Opinião

A Nova China também tem rosto de mulher

No aniversário de 105 anos do PCCh, a história de Jiang Zhuyun revela a força das mulheres que ajudaram a construir o país

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No aniversário de 105 anos do PCCh, a história de Jiang Zhuyun revela a força das mulheres que ajudaram a construir o país

Neste 1º de julho de 2026, o Partido Comunista da China (PCCh) celebra 105 anos de fundação. E não existiria esta nova China, que hoje deixa o mundo embasbacado com a dimensão de seu desenvolvimento, se antes não houvesse mártires revolucionários que deram o sangue e a própria vida para que o futuro pelo qual lutaram — e o presente vivido pelas novas gerações — pudesse ser luminoso como é hoje.

Por isso, me orgulha muito ter contribuído com a produção deste vídeo sobre o qual eu falo neste texto, apresentado pela minha colega da CGTN Português Zhu Jing, a Sílvia, que conta a história de Jiang Zhuyun.

Em 1948, a Segunda Guerra Mundial já havia terminado, mas a China ainda vivia a Guerra de Libertação. Jiang Zhuyun e seu marido, Peng Yongwu, ambos membros do PCCh, atuavam na clandestinidade em áreas controladas pelo Kuomintang.

Uma mãe, uma revolucionária

Jiang Zhuyun foi uma mãe que deu a própria vida para lutar por seus ideais revolucionários. Ela tinha um filho pequeno, com menos de dois anos, quando decidiu permanecer na luta. Poderia ter recuado. Poderia ter escolhido apenas a segurança da própria família. Mas escolheu uma causa maior: a construção de uma nova China, onde outras crianças também pudessem crescer sem miséria, sem opressão e com dignidade.

É uma história difícil de ler sem sentir um aperto no peito. Como mãe, é impossível não pensar na dor dessa escolha. E, ao mesmo tempo, como mulher, é impossível não reconhecer nela a força de tantas mulheres que a história tentou empurrar para a sombra, mas que sustentaram revoluções, famílias, comunidades e países inteiros.

Jiang Zhuyun é a personificação de uma das frases mais conhecidas de Mao Zedong: “as mulheres podem sustentar metade do céu”. Eu diria até mais. Nós sustentamos mais do que metade do firmamento, porque somos nós, mulheres, que geramos a vida, cuidamos, trabalhamos, lutamos, enterramos nossos mortos, criamos nossos filhos e, ainda assim, seguimos adiante.

Mas nossos nomes nem sempre aparecem nos grandes livros de história.

Por isso, me emociona tanto celebrar Jiang Zhuyun. Porque ela me lembra que a revolução chinesa não foi feita apenas por grandes líderes, grandes batalhas e grandes decisões políticas. Ela também foi feita por mulheres jovens, mães, trabalhadoras, militantes, camponesas, combatentes, professoras, enfermeiras e operárias. Mulheres que, muitas vezes longe dos holofotes da história, sustentaram — e seguem sustentando — metade do céu.

O corpo da mulher como força histórica

Quando penso em Jiang Zhuyun, também penso no balé O Destacamento Vermelho de Mulheres, uma das obras mais emblemáticas da cultura revolucionária chinesa. A história das mulheres que se levantam contra a opressão, pegam em armas, organizam-se coletivamente e passam a ser donas do próprio destino talvez ajude a explicar por que a emancipação feminina ocupa um lugar tão importante na experiência chinesa.

Ali, o corpo da mulher não aparece como ornamento. Aparece como força histórica. Como disciplina. Como coragem. Como movimento. Como revolução.

É uma imagem muito poderosa para quem vem de um país como o Brasil, onde tantas mulheres ainda carregam sozinhas o peso da casa, dos filhos, da sobrevivência e da violência. No Brasil, as mulheres também sustentam metade do céu — muitas vezes sem salário, sem descanso, sem reconhecimento e sem proteção suficiente do Estado.

E talvez por isso a experiência chinesa me provoque tanto.

Não porque seja perfeita. Nenhum país é. Mas porque mostra que, quando um projeto nacional coloca o povo no centro, as mulheres deixam de ser apenas personagens secundárias da vida social e passam a ocupar um lugar decisivo na construção do futuro.

