Em seu podcast semanal da última terça-feira (19/12), o presidente Lula falou que estava “puto” com os ataques que sua mulher sofreu na rede social X (antigo Twitter). Disse ainda que é fundamental regular as plataformas o mais rápido possível, para conter a disseminação do ódio e das mentiras.
Janja teve sua conta no X hackeada na noite do dia 11 de dezembro, quando ali foram postados conteúdos ofensivos, de cunho misógino. Um adolescente de 17 anos assumiu a invasão da conta, mas as investigações estão em curso.
A primeira-dama criticou Elon Musk e sua rede social, afirmando que além de pouco fazerem para impedir as agressões contra os usuários do X, também criam dificuldades para congelar as contas invadidas.
Indignado, o presidente Lula afirmou que as pessoas estão ficando desumanas: “A violência (nas redes sociais) contra meninas é uma coisa absurda” O desafio, segundo o presidente é que o país avance em uma regulação séria e, nesse sentido, buscar experiências em modelos adotados na Europa, China e Estados Unidos.
Não é preciso ser um grande observador para perceber que a realidade tem cada dia se parecido mais com as distopias literárias que tanto nos assombraram. Para a perversão das relações e das mentes, que estão no âmago do nosso cotidiano, as redes e mídias sociais têm contribuído decisivamente. Não por acaso. Não de forma natural e espontânea. Toda essa engrenagem virtual é manejada de forma planejada e estruturada, para alcançar o resultado desejado por aqueles que estão por trás delas: a captura e controle da mente e das emoções das massas. Mas afirmo, caro leitor, que isso não é novidade. O que mudou foi o instrumento.
Antes, o instrumento de controle eram as concessões de rádio e televisão para grupos ligados à direita mais conservadora, a grupos religiosos e empresários que fizeram e fazem fortunas, alugando as concessões ou chantageando políticos e empresas na busca de publicidade.
Lembro que em 1962, a Globo fechou um acordo com o conglomerado estadunidense Time Life. Na época, o país vivia sob o governo de João Goulart e esse acordo iluminaria o posicionamento que a Globo seguiu nos desdobramentos que levaram ao golpe militar de 1964, patrocinado pelo governo dos Estados Unidos.
O apoio da Globo lhe valeu a concessão de sinais de rádio e televisão, já no início da ditadura militar. Com o aporte financeiro e estratégico do grupo Time Life, a Globo deu início à criação da maior rede de televisão do Brasil e uma das maiores do mundo.
Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, iniciou uma campanha pública, denunciando a ilegalidade do acordo, pois a lei proibia a participação de empresas estrangeiras nas concessões de sinais de radiodifusão. Uma CPI foi instalada na Câmara dos Deputados, mas deu em nada. Em março de 1967, o marechal presidente Castelo Branco declarou que eram infundadas as acusações, e o caso foi encerrado.
Não à toa e com todo esse prestígio junto aos golpistas, a rede Globo seguiu apoiando a ditadura até seus últimos dias e continua a ser um farol a iluminar os interesses do império americano no Brasil.
Nos anos 70/80, a empresa de Roberto Marinho instalou uma rede de torres de retransmissão capaz de levar o sinal da emissora a todo o território nacional. Até a primeira década dos anos 2000, a emissora tinha um poder de comunicação que lhe permitia nas grandes decisões do país, inclusive nos processos de impeachment de presidentes. Um poder que tem escorrido entre os dedos, com a chegada das grandes plataformas na internet.
Hoje, sem nenhuma restrição legal, empresas estadunidenses como Google, Youtube, Meta, X, operam no território nacional, controlando e tendo acesso a vida de cada brasileiro. É um avanço diário sobre as nossas vidas particulares e coletivas. Sobre isso, embora a situação seja grave, o debate crítico é restrito aos meios acadêmicos. A população – eu, você, entregamos todos os dias, sem qualquer resistência, nossos dados, nossas preferências de interesse e consumo. Como e para que esse universo de informações tem sido usado, não está claro para a maioria de nós. Mas o resultado, todos vemos: a cristalização da polarização política no nosso país é prova disto, a eleição de Bolsonaro e de Milei, na Argentina, também.
O fato é que essas empresas de tecnologia usam as informações para interesses políticos e econômicos dos próprios grupos, para ações de poder. Manipulando, incitando emoções e se capitalizando com isso. Criam artificialmente os caminhos da própria História, relativizam a razão, o tempo e a verdade. As programações de TV e rádio fizeram isso no século passado, mas hoje, a estrutura e o alcance das redes e mídias sociais são maiores.
Aliás, segundo estudiosos, estamos na era da pós-verdade, esse neologismo que expressa a popularização da relativização dos fatos, mesmo os mais objetivos e a criação de narrativas próprias para tudo – as fake-news. Nessa distopia contemporânea, até a frase “o tempo é o senhor da razão”, de Marcel Proust, perde o sentido. A própria razão é questionada. O que temos é a urgência da regulação desses instrumentos, que são definitivos e inevitáveis. A democracia e a própria civilização dependem da contenção do avanço dos efeitos perversos de uma comunicação de massa poderosíssima, que tem nos lançado numa arena virtual sem regras, baseada na mentira e na violência.
Em clima de final de ano, esperançoso, desejo que as distopias – que nos apresentam cenários pessimistas, assombrosos, com governos totalitários e cidadãos privados de seus direitos fundamentais – voltem aos seus espaços próprios, unicamente na literatura, nas artes e na cultura. Que assim seja!
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