À medida em que percebe a desorientação e o estilo errático do governo, campeão em desconstruir no dia seguinte o que construíra na véspera, o vice Michel Temer perde a timidez, ocupa espaço e inverte a equação. Antes, ele esperava ordens da presidente; agora, as dá.
Embora tenha trocado amabilidades com ela no desfile cívico, o que passou a impressão, para a plateia, de que eles estão alinhados, Temer não se furtou a criticar, no dia seguinte, a principal declaração dela na mensagem de 7 de setembro, a de que seria necessário aplicar “remédio amargo” para salvar a economia.
A resposta de Temer foi cirúrgica: “Temos que evitar remédios amargos”. Nesse mesmo dia o todo poderoso chefão da Fazenda insinuou, em Paris, que o governo poderia elevar o imposto de renda, contribuindo, mais uma vez, para azedar o clima nacional e Temer rebateu na lata: “Aumento de tributos só em última hipótese”.
Isso não mostra apenas que há divergências no Planalto. Isso não mostra apenas que o vice cada vez mais se alinha aos presidentes da Câmara e do Senado.
Mostra, cada vez mais claramente, que o Brasil tem dois governos. O da caneta e o dos votos no Congresso. Enquanto o primeiro está se desmanchando no ar, o segundo parece estar sendo montado por Temer, por via das dúvidas.
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