Das mulheres silenciadas às mulheres da modernização

Penso também nas mulheres de O Sonho da Câmara Vermelha — 《红楼梦》, também conhecido em português como A Mansão Vermelha, um dos maiores romances da literatura chinesa. É uma obra que ainda conheço apenas por resenhas e comentários críticos, mas que já está na minha lista de leituras. Mesmo assim, algo nela me atravessa: suas personagens femininas aparecem presas a uma ordem social profundamente patriarcal, marcadas por casamentos arranjados, hierarquias familiares rígidas, expectativas de obediência, silenciamentos e destinos quase sempre definidos pelos homens e pela estrutura da família tradicional.

São mulheres inteligentes, sensíveis, cultas e complexas, mas confinadas a um mundo em que seus desejos, talentos e afetos esbarram nos limites impostos por uma sociedade marcada por privilégios masculinos. Ao lembrar delas, fica ainda mais evidente a profundidade da transformação vivida pela China: um país que, em poucas décadas, saiu da pobreza extrema e de estruturas sociais arcaicas para construir uma sociedade em que milhões de mulheres passaram a estudar, trabalhar, pesquisar, liderar, ocupar espaços públicos e participar da modernização nacional.

Quando olhamos para essas histórias — Jiang Zhuyun, as combatentes do Destacamento Vermelho de Mulheres, as personagens femininas de O Sonho da Câmara Vermelha e as chinesas que hoje estão nas universidades, nos laboratórios, nas empresas, nas fábricas, no campo, na política e na construção cotidiana do país — entendemos que o desenvolvimento chinês também tem rosto de mulher.

E esse é um ponto fundamental.

Sob a liderança do Partido Comunista da China, milhões de mulheres deixaram para trás condições históricas de pobreza, submissão e exclusão. Passaram a acessar educação, saúde, trabalho, renda, ciência, tecnologia e participação social. A prosperidade chinesa não aconteceu apesar das mulheres. Aconteceu também por causa delas.

O que o Brasil precisa observar

É isso que o Brasil precisa observar com atenção.

Nós, brasileiras, conhecemos bem a força das mulheres. Somos maioria nas lutas populares, nas escolas, nos postos de saúde, nos movimentos sociais, nas famílias, nas periferias, nos sindicatos, nas cozinhas comunitárias, nas universidades e nas fileiras de quem segura o país nos momentos mais difíceis. Mas ainda vivemos em uma sociedade que naturaliza a desigualdade, a sobrecarga, a violência e a invisibilidade.

A China nos mostra que não há desenvolvimento verdadeiro sem projeto nacional. E também nos mostra que não há projeto nacional digno desse nome sem mulheres no centro.

A carta de Jiang Zhuyun, escrita da prisão, pouco antes de sua morte, é uma dessas peças históricas que atravessam o tempo. Ela pede que seu filho seja cuidado. Pede que ele siga o caminho dos pais. Pede que não seja mimado, que aprenda a viver com simplicidade e que se dedique à construção de uma nova China.

É uma carta de despedida. Mas também é uma carta de futuro.

Uma carta de futuro

Jiang Zhuyun não viveu para ver a libertação de Chongqing. Foi morta pelo Kuomintang apenas 16 dias antes da cidade ser libertada. Tinha só 29 anos. Mas a China pela qual ela lutou nasceu. E, 105 anos depois da fundação do PCCh, essa China existe, cresce, se transforma e segue afirmando que o povo deve estar no centro da história.

Talvez seja por isso que esse vídeo tenha me tocado tanto.

Porque ele não fala apenas de uma mártir revolucionária chinesa. Ele fala de memória. De maternidade. De coragem. De sacrifício. De mulheres que foram maiores que o medo. De uma geração que não lutou por si mesma, mas por aqueles que ainda viriam.

E fala, sobretudo, de uma verdade que o Brasil precisa recuperar: um país só se torna grande quando é capaz de sonhar coletivamente. Quando olha para suas crianças, suas mulheres, seus trabalhadores e seus pobres não como problema, mas como razão de existir.

A Nova China foi construída com sangue, vida, dor e esperança. Foi construída por homens e mulheres que acreditaram que a história podia ser diferente.

Entre essas mulheres estava Jiang Zhuyun.

Que a memória dela siga iluminando o caminho de quem acredita que outro futuro é possível — na China, no Brasil e em todos os lugares onde mulheres seguem sustentando o céu.

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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