Trabalho exaustivo na colheita de café expõe jornadas de até 91 horas semanais

Relatório revela condições degradantes em fazendas mineiras

Um funcionário trabalha em uma plantação de café robusta em São Gabriel da Palha, no estado do Espírito Santo, Brasil
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247 – Um trabalhador rural aceita uma proposta para atuar na colheita de café em Minas Gerais com promessa de boa remuneração por produtividade, mas encontra uma realidade marcada por dívidas, custos inesperados e jornadas exaustivas que começam antes mesmo do primeiro dia de trabalho efetivo. Após viajar por dias, ele descobre que precisa arcar com equipamentos e despesas básicas, acumulando débitos enquanto trabalha do nascer ao pôr do sol, relata o blog Café na Prensa, da Folha de São Paulo.

O cenário é detalhado no relatório Forced Labour Risks in Brazil’s Coffee Supply Chains, elaborado pela KnowTheChain em parceria com a Adere-MG (Articulação dos Empregados Rurais do Estado de Minas Gerais). O estudo ouviu 24 trabalhadores de fazendas fiscalizadas durante a safra de 2025, trazendo relatos que, embora não representem toda a cafeicultura brasileira, apontam situações que se enquadram como trabalho análogo à escravidão, conforme previsto no Código Penal.

Enquanto o país discute propostas de mudança na escala de trabalho, como o fim do regime 6×1, os relatos mostram uma realidade ainda mais dura em determinadas propriedades. Os trabalhadores afirmam cumprir jornadas que variam entre 59 e 91 horas semanais. Há casos de início de trabalho às 5h30 e retorno apenas após o anoitecer, sem pausas para refeições, já que o pagamento depende diretamente da produtividade.

Segundo o relatório, muitos trabalhadores se alimentam rapidamente, em pé, para não comprometer o rendimento. O único dia de descanso, aos domingos, não é remunerado e acaba sendo utilizado para atividades básicas, como lavar roupas e comprar mantimentos. As condições de moradia também são precárias: casas com até 28 pessoas dividindo um único banheiro, sem utensílios essenciais e, em alguns casos, sem colchões.

Outro fator recorrente é o endividamento. A alimentação é comprada em armazéns indicados pelo empregador, muitas vezes a crédito, com os valores descontados posteriormente do salário. Esse mecanismo contribui para a permanência forçada no trabalho, uma das características previstas no artigo 149 do Código Penal, que tipifica como crime submeter alguém a condições análogas à escravidão.

O relatório opta por não identificar fazendas, empregadores ou cooperativas, alegando questões de segurança dos trabalhadores. Ainda assim, os casos descritos remetem a práticas históricas, como o colonato nos cafezais do século 19, marcado por promessas de trabalho que se transformam em ciclos de dívida e exploração.

As denúncias começam a ter repercussão internacional. Em 2025, trabalhadores brasileiros moveram uma ação contra a Starbucks em um tribunal dos Estados Unidos. A organização Coffee Watch também solicitou ao órgão alfandegário norte-americano a proibição da importação de café associado a trabalho forçado no Brasil. Além disso, reclamações foram apresentadas com base na legislação alemã sobre cadeias de suprimentos.

Um dos trabalhadores ouvidos resume a experiência: “Eu nunca mais voltaria. Porque lá não tem nada, só trabalho. Porque você não sabe quanto vai ganhar. Tem muita conta para pagar —acomodação, comida, máquina de colher, gás”. Ele acrescenta: “Você sai de casa para ver se consegue algo para pagar suas dívidas, chega lá e se endivida mais”.

Procurada, a Faemg (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais) afirmou que o Brasil possui um dos sistemas de fiscalização trabalhista rural mais estruturados do mundo e que irregularidades são identificadas e punidas. A entidade destacou que a cafeicultura é composta majoritariamente por pequenos e médios produtores e que os casos registrados não representam o funcionamento regular da cadeia produtiva.

Em nota, a federação declarou que “as ocorrências eventualmente registradas são justamente resultado dessa fiscalização ativa e não representam o funcionamento regular da cadeia produtiva”. Também afirmou que “a ampla maioria dos produtores rurais brasileiros cumpre a legislação e trabalha diariamente para gerar emprego, renda e desenvolvimento em suas regiões”, além de alertar que generalizações podem distorcer a realidade do setor.

A Faemg informou ainda que participa do Pacto pela Adoção de Boas Práticas Trabalhistas na Cafeicultura e promove capacitações voltadas à legislação trabalhista e segurança no trabalho.

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