Gosto das Copas que inventam imagens capazes de sobreviver ao placar. A Noruega encontrou a sua sentada no gramado, depois da vitória por 2 a 1 sobre a Costa do Marfim.
Jogadores, reservas e comissão técnica alinharam-se como tripulantes de um barco. À frente, Martin Ødegaard bateu o tambor; atrás dele, todos puxaram remos imaginários e gritaram “Ro!”, verbo que, em norueguês, significa remar.
A cena, que parece coreografada, nasceu da intuição de Ole Frøystad, professor primário e torcedor conhecido como “Mr. Row Row”. A brincadeira saiu das arquibancadas, ganhou os jogadores, atravessou Times Square, chegou ao Parlamento norueguês e tomou as ruas de Oslo. Cerca de dois milhões de pessoas acompanharam a classificação — quase 40% da população do país. Depois de 28 anos fora de uma Copa, a Noruega celebrou como quem recupera uma memória coletiva.
A escolha do barco não é casual. A história norueguesa foi moldada pelo mar. Entre os séculos VIII e XI, os vikings dominaram rotas comerciais e militares com embarcações como o drakkar, construídas com técnica de sobreposição de tábuas (clinker-built), leves e flexíveis, capazes de navegar tanto em mar aberto quanto em rios rasos. Esses navios dependiam de coordenação absoluta: até 60 remadores precisavam manter ritmo preciso para garantir velocidade e estabilidade. Sem sincronia, o barco girava; com ela, avançava.
A seleção transformou essa lógica ancestral em linguagem esportiva. A coreografia troca espada por chuteira e conquista por classificação, mas preserva o princípio técnico: eficiência coletiva baseada em sincronização.
Toda Copa cria um idioma universal. Em 1986, a “ola mexicana” percorreu os estádios e se tornou patrimônio global. Em 2010, a África do Sul apresentou a vuvuzela, instrumento de cerca de 120 decibéis que dividiu opiniões. A Islândia levou à Rússia, em 2018, sua batida cadenciada de palmas e o grito “Huh!”, já testados na Euro de 2016. O Brasil, por sua vez, sempre respondeu com samba, bandeiras e percussão — porque nunca tratou o futebol como silêncio.
Foi nesse contexto que o Olodum entrou na conversa. Diante da repercussão do tambor norueguês, o bloco baiano publicou um vídeo e provocou: “Se a disputa for fazer o balanço com o tambor, por aqui já estamos na frente. Quem sabe, sabe!”. A resposta foi precisa: orgulho sem agressividade, humor sem arrogância.
Há uma desproporção reveladora nesse diálogo. O Olodum, fundado em 1979 no Pelourinho, ajudou a consolidar o samba-reggae como linguagem musical global, influenciando artistas como Paul Simon e Michael Jackson. Sua bateria pode reunir mais de 200 percussionistas. Comparar isso a um único tambor norueguês é como opor uma canoa a um desfile inteiro — e ainda assim, ambos se reconhecem no ritmo.
Brasil e Noruega disputarão uma vaga, mas essa pequena batalha sonora já produziu algo maior. De um lado, um país reencontra sua identidade coletiva através de um gesto ancestral. Do outro, uma tradição afro-brasileira reafirma sua potência cultural. No campo, vence quem fizer mais gols. Fora dele, a vitória já aconteceu: quando um professor norueguês e um bloco baiano conseguem dialogar sem tradução, a Copa cumpre sua função mais elevada — transformar diferenças em linguagem comum.
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