A Estepe 1

As relações possuem seus altos e baixos, o momento de tédio e o de euforia, a rotina ao mesmo tempo que dá uma estabilidade também desgasta, por isso o esforço para mantê-las é quase hercúleo, porque muitas vezes é mais fácil fingir que nada acontece e simplesmente deixar tudo passar, e a aparência de estabilidade nos reconforta e acomoda

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Os caminhos que a vida percorre são bem tortuosos, vivemos pautados em padrões estabelecidos, conceitos morais, exigências sociais de comportamento e experiências próprias, que nos tornam o que somos e, que influenciam em nossas relações. Todos temos nossas bagagens, traumas, projeções, medos e anseios.

Reconheço que após o fim do casamento e como ele se deu, me tornei uma pessoa arisca para relacionamentos; a mágoa, a decepção e a percepção do que vivi me trazem o medo do sofrimento, o que me paralisa e talvez me impeça de tentar o novo, de me entregar a possibilidade real das relações. Porém, percebo que não sou a única, talvez homens e mulheres estejam com tanto medo do amor que preferem a superficialidade das relações, pois aparentemente o sofrimento e o vazio são menores do que a frustração de um envolvimento verdadeiro e com sentimento.

Não é fácil o fim de uma relação afetiva, principalmente um casamento, mesmo que o sentimento não exista mais. Há muitas expectativas e sonhos gerados e criados, há o conforto de uma rotina, a aparente disponibilidade do outro, a crença de uma estabilidade emocional, de uma vida sem muitos sobressaltos.

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Conheci meu Ex-marido na infância, morávamos na mesma rua, erámos vizinhos de casa. Ele foi minha primeira paixão, naquele momento em que passamos a observar o outro não apenas como o amiguinho, o instante que se desperta o primeiro desejo, com ele aconteceu o primeiro beijo na adolescência, mas essa parte acho que falarei mais à frente.

Começarei a falar sobre o fim, quando não reconheci mais em mim o afeto que sentia por ele, nem mesmo o homem que acreditei ter casado, com quem dividi mais da metade da minha vida e tive meus dois filhos. 

O fim foi longo, costumamos postergá-lo, tentamos resgatar o que se sentia, os sonhos e expectativas que foram construídas, pensamos nos filhos, no que os amigos e familiares vão pensar, no medo da incerteza quanto ao futuro. Não tenho dúvidas que foi um dos momentos mais difíceis da minha vida; reconhecer o fim foi doloroso, jamais imaginei que seria possível sofrer tanto e por um tempo tão longo. Ainda hoje carrego em mim as dores, os traumas e as consequências de tantas mágoas causadas; acredito que talvez ele também tenha as suas.

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Lembro do meu pai me dizendo que o fim de um casamento é causado pelos dois, mas reconhecer nossos erros e nossas culpas é complicado. Vejo que se talvez tivéssemos tido uma vida de maior parceria, cumplicidade, diálogo e a tentativa de tentar compreender o outro, como se sente, suas construções, pensamentos e crenças seria possível ao menos ter sido um fim menos doloroso.

Tenho a crença na monogamia, na fidelidade; não como um conceito moral ou religioso, mas como uma postura de lealdade ao meu próprio sentimento e ao direito do outro a verdade e, a oportunidade de se construir e decidir sobre a sua vida.

Aprendi que não tenho a obrigação de gostar, amar alguém, assim como ninguém tem essa obrigação para comigo, se não há reciprocidade que cada um siga o seu caminho e lhe seja dada a oportunidade de se refazer e quem sabe encontrar alguém que possa proporcionar, compreender e se ajustar ao que cada pessoa busca para si.

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As relações possuem seus altos e baixos, o momento de tédio e o de euforia, a rotina ao mesmo tempo que dá uma estabilidade também desgasta, por isso o esforço para mantê-las é quase hercúleo, porque muitas vezes é mais fácil fingir que nada acontece e simplesmente deixar tudo passar, e a aparência de estabilidade nos reconforta e acomoda.

Não sei se felizmente ou infelizmente não sou assim, amo a verdade, quero viver o que é real, com todas as consequências que isso pode me trazer e digo: as dores são muitas, mas elas me fazem viver; não vivo mais a solidão da ausência de mim, o que me foi insuportável. Ainda carrego o trauma da não existência, da invisibilidade, do silêncio de quem acreditei me amar.

Meu Ex-marido é engenheiro, um homem culto, inteligente, charmoso, mas carrega em si toda a estrutura do macho, do proprietário, guerreiro conquistador de territórios e, não escuta e jamais dará voz a Terra almejada e fecundada por ele.

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Desde pequena ouvia de minha mãe “que quem procura acha”, por isso ela me recomendava nunca procurar nada, revirar bolsos de calças, olhar na carteira e hoje vasculhar as mensagens de celular. Assim procedi no meu casamento! Confiava naquele homem, para quem me comportei como sua propriedade, contrariando o que sou e no que acredito. Aguentei todo o vazio do meu ser e do meu existir para viver o “sonho” do amor de infância, da bela história de um romance, daqueles de encontros e desencontros, mas que ao fim o amor vence.

Não foi bem assim. Havia um tempo que já estávamos em crise e dessa vez ela estava mais aguda, não conseguia mais tentar resgatar, me calar e voltar a me ajustar a ele, sem que houvesse a reciprocidade. Sempre tentava resgatar nossa relação, via vídeos, lia livros, buscava novas posições, comprava fantasias e substâncias para apimentar a relação; essa era uma tática que costumava dar certo, mas depois de quase 20 anos, estava cansada, desgastada.

Naquele momento queria uma iniciativa dele, além da parte sexual, queria o apoio para a retomada da minha carreira, pois havia me dedicado tanto tempo a ele e aos filhos que precisava olhar um pouco para mim, simplesmente, ouvir meu nome e não mais ser denominada como “essa é a minha esposa” ou “mãe”.

Mas nada acontecia e o distanciamento entre nós só aumentava. Em uma das várias noites de insônia, como de costume fui para a sala ver televisão para esperar o sono vir. Estava no escuro só com a luz da tela iluminando a sala, mas de repente um clarão se fez no braço do sofá, era uma mensagem no celular do meu Ex-marido, recebida às 03:00 hs da manhã, enviada pela Estepe. Naquele instante ignorei o que minha mãe havia ensinado e o que nunca tinha feito em todo o meu casamento, foi feito. Abri a tela do celular, fui ao aplicativo de mensagens e acessei a troca entre os personagens.

Li e visualizei tudo o que, finalmente, me libertaria da clausura em que vivia, mas não percebi isso naquela hora, o que senti foi apenas o gosto amargo da traição, do direito cerceado a verdade, das oportunidades perdidas de reconstrução por ser considerada como território, o qual nenhum outro poderia conquistar, mesmo que o guerreiro não mais tivesse interesse em permanecer nele.

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