Luís Nassif explicou muito bem (AQUI) quais as razões de Márcio Pochmann incomodar tanto Miriam Leitão e, em efeito manada, outros comentaristas de economia repetidores dos mantras do “mercado”. O professor da Unicamp, ex-presidente do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, está sendo pintado por essa gente como um irresponsável tendente a fraudar dados quando alçado ao comando do IBGE. Essa espécie de “acusação preventiva” contra um cidadão sem máculas no passado pode vir a ser enquadrada em algum tipo penal? Consultaremos juristas num segundo tempo.
De outra parte, ser insultado por certas pessoas engrandece o currículo. Em termos de argumentação teórica, liberais e neoliberais – e suas vozes na mídia – jamais poderiam aplaudir a indicação de Pochmann por Lula para o IBGE ou qualquer cargo que fosse. Seu pensamento é 100% antidominação do Estado pelo “mercado”. O professor, autor de umas cinco dezenas de livros, enxerga a economia como disciplina humana, como instrumento formulador de estratégias que visem ao desenvolvimento do país e ao bem-estar da população. Como poderia o nome de Pochmann agradar o “mercado”?
Selecionamos alguns trechos de artigos de Márcio Pochmann publicados recentemente em veículos de imprensa não alinhados ao neoliberalismo. A leitura levará à óbvia constatação de que o professor da Unicamp jamais poderia agradar ao “mercado”, mesmo que alçado a uma instituição que não define a política econômica. Sinal de honestidade intelectual da parte dele.
A seguir, Pochmann: “a modernização no padrão de consumo posta em marcha com a estabilização monetária alcançada pelo Plano Real, em 1994, alcançou o limite destrutivo dos postos de trabalho da classe média assalariada e o endividamento das famílias de menor renda. Além disso, a viabilidade da estabilização monetária dependia de juros reais elevados, necessários para internalizar capitais externos, em geral especulativos, e permitir a valorização cambial (doença holandesa) fundamental à inundação de bens importados no mercado interno a preços inferiores.”
“(…) De outro lado e, por consequência, ocorreu a artificial elevação na taxa de juros promovida pelo Banco Central que, ao onerar as finanças públicas, promoveu o déficit público a ser financiado pelo maior endividamento do Estado e/ou austeridade fiscal, a elevação da maior carga fiscal, a privatização e o teto de limite aos gastos públicos não financeiros. Ao mesmo tempo, o patamar da taxa de juros reais passou a inibir os investimentos produtivos internos, alimentando o rentismo e a ‘maquiagem’ da montagem e empacotamento de insumos e componentes importados, travestidos de bens finais comercializados no mercado interno.”
“Na maior parte das vezes, as economias importadoras de bens e serviços digitais terminam financiando o consumo moderno com a produção e exportação de commodities minerais e vegetais. Isso muitas vezes é combinado à pobreza e baixos salários de ampla parcela da população com a intensa agressão ao meio ambiente.”
“A elevação da carga tributária em torno de 10 pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB) entre os anos 1990 e 2022 transcorreu assentada proporcionalmente mais na arrecadação sobre os segmentos dos rendimentos intermediários e empobrecidos. A classe e a fração de classe social dos proprietários terminaram sendo profundamente favorecidas.”
“Mesmo as novas atividades econômicas e modelos de negócios próprios da Era Digital, como a monetização das redes sociais, aplicativos e plataformas digitais, avançaram sem inclusão plena e efetiva no modelo atual de tributação. Com o passar do tempo, as distorções das ‘reformas pró-ricos1 impulsionadas pelo receituário neoliberal foram se tornando cada vez mais evidentes, operando contra os brasileiros que produzem e trabalham.”
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