Opinião

Sala dos Milagres

Mistérios e descobertas nos Achados e Perdidos da maior rodoviária do Brasil

Achados e perdidos da rodoviária do Tietê
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De repente, perdemos o hábito de telefonar. Até para o irmão, a melhor amiga, namorado ou namorada a gente se pega sem jeito e manda mensagem: “pode falar?”

Às vezes o desejo, quase inocente, é o de uma ligação pra matar saudade, fazer surpresa, contar piada. Parece que a intimidade se foi e, constrangidos, digitamos: “tem um tempinho agora?”

Fabiane é das minhas, acha esse tipo de pergunta um exagero. Liga e pronto. Se a pessoa não puder atender que diga. A gente tenta outra hora e tudo bem.

Foi por causa desse “papo reto” da Fabiane que nos conhecemos. Vi as letras grandes na tela do meu celular aconselhando a não atender: TELEFONE DESCONHECIDO! NÚMERO SUSPEITO! SPAM!

Ignorei o aviso e atendi. A voz serena da Fabiane informou que meu bilhete único havia sido encontrado. Avisa que tenho 60 dias para retirar no setor de Achados e Perdidos do metrô, na estação Sé. Basta levar documento com foto.

No apartamento do Recife, onde estava hospedado, eu já tinha dado falta do bilhete. Aflito, procurei dentro da geladeira e embaixo do tapete. Quanto mais vasculhava, mais desapontado ficava.

Na semana seguinte estava frente a frente com Fabiane. Ela mesma me devolveu o cartão, depois de passar álcool gel e me dar um sorriso.

Acho que Fabiane não conhece Simone, mas as duas têm muito o que conversar. Simone é responsável pelo setor de Achados e Perdidos numa das maiores rodoviárias do mundo, a do Tietê, em São Paulo. Cuida dos objetos e mais ainda das pessoas. Gente que vem desesperada porque perdeu a chave, o celular, uma mala cheia. Duas malas cheias. E agora?

A sala da Simone é abarrotada de bolsas, mochilas, skate, bengalas, dentadura, chapéus e acredite, muletas. Como alguém deixa pra trás a muleta? Sem a muleta, como embarcou? Ou desembarcou? Simone ri, não tem resposta pra tudo.

O dia a dia é organizar as traquitanas e acalmar os “cabeças-de-vento”.

 “Tenha confiança, às vezes a devolução leva horas ou dias. Vai aparecer.” Ela repete com gentileza.

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Capa do livro Birinaites, Catiripapos e Borogodó, de Luís Cosme Pinto(Photo: Reprodução)

Simone acumula histórias preciosas.

– A maior surpresa?

– Numa bolsa grande, entre roupas e louças, descubro uma tartaruga. A bichinha está morta e coberta de sal grosso. Certeza que ia virar sopa ou churrasco.

– A maior emoção?

– O rapaz perde o computador, que logo é encontrado. Ele chora e me diz: “É a minha vida que está aqui dentro. É a minha vida. Você salvou minha vida.” Até hoje me pergunto: o que tinha de tão importante lá dentro.  

– A maior alegria?

– Um senhor perde a mala de roupas e quando vem pegar me abraça. O mais longo abraço de minha vida. A pandemia come solta e eu rezo para ele não ter Covid. Apertando a mala ele repetia: “todas as minhas roupas, minha filha. Tá tudo aqui. Minha camisa do Sampaio Corrêa, a gravata, meu único paletó. Isso é milagre.”

– O que mais?

– Já devolvi a coleção de bonés de um DJ, saco de ração, carteira com dinheiro, panelas, chuteira; também mala cheinha de queijo e caixa de isopor com mais de cem mangas; e ainda uma descoberta romântica.

– Qual?

– Uma aliança de ouro que a mulher esquece no banheiro enquanto lava as mãos.

– E aí?

– Quando vem receber ela fala bem baixinho: “Menina, você salvou meu casamento”.

O que leva alguém a esquecer algo tão importante? Ansiedade, pressa, nervosismo com a viagem?

Pode ser a viagem da vida. A família da periferia de São Paulo, voltou para Cacimba de Dentro, na Paraíba. Os Moreira – vó, netos, marido e mulher – levavam mudança completa. Acreditavam que a geladeira e o fogão caberiam no ônibus. Se enganaram. Bagageiro tem limite e os eletrodomésticos ficaram pra trás. Faltou dinheiro pra pagar uma daquelas empresas de frete, que existem na rodoviária e resolvem este tipo de emergência. Nunca ninguém contou esses detalhes aos Moreira, típicos passageiros de primeira viagem.

O patrimônio ficou ali, largado na plataforma. Que tristeza.

Na mesma situação, repousam na sala da Simone, o televisor de 50 polegadas, o ventilador, o colchonete. Vai tudo pra doação, enquanto em alguma cidade distante, uma família faz novo crediário.

Simone e Fabiane – lembra dela, lá do metrô? –, ao contrário de tantos trabalhadores que atendem o público, são reconhecidas com elogios, agradecimentos, sorrisos.

“Fico satisfeita, eu também cheguei a São Paulo por essa rodoviária. Já perdi bens e sei como é bom receber de volta. Tem muita gente honesta. É uma sorte.”

Eu também dei sorte, Simone. O bilhete único esquecido virou caminho para encontrar uma crônica que estava perdida aí, na sua sala, a sala dos milagres.

*Agradeço às jornalistas Fabiana Paula, Fabiana Nogueira e à equipe da Socicam pela ajuda, pelas informações e por me levarem à sala de Achados e Perdidos do terminal Tietê.

*Luis Cosme Pinto é autor do livro de crônicas Birinaites, Catiripapos e Borogodó, da Kotter.

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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