Opinião

Linguagens que morrem, linguagens que nascem

O raciocínio pode ser posto da seguinte forma: a linguagem da imprensa tradicional se traduz em uma palavra: presença de linha editorial. A linguagem da internet, por sua vez, traduz-se no exato contrário: ausência de linha editorial

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Marcos Santos
 / USP Imagens

 Palavras chave computador, computadores, informação, internet, navegar, Tecnologia
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Não tem coisa mais clichê do que dizer que as mídias sociais “favoreceram a “imbecilidade”. Mario Sérgio Cortella fez, ontem, esse desfavor a si próprio, tão inteligente e respeitado que é e continua sendo.

Muitos intelectuais que maturaram seus sistemas de pensamento ao longo do século 20 também praticam esse esporte do senso comum aplicado. É irresistível. Umberto Eco e Zygmunt Bauman, dois gigantes do pensamento ocidental, acabam ficando lado a lado com Leandro Karnal e Luis Felipe Pondé no quesito ‘crítica à internet’, o que talvez não seja, propriamente, da ordem do prestigioso.

Esquecem, provectos respeitados e pares, aquilo que eles, quando se dispunham a pisar em uma sala de aula como professores, fixavam como valor máximo do argumento científico-filosófico: respeito ao empírico, prospecção quali e quantitativa, consistência de dados, pensamento contra-intuitivo e fuga aos clichês.

Postular que a internet é uma usina de imbecilidade exige que se apresente dados, não que se fique desfilando na avenida dos lugares-comuns. Ninguém parece ousar a formulação de uma tese consistente a respeito do ódio e da ignorância que supostamente emergem da plataforma digital, porque, se assim o fizerem, certas feridas não cicatrizadas da lógica civilizatória ocidental ficarão expostas.

As pistas para essa tese, no entanto, estão cada vez mais evidentes, a se considerar o volume de informação disponível para tal intento – aliado, é claro, a algum tipo de método. É possível, portanto, arriscar a fuga desse lugar-comum, por si só, imbecilizante.

Em primeiro lugar, é preciso aceitar que o ódio crescente e massificado não é um fenômeno exclusivo de mídias sociais. Talvez, nem seja necessário mencionar fascismo, nazismo, África colonial, Brasil pós colonial, América escravagista, genocídio indígena et coetera. Ignorância tampouco, já que este anti-valor está fortemente associado ao ódio.

O que um pesquisador minimamente comprometido com dados e fatos postularia diante desta primeira evidência? Que durante todo esse período histórico prodigioso em intolerância física e simbólica extremas (os séculos 19 e 20), um singelo suporte de texto esteve sempre presente, ditando, explicando, relatando, pontificando e, acima de tudo, aderindo a certos sistemas de poder e aparente soberania institucional: a imprensa.

Isso é suficiente para responsabilizar a imprensa pelo horror do século 20? Não. É preciso investigar mais. Para isso, faz-se necessário depurar conceitos e fazer escolhas metodológicas. O ponto que escolho é a linguagem.

Entenda-se a imprensa tradicional do século 20 – portanto e para esta reflexão preliminar – como uma linguagem, organizada e ordenada para produzir seus sentidos e seu poder de persuasão. Entenda-se o que ela produziu em termos de libertação ou não libertação intelectual ao longo do século 20 (entenda-se que, de uma certa maneira, ela era a “internet” do século 20).

Isso, no entanto, é pouco e não satisfaz uma primeira aproximação do fenômeno aqui recortado. Um protocolo básico de uma pesquisa científica é fazer contrastar elementos para que haja uma explicação e uma significação mútuas. Proponho, aqui, contrastar internet e imprensa, mais precisamente a linguagem de ambas.

O raciocínio pode ser posto da seguinte forma: a linguagem da imprensa tradicional se traduz em uma palavra: presença de linha editorial. A linguagem da internet, por sua vez, traduz-se no exato contrário: ausência de linha editorial.

O que essas duas constatações óbvias podem nos mostrar? Que o que, de fato, nós temos no horizonte é a morte de uma linguagem associada ao nascimento de outra. Essa observação empírica, no entanto, não resolve a compreensão do fenômeno como um todo. É preciso avançar nas causas, nas consequências e, sobretudo, no cruzamento de dados.

Um primeiro e interessante fato científico é de ordem comparativa-associativa: essas duas linguagens disputam espaço na plataforma digital (porque a plataforma física aparentemente já está liquidada). É uma disputa simbólica fratricida e bastante violenta: a linguagem opaca da imprensa tradicional se recusa a morrer e a linguagem “caótica” das mídias sociais se alastra aparentemente desorganizada.

Qual choque constatável e visível esse embate deixa como rastro evidente e como indício de uma fragmentação no campo da interpretação? A predileção irresistível da imprensa tradicional pelo sensacionalismo, pela manchete, pelo rótulo. É esse mecanismo secular que a define: o escândalo da informação.

Ora, as mídias sociais nasceram sob o signo de sua antecessora estampada em celulose. Não poderiam, portanto, estabelecer uma linguagem nova de “bate-pronto”. Essa ambiguidade, essa simbiose, essa incerteza formal é que, à primeira vista, provoca uma certa convulsão no campo da interpretação de textos, pois a diferença de público e de acesso entre as linguagens em questão é grande demais.

Em outras palavras: a lógica das manchetes escandalosas proveniente da imprensa do século 20 aplicada ao campo massivo e global das mídias sociais do século 21 é que faz realçar esse grau elevado de “imbecilidade” e sua respectiva percepção preliminar por pensadores daquele mesmo século. Simplesmente, porque a essência da linguagem das plataformas digitais é o cruzamento de dados e informações, não sua recepção fria, não interativa e passiva.

Traduzindo: eles atiraram no que viram e acertaram no que não viram.

Pode-se concordar ou discordar desta tese, mas, ao menos, eu ofereço uma. Esse é o ponto: para se explicar supostos fenômenos de “imbecilização” – essa palavra forte – é preciso ser mais rigoroso do que o próprio significado que o objeto de investigação enseja. Prender-se a lugares horrivelmente comuns para agradar um veículo de “facilitação de informação” beira a paródia.

 
 

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