Ontem, domingo, enquanto almoçávamos, estouraram alguns rojões nos arredores e uma amiga de fora imediatamente perguntou se era para comemorar a prisão de Lula. Respondi que provavelmente não, que deveria ser por conta da final do Campeonato Paulista. É hoje? O São Paulo joga? Infelizmente, estamos fora. E quem joga? Palmeiras x Corinthians. Você vai torcer pra quem?
Uma pergunta dessas para um são-paulino, racionalmente, não faz o menor sentido. Em qualquer outro domingo, eu teria respondido para ninguém. Mas ontem foi diferente.
Sábado estive em São Bernardo do Campo, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, e vivi a catarse proporcionada pela missa em homenagem à Dona Marisa e pelo discurso de Lula. Milhares de pessoas revoltadas, centenas chorando, de jovens a idosos, “Não se entrega”, “Resiste”, suplicava a multidão.
“Não adianta tentar acabar com as minhas idéias, elas já estão pairando no ar e não tem como prendê-las… Não adianta eles acharem que vão fazer com que eu pare, eu não pararei porque eu não sou um ser humano, sou uma ideia”.
O dia, na verdade, havia começado na quinta-feira quando Moro resolveu varrer os recursos ainda cabíveis para a defesa de Lula e acelerou o pedido de prisão. Com prazo para se apresentar até às 17h do dia seguinte, a sexta-feira não parecia um novo dia, mas a extensão do interminável pesadelo de quinta, que foi postergado para o sábado com a decisão acertada de não se apresentar no período estipulado pelo juiz de primeira instância de Curitiba. No sábado à noite, depois de muita discussão interna e com a PF, Lula resolveu que era o momento de dar o desfecho tão aguardado por seus algozes. Mas o fez a seu modo, a pé e cercado pela sua gente.
“Não adianta achar que tudo vai parar o dia que o Lula tiver um infarto, é bobagem, porque o meu coração baterá pelos corações de vocês, e são milhões de corações… Eles têm de saber que a morte de um combatente não para a revolução”.
Apesar da injeção de ânimo, as cenas noturnas dos deslocamentos por São Paulo e para Curitiba foram indigestas.
No domingo, sabendo que Lula teve o pedido aceito para assistir à final do seu time de coração em sua solitária, não pensei duas vezes ao responder à amiga de fora: vou torcer para o Corinthians. Por Lula. Ele precisa dessa alegria hoje. E, conhecendo a estrela de ambos, assim que Rodriguinho abriu o placar no primeiro lance da partida após bela jogada do Mateus Vital pela esquerda, tive a certeza de que acontecesse o que acontecesse, aquela tarde seria do Corinthians. E de Lula. Foi sofrido, foi polêmico, angustiante, histórico e, no final, retumbante, assim como a trajetória de Luiz Inácio. Campeão.
“Todos vocês, daqui pra frente, vão virar Lula e vão andar por este país fazendo o que você tem que fazer, e é todo dia! Todo dia!”
Eu sou Lula.
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