Opinião

Nos 102 anos de Leonel Brizola, o PTB se prepara para voltar a suas origens

Quando a ditadura, no início do processo de redemocratização do país, subtraiu a sigla PTB dos trabalhistas, as lágrimas escorreram no rosto de Brizola

Leonel Brizola
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“Menino, você sabe que tirou a presidência da República das minhas mãos. Pois então, trate de ganhá-la.” Foi dessa maneira que Brizola iniciou a conversa com Lula, que sacramentaria o apoio dele ao líder petista no segundo-turno da eleição de 1989. Eu acompanhei como repórter esse e outros encontros entre esses dois marcantes políticos da história do Brasil. Como o do último comício da campanha de Lula no segundo-turno, na frente do estádio do Pacaembu. Foi emocionante ver Brizola e Mario Covas erguendo os braços de Lula no palanque, para o delírio da multidão.

Nunca fui brizolista, mas sempre tive uma forte simpatia pelo político gaúcho. O último encontro que tive com ele foi em junho de 2000, quatro anos antes de sua morte. Uma entrevista longa, de mais de uma hora, para o documentário que também virou livro: “Histórias do Poder”. O cunhado de João Goulart tinha temperamento explosivo. Defendia suas posições políticas com vigor, às vezes até físico, como no dia do suicídio do presidente Getúlio Vargas.

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Leonel Brizola e Florestan Fernandes Jr.(Photo: Arquivo pessoal)Arquivo pessoal

“Quando cheguei em Porto Alegre, a multidão furiosa incendiou o Diário Associados, o consulado norte-americano e quebrou a Tribuna Gaúcha (jornal do partido Comunista). Eu estava indo pra casa com o deputado Vilson Vargas, quando passou um carro, dirigido por um militar, com um deputado do PSD. O deputado olhou pra mim e deu uma risadinha de canto de boca, de deboche, de satisfação íntima por aquela tragédia. Eu não tive dúvida. Manobrei o carro e fui atacar aquelas pessoas no outro cruzamento. Eles saíram já de revólver na mão. Eu tinha uma capa de chuva, joguei em cima de um deles e o meu companheiro, que estava em luta com o outro, deu um tiro, porque viu que o sujeito que lutava comigo tirou uma arma para me atingir. Bom, eu sei que dali a pouco era aquele mundo de sangue correndo, e eu não estava ferido. Acabamos ali. O deputado foi levado para o pronto-socorro, mas estava bem, o tiro tinha sido na perna.” Esse relato mostra bem como era Leonel Brizola, um homem de paixões explosivas, que não levava desaforo pra casa. Aliás, essa característica levou a um afastamento longo entre ele e o cunhado, João Goulart, durante o período do exilio no Uruguai. Foi o que explicou Brizola: “O teimoso era eu. Jango até fez várias tentativas de reconciliação… e só houve reconciliação dez anos depois.” Mesmo assim, por um período bem curto, até a morte de Jango, em Buenos Aires, em 1976.

A desavença entre os dois se deu por conta da resistência armada montada por Brizola no Rio Grande do Sul contra o golpe em marcha no país, em 1964. Jango foi contra o enfrentamento com os militares. Tinha esperança de chegar a um entendimento, a um acordo com os generais, mesmo que tivesse que abrir mão de alguma coisa. Segundo Brizola, a última conversa entre os dois terminou com a seguinte frase de Jango: “Olha, eu verifico que terá que haver derramamento de sangue para eu permanecer no governo. Quero dizer que se é indispensável que haja derramamento de sangue, prefiro me retirar.” O resto dessa história todos conhecemos muito bem: a democracia ruiu, a repressão se instalou por vinte e um anos, na ditadura dos generais.

Acho que para comemorar os 102 anos do nascimento de Leonel Brizola, nada mais justo do que a restituição do PTB à sua origem, aos legítimos titulares: os trabalhistas, que elegeram pelo voto Getúlio Vargas à presidência em 1950; João Goulart à vice-presidência, em 1960 e Brizola ao governo do Rio de Janeiro, nos anos 90.

Quando a ditadura, no início do processo de redemocratização do país, subtraiu a sigla PTB dos trabalhistas, as lágrimas escorreram no rosto de Brizola. Mas ele não esmoreceu, criou o PDT e continuou sua luta por uma sociedade mais justa e democrática.

Um dos fiéis herdeiros da legenda, Vivaldo Barbosa, vem lutando para o resgate do PTB, desde que a sigla desapareceu, após a fusão ao Patriota e a criação do PRD (Partido da Renovação). Que Vivaldo tenha sucesso e que o PTB retome seus ideais na política nacional.

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Cortes 247

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