A China vem chamando atenção, de muita gente, já há algum tempo. Muito se fala sobre seu crescimento impressionante, sobre sua forma de governo, sobre a forma como se apresenta ao mercado e negocia com outros países, entre tantos outros temas. E, no meu caso, minha atenção sobre o antigo “Império do Centro” aumentou a partir de 2022.
Na época, em meio a meu curso de doutorado na UFRJ e, por conta disso, fazendo uma pesquisa sobre depósitos de patentes. Tratava-se de patentes para equipamentos de manuseio de biomassa, para uso na produção de combustíveis alternativos ao petróleo – já escrevi alguns textos para o Brasil247 sobre esse tema, que trata de meu foco de pesquisa. Nessa pesquisa, o primeiro dado que me chamou atenção foi que, entre mais de 470.000 patentes pesquisadas sobre o tema, as originadas na China totalizavam mais do dobro dos depósitos de patentes feitos em todos os outros países somados! Sim, mais do dobro. E entre os “outros” estavam os EUA, Japão, Alemanha, Índia etc.
O segundo dado que me saltou aos olhos foi que entre as patentes oriundas da China, quase todas protegiam suas tecnologias apenas dentro do território chinês, ao contrário dos demais países. Nos chamados “países desenvolvidos”, se exigia proteção das patentes tanto no próprio país quanto em todos os demais. Ou seja: enquanto a China se importava apenas com seu próprio desenvolvimento tecnológico, deixando que suas invenções fossem copiadas mundo a fora, pesquisadores e empresas dos demais países faziam questão de lucrar com suas patentes e serem exclusivos em qualquer lugar do planeta.
Depois disso, fiz um curso online sobre a China – ministrado pelo Paulo Gala e o Elias Jabour, fui à palestra da Isabella Weber no lançamento, em português, de seu livro “Como a China escapou da Terapia de Choque”, frequentei congressos com a participação de representantes daquele país (um deles organizado pelo Brasil247) e passei a ler mais a respeito. Faltava visitar a China para ver de perto o que eu estava aprendendo.
Mas eu não queria um passeio típico apenas em lugares atualmente na moda, como Pequim, Xangai e Shenzhen. Eu queria conhecer cidades menores que pudessem me fazer entender como o povo mais simples estava vivendo o tal crescimento estrondoso do país. Mas sem conhecer o idioma local e a região, seria muito difícil. E fui adiando. Até que uma de minhas noras (são duas), me apresentou a Estrela Vermelha. Uma agência de viagens que trata o turismo como um evento político e tem uma programação que incluí lugares que eu queria conhecer. Sim, fica aqui uma propaganda da Estrela Vermelha, pois o resultado superou minhas expectativas. O Rodrigo Ianhez e o Victor Tomsky nos levaram a lugares onde pudemos ver um país real, longe dos estereótipos e preconceitos tão presentes por aqui.
Vimos uma Pequim (Beijing) atravessada pela história. Desde a Grande Muralha e a Cidade Proibida até a Praça da Paz Celestial ladeada pelo Museu Histórico e entre o Mausoléu e o olhar vigilante de Mao Zedong. A Pequim dos grandes Shopping Center e também das lojas de compras populares. Dos bairros tradicionais (Hutong) e das grandes avenidas, do Parque Olímpico, do imponente museu do Partido Comunista, do Museu sobre a Guerra contra o Japão e da ponte Marco Polo – palco do conflito que deu início à 2a Guerra Mundial. Pequim que conta suas histórias em museus lotados por chineses de todas as idades. Pequim das scooter, do trânsito e do calor que me fizeram lembrar do Rio de Janeiro em pleno verão. Pequim do tão falado trem bala que não passa, apenas, de uma de suas entradas e saídas.
Como não poderia deixar de ser, fomos também a Xangai, onde o passado e o futuro se olham de frente nas margens do rio Huangpu. Local que abrigou o primeiro congresso do Partido Comunista Chinês e hoje possui uma avenida de luzes e cores de dar inveja a qualquer nova-iorquino, europeu ou japonês.
