados, relata o jornal O Globo. O empreendimento da ByteDance no Ceará simboliza uma nova etapa da presença chinesa no Brasil, combinando tecnologia, geopolítica e disputas por soberania digital em escala global.
À beira de uma rodovia no litoral cearense, uma estrutura de concreto e aço em construção chama atenção pelo porte e pela velocidade de execução. O projeto, que abrigará um dos maiores complexos de data centers da ByteDance fora da China, já altera a paisagem e insere o Brasil no mapa das grandes infraestruturas digitais do mundo.
“Avistadas da rodovia, parcialmente escondidas por palmeiras-leque e outras formas de vegetação, as fileiras simétricas de colunas de cerca de 5,5 metros evocam os grandiosos edifícios do Império Romano”, descreve a reportagem, que destaca o avanço acelerado da obra e sua relevância estratégica.
O gerente da construção, Wellysson Costa, resume a transformação da área:
“Aqui era tudo mato e vegetação rasteira”.
O empreendimento está sendo desenvolvido pela Omnia, empresa brasileira especializada em construção de data centers, após articulação com a ByteDance para instalação em zona de livre comércio no Ceará. A estratégia busca reduzir custos de importação de equipamentos de tecnologia e acelerar a implantação da infraestrutura.
O complexo terá capacidade inicial de 200 megawatts, com previsão de expansão para até 1 gigawatt, tornando-se um dos maiores da América Latina. A operação do primeiro salão está prevista para o fim de 2027, com uma estrutura que abrigará servidores voltados a cargas intensivas de inteligência artificial.
O Brasil aparece como destino estratégico para empresas chinesas por dois fatores centrais: matriz energética majoritariamente renovável e posição geográfica conectada por cabos submarinos que ligam o país à América do Norte, Europa e África. Segundo a BloombergNEF, o país já possui mais de 100 centros de dados, número ainda distante dos Estados Unidos, que lideram o setor com cerca de 1,7mil instalações.
O economista Rodrigo Borges, da Aurora Energy Research, avalia o potencial brasileiro:
“O Brasil reúne todos os atributos para se tornar um polo de centros de dados”.
A consultoria projeta que a capacidade instalada do país pode quadruplicar até o início da próxima década, ultrapassando quatro gigawatts.
A expansão chinesa não se limita à ByteDance. Segundo a reportagem, a Alibaba avalia instalar operações de processamento de inteligência artificial em São Paulo, enquanto empresas como Ascenty, Elea Data Centers e Scala Data Centers ampliam investimentos no setor, em disputa direta por contratos com gigantes globais de tecnologia.
O avanço também tem dimensão geopolítica. O Brasil mantém forte integração econômica com a China, principal parceiro comercial do país, com quase US$ 100 bilhões em importações chinesas de commodities como petróleo, minério de ferro, soja e carne bovina no último ano.
Para o secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luis Fernandes, o tema envolve soberania nacional: “Essa é nossa principal vulnerabilidade nacional: a soberania digital”.
Mesmo com vantagens estruturais, o Brasil ainda enfrenta entraves regulatórios e fiscais que atrasam a expansão do setor, como a demora na aprovação de incentivos para importação de equipamentos e a postergação de leilões ligados à infraestrutura energética.
No campo empresarial, o avanço chinês contrasta com a postura mais cautelosa de companhias norte-americanas. O engenheiro Eduardo Menossi observa diferenças na estratégia de investimento: “Os chineses estão dispostos a assumir certos riscos”.
E completa: “O americano é mais conservador”.
Menossi também avalia o reposicionamento global após conflitos recentes e tensões comerciais: “Então, qual seria o plano B para uma empresa americana? O Brasil passa a ser uma região estratégica”.
A presença de grandes data centers também impacta o ecossistema tecnológico local. Em Fortaleza, onde se concentram cabos submarinos responsáveis por cerca de 90% do tráfego internacional de internet do país, startups e incubadoras veem oportunidade de crescimento. Caetano Lima, da Ninna Hub, destaca o potencial: “Do ponto de vista de uma startup, é uma excelente oportunidade para testar softwares e novas tecnologias”.
Apesar do entusiasmo do setor, o avanço do projeto também enfrenta resistência de comunidades locais. O povo indígena Anacé tem realizado protestos contra a instalação do data center, alegando impactos ambientais e sociais na região do Complexo do Pecém.
A liderança indígena Andrea Coelho resume a oposição ao empreendimento: “Sinceramente, não vejo nada de positivo para a nossa comunidade. Eu não apoio esse projeto”.
Com investimentos crescentes, disputas políticas e tensões locais, o data center da ByteDance no Ceará se torna um símbolo da nova etapa da disputa global por infraestrutura digital, na qual o Brasil passa a ocupar posição estratégica entre China e Estados Unidos.
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