Como filho da Dona Neusa – aliás, que hoje completa 79 anos de idade -, cabeleireira, primeiro como funcionária de um salão e depois à frente do seu próprio negócio em nossa casa, e neto do seu Chico, barbeiro, ouso dizer que tenho mais lugar de fala para discutir a jornada de trabalho dessas categorias do que a boca de aluguel da velha elite industrial paulista enviada ao Senado para defender a escala 6×1. Cresci vendo minha mãe abrir o salão quando a cidade ainda despertava e fechar as portas quando o sol já havia ido embora. Vi mãos calejadas, coluna curvada, dias inteiros tirando cutículas, pintando unhas e cabelos, fazendo penteados e os pés de suas clientes. Aprendi cedo que que trabalho sem descanso desumaniza.
Foi por isso que senti vergonha alheia ao assistir à diretora-executiva jurídica da Fiesp, Luciana Nunes Freire, subir à tribuna do Senado para apresentar uma coleção de sofismas, embalados como se fossem argumentos técnicos. O espetáculo foi constrangedor.
Sua tese era quase infantil. Disse que trabalha cinco dias por semana, folga aos sábados e domingos e que justamente nesses dias frequenta o salão de beleza, faz compras no supermercado e passa na farmácia. Daí concluiu, ou quis induzir o público a concluir, que acabar com a escala 6×1 significaria condenar esses estabelecimentos ao fechamento nos fins de semana.
É difícil acreditar que uma dirigente da principal federação industrial do país desconheça um conceito tão elementar quanto escala de trabalho, revezamento, turnos. Não. Ignorância não parece ser o problema. O problema atende por outro nome: desonestidade intelectual.
Não é preciso ter mais de meio neurônio funcionando do lado esquerdo do cérebro para compreender que uma jornada 5×2 não fecha salões de beleza, supermercados, farmácias ou postos de combustível. Fecha, isso sim, uma das últimas portas que ainda insistem em separar o trabalhador do direito ao descanso.
Hospitais funcionam vinte e quatro horas por dia. Aeroportos pouco dormem. Delegacias permanecem abertas. Hotéis recebem hóspedes em todos os dias do ano. A própria indústria organizada pela Fiesp opera em turnos ininterruptos quando isso interessa ao lucro. Mas, curiosamente, quando o assunto é garantir dois dias de descanso ao caixa do supermercado, ao balconista da farmácia ou à manicure, ao jovem que trabalha em uma loja de shopping, a matemática empresarial desaparece e cede lugar ao terrorismo retórico.
O objetivo nunca foi explicar. Foi assustar. É a velha cartilha dos que sempre anunciaram o apocalipse diante de qualquer avanço social. Disseram que férias quebrariam empresas. Disseram que o décimo terceiro destruiria empregos. Disseram o mesmo da licença-maternidade, da limitação da jornada e de tantos direitos que hoje até seus antigos opositores fingem defender.
O debate sobre o fim da escala 6×1 não é apenas econômico. É civilizatório. A questão central é simples: queremos construir uma sociedade onde as pessoas trabalham para viver ou uma sociedade onde vivem para morrer servindo aos interesses de uma minoria privilegiada?
A fala da representante da Fiesp revelou muito mais do que pretendia esconder. Revelou a dificuldade de uma parcela da elite em enxergar trabalhadores e trabalhadoras como cidadãos. Para ela, o descanso parece um luxo. Para quem vive do próprio suor, é um direito.
A escala 5×2 não representa o fim do trabalho. Representa o começo da dignidade. E talvez seja justamente isso que contrarie tanto quem jamais precisou escolher entre descansar um domingo ou colocar comida na mesa na segunda-feira.
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