Opinião

Críticas pela esquerda a Haddad só ajudam Bolsonaro na reta final

“Num momento em que vozes progressistas resolvem engrossar o caldo de ataques ao candidato do PT, cabe fazer uma pergunta simples e direta: a quem serve?”, escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247. “Quem gosta de referências históricas pode lembrar das críticas duríssimas do PCB a Getúlio, em agosto de 1954, a favor de ‘por…

Críticas pela esquerda a Haddad só ajudam Bolsonaro na reta final
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Quando faltam sete dias para a rodada final de uma eleição que pode abrir um período de risco para o regime democrático e ameaça às liberdades públicas assistimos a um espetáculo deprimente.

Críticos  que se reivindicam da luta progressista resolveram engrossar o caldo de ataques a Fernando Haddad, o candidato que, com virtudes e defeitos, chega a reta final como a única possibilidade real de derrotar Jair Bolsonaro. Nas urnas de 28 de outubro, o cidadão brasileiro poderá escolher entre duas opções: o 13 e o 17.

Bater em Haddad, numa conjuntura na qual não há a possibilidade de substituir sua candidatura, é fazer o jogo dos inimigos da nação brasileira. Ajuda a confundir o eleitor e desmobiliza o combate para virar votos, indispensável para mudar um ambiente intoxicado pela industria criminosa das fake news, após escândalo que o TSE fará o possível para abafar.  

Claro que se pode reconhecer a pertinência de determinadas críticas a Haddad, que, também na minha opinião, fez mudanças desnecessárias e até prejudiciais a seu programa de governo. Tenho certeza de que os leitores deste espaço sabem do que estou falando. Ninguém questiona o direito de cada um ter sua opinião.  O problema é o momento de fazer isso. A pergunta é simples: a quem serve?

Quem gosta de referências históricas, poderia lembrar das críticas duríssimas do Partido Comunista a Getúlio Vargas em 1954.  Como registra Mario Magalhães em “Marighella — o  guerrilheiro que incendiou o mundo”, 72 horas antes do suicídio Luis Carlos Prestes defendeu em entrevista que era preciso “pôr abaixo o governo Vargas”. Convencido da importância do pronunciamento, o partido republicou a entrevista na manhã da tragédia — e teve sua sede empastelada por uma massa furiosa de trabalhadores que se levantou indignada com a morte de Getúlio.   

Dez anos mais tarde, o Correio da Manhã, jornal que defendia as reformas de base de João Goulart e tinha uma postura em defesa da Constituição, mudou de lado para alinhar-se com o golpe militar de 64.  Em dois editoriais consecutivos ( “Basta!” e “Fora!”), publicados nas datas decisivas de 31 de março e 1 de abril, o Correio disse que “o Brasil já sofreu demais com o governo atual” e também:  “queremos que o sr Goulart devolva ao Congresso, devolva ao povo o manto que não soube honrar”.   

Quando faltam sete dias para a eleição, é uma irresponsabilidade absoluta deixar de reconhecer a verdade fundamental desta eleição. Como aconteceu com as campanhas anteriores do Partido dos Trabalhadores e do próprio Lula, a importância de uma vitória de Haddad é infinitamente maior do que limites e falhas como candidato. Há uma fronteira entre os candidatos, que marca também uma distância abismal entre possibilidades de país. Este é o verdadeiro debate a ser ressaltado no Brasil de 2018, quando a elite do país renunciou a todos os escrúpulos para deixar o caminho livre para o candidato que até a bíblia do capital financeiro, Economist, aponta como “ameaça a democracia”.

Chamar Haddad de candidato “menos ruim”, como já fez a campanha do PDT, é oportunismo de mau perdedor. Trabalhar na destruição de sua imagem, num momento em que recebe ataques sem fim pela direita, é apenas uma demonstração de desprezo pelo esforço de milhões de brasileiros mobilizados para defender sua democracia. 

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Cortes 247

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