A dor dos outros

Um bom administrador à testa do mais alto cargo da República, em dois minutos de conversa, distinguiria, sem dificuldade, o perfil para as funções que distribui. Quando isso não se verifica, é o que estamos assistindo: o pesadelo

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Quem tem pesadelos sabe que o que a gente vê, em elaborações sombrias, guarda a marca do exagero. A tal ponto isso se dá que, ao despertar, ficamos confusos, divididos entre as projeções que nos afligiram e a realidade, às vezes não menos aterradora. O atual governo transmite essa sensação. Envolvido em dificuldades de toda ordem e vítima de suas próprias orientações, erra, sucessivamente, nas escolhas. Chega ao ponto de evitar nomeações com receio de bater com a cabeça na parede e terminar criticado. Em função disso, depois de dois ministros que deixaram a pasta (para não mencionar o desacerto da atriz Regina Duarte na Secretaria de Cultura), suportamos a existência de um interino na Saúde, um general (!), a conduzir, sem preparo, uma área às voltas com uma epidemia severa. Pois não contentes com tais infelicidades, prosseguimos. Eis que trocamos o ruim por piores – e daí por diante. Agora se anuncia o nome de um ex-vice-reitor da Universidade Mackenzie, em São Paulo, tido como moderado e preparado. Trata-se do sr. Milton Ribeiro.

Suspiraríamos aliviados, com a sensação de fugir do pesadelo, se o noticiário não associasse a seu nome opiniões que emitiu ao longo da vida, defendendo a severidade e a dor na formação das crianças. Caímos novamente no mau sonho... Em pleno século XXI (e não na Idade Média) ele considera que a dor infligida pelos adultos contra as crianças possui um papel terapêutico na construção do caráter. É o retorno, junto ao quadro-negro, da vara de marmelo, mencionada com arrepios pelos avós dos nossos avós como ferramenta para facilitar a disciplina. Lembremos que no século XVIII, o ensino entre os jesuítas apresentava tais procedimentos. Na Assembleia Nacional, durante a Revolução Francesa, não foram poucos os que levantaram um repúdio uníssono contra seus antigos, cruéis e “bem-intencionados” professores, queixando-se de uma infância funesta. A modernidade imaginava que a razão havia posto um paradeiro a semelhantes pedagogias vinculadas ao atraso e à ignorância. Nossos filhos e netos merecem coisa melhor. A dor, ao contrário do que afirma o sr. Ribeiro, atrapalha a absorção do conhecimento. Não enriquece: empobrece. E transforma ingênuos em monstros, já que em vez do amor, injetam-lhes rancor e ódio na circulação sanguínea. Cito a reminiscência de um psicanalista especializado em jovens infratores, impossíveis de controlar. Qual o remédio para eles? – perguntei. Ele me respondeu: doses cavalares de amor. A sociedade paga um preço pelas violências cometidas. Herdeiros que somos do massacre dos indígenas e do escravismo dos negros, sabemos como se traduzem as dívidas de sangue.

​A um Ministro da Educação devia se exigir inteligência e sensatez, além de conhecimento adquirido nos livros e nos diplomas. O recém-escolhido exibe opiniões exóticas e as pronuncia com arrogância. Não se limitou à “pedagogia da dor”. Teorizou sobre a pedofilia. Culpou a vítima por assistir aos programas de TV, disso resultando, em sua visão, trejeitos que atraem o apetite dos outros.

Um bom administrador à testa do mais alto cargo da República, em dois minutos de conversa, distinguiria, sem dificuldade, o perfil para as funções que distribui. Quando isso não se verifica, é o que estamos assistindo: o pesadelo.

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