A indústria da ignorância e o valor da dúvida

A dúvida foi criada por mais de um ano e ainda permanece para parte da população. O valor dessa dúvida deve ser apurado, tornando público o lucro que os empresários da cloroquina tiveram neste processo. O custo já o sabemos

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A catástrofe sanitária vivida no Brasil tem sido motivo de investigação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (C.P.I.) no Senado Federal, que centra a sua apuração na atuação e/ou omissão do Governo Federal no combate à pandemia do coronavírus. 

Mais que um embate político em que se esgrima a favor ou contra o governo, assistimos a um debate de teses baