A carne mais barata do mercado



Desde que “enterrou” Lula e o PT nas últimas eleições, a mídia brasileira começou a demonstrar uma aparente tristeza por não ter mais sobre o que falar, pois escrever editoriais e formar mesas para tecer considerações políticas sobre “derrotados” não deve dar audiência, a não ser para meia dúzia de gados pingados. O bom mesmo seria discutir o tal do “centro ampliado”, a construção do Joe Biden tupiniquim ou aquela Federação Galáctica, sediada em uma base subterrânea em Marte. 

Enquanto se dão os realinhamentos políticos-fisiológicos pós-eleição, determinados nomes da imprensa nativa, em total desrespeito aos quase 180 mil brasileiros mortos, insistem em defender o indefensável. Outros, por sua vez, começam a descobrir que o atual governo é um risco de vida. Na verdade, de morte. Antes tarde do que nunca, diriam os incautos. Mas isso não vai longe, dirão outros, uma vez que esses formadores de opinião, mesmo com suas sondas de oxigênio no nariz, insistem em negar o caos que nos devora, enquanto o monstro que emerge da lagoa.

Em meio a tudo isso, num ano de completa desesperança, a matança de crianças segue, dando sequência ao genocídio do negro brasileiro, exterminado cada vez mais cedo, sob os olhos cúmplices de uma sociedade que parece já ter se acostumado ao medonho, à barbárie. Acerca desta questão, a Rede de Observatórios da Segurança, em recente estudo, apontou que a maioria dos mortos pelas polícias do Ceará, Pernambuco, Bahia, São Paulo e Rio de janeiro, no ano de 2019, é negra. Para surpresa de ninguém, o estudo vem confirmar o que brasileiros, negros e negras, sabem desde a mais tenra idade. O que causa alarme, choque e indignação são as porcentagens disponibilizadas pela Rede. Em ordem decrescente, tem-se: na Bahia, 97% dos mortos em ações policiais eram negros. Em Pernambuco, 93%, no Ceará, 87%, no Rio de Janeiro, 86% e, em São Paulo, 63%. Os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, por sua vez, registram que, no ano de 2019, 74% dos homicídios ocorridos no país vitimaram pessoas negras, enquanto 79% dos mortos pela polícia também eram, adivinhem, pessoas negras. 

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Enquanto nossas crianças negras são assassinadas à bala de fuzil, a mídia coorporativa faz cara de paisagem. Sabe ela que suas crianças estão seguras em seus condomínios de luxo, onde a polícia jamais entrará, se entrar, atirando. Mas a vida, parafraseando Audre Lorde, não deveria ser um luxo somente para alguns, mas um bem coletivo a ser protegido por todos e todas. O muito que se ouviu da indignação pela morte das duas meninas assassinadas no Rio foi muito pouco, quase nada. Isso porque a indignação da sociedade brasileira é seletiva, e isso não mudará tão cedo, pois, apesar dos discursos, são poucos os que realmente querem que mude, uma vez que, como dito na canção A carne, de Marcelo Yuka, Seu Jorge e Ulisses Cappelletti: “a carne mais barata do mercado é a carne negra / Que vai de graça pro presídio / E para debaixo do plástico / E vai de graça pro subemprego / E pros hospitais psiquiátricos...”. Mas somente a voz de Elza Soares dilacerando nossos medos ao entoar cada um dos versos de A carne não é o suficiente para nos encolerizarmos. É preciso ir além. É preciso dizer basta!

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Os dados da Rede de Observatórios da segurança e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública comprovam que não existe bala perdida. O que existe é um Estado que mata, que elimina os indesejáveis, os invisibilizados, os negros. O que existe é um sistema de exclusão, pautado todo ele, por estruturas arcaizantes de poder e dominação política a serviço das elites financeiras que sobrevivem de sangrar o país. Para o sistema, crianças como Emily e Rebecca são só carne humana pra moer. Nada mais. A lamparina liliputiana da sociedade brasileira não permite que se enxergue um palmo à frente do nariz, por sua chama ser tão minúscula quanto sua própria régua. Não há nem vontade nem interesse em parar a matança de pretos e pobres.  Enquanto isso, tiros ecoam e ecoam. Não existem balas perdidas.

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