De lá fomos para Changsha. A província abriga as belezas naturais do parque Zhangjiajie com suas montanhas “suspensas” e o Portal do Céu na Montanha Tianmen, mas também de Shaoshan – terra natal do “Presidente Mao”, como os chineses gostam de chamar. Local símbolo da legitimidade do Partido Comunista Chinês.
Conhecemos Xi’an, a antiga capital do Império do Centro – Zhongguo (中国), e ponto de partida da Rota da Seda. Lá foram descobertos os Guerreiros de Terracota, próximos ao túmulo de Quin Shi Huang, o primeiro imperador da China unificada. Foi lá o Incidente de Xi’an que viabilizou a aliança nacional que iria enfrentar os japoneses e fortalecer a união que forjou a Revolução.
Além de Xi’an, fomos a Yan’an, antiga capital do Partido Comunista Chinês durante a 2a Guerra Mundial e a Guerra Civil. Local central na China, protegido por montanhas onde terminou a Longa Marcha liderada por Mao. Yan’na, que abriga a vila agrícola da Nanniwan, famosa pela campanha de produção agrícola autossuficiente, serviu de inspiração para o livro de Edgar Snow, “Estrela Vermelha sobre a China”. Local onde terminamos nossa viagem guiada, com gosto de “quero mais”.
Passamos por lugares deslumbrantes. Eu até poderia incluir algumas fotos nesse texto, mas sou um péssimo fotógrafo e com as referências que passei, é possível encontrar fotos muito melhores que as minhas na internet. Vale a pena!!
Entretanto, o que mais me impressionou na visita à China foi o povo chinês. A leveza e a paz do povo que observamos ao longo de toda a viagem chamava nossa atenção. Na China, não vimos policiais expulsando estrangeiros, não vimos pessoas arrogantes espantando visitantes com sprays de água nos restaurantes e nem vimos atitudes xenofóbicas ou racistas. Os chineses foram receptivos, festivos, sem testas franzidas e sem complexo de superioridade. Fomos recebidos com sorrisos, interesse e simpatia. Nos mostraram as feições de um povo corajoso e resiliente que lota seus museus e vive suas histórias. Um povo que convive bem com a diversidade e que está de bem com seu país.
Antes de iniciar a viagem, um de meus filhos anteviu que essa viagem tinha tudo para ser uma experiência transformadora. E foi! Fiquei impressionado com o que vi e com o que aprendi através das histórias contadas pelo Rodrigo e pelos museus que visitamos. A China e os chineses carregam as marcas da sua trajetória. Das invasões sofridas e das humilhações passadas ao longo de sua história milenar. O caminho para a leveza que, hoje, vemos nos rostos dos chineses foi sofrido. Eles tiveram que lutar. E lutar muito. E unidos, para conseguir levar o país ao lugar onde está. E nada indica que irão parar.
Vimos o retrato de Mao Zedong tanto em um dos portais da Cidade Proibida, na Praça da Paz Celestial, quanto em casas e bares humildes. Como que mantendo viva a lembrança da força popular e dizendo para seus dirigentes: estamos aqui! E somos fortes.
Ainda antes da viagem, um colega do grupo de pesquisas me fez quase que um pedido: “traga boas notícias de lá. Pois aqui está muito difícil de acreditar em um futuro melhor”. Pois bem… mesmo sendo pessimista com o homo sapiens, essa viagem me mostrou que é possível construir um futuro melhor. É possível uma vida mais leve, menos estressante e menos sofrida para a população em geral. Aprendi, entretanto, que isso foi resultado de um caminho longo e difícil. Um caminho que teve início em um período histórico marcado por guerras e invasões e que culminou na Revolução que transformou a China e os chineses. Mas essa foi a trajetória da China. Nós precisamos construir a nossa.
Quem sabe, com união popular, não poderemos, finalmente, vencer esse sistema feudal de capitanias hereditárias e passar por um “socialismo moderno, com características brasileiras” que combine as ações do estado e do mercado, estabelecendo metas estratégicas de médio e longo prazo, orientando o investimento público, a infraestrutura e o desenvolvimento industrial, tecnológico e social. A China mostra que é possível.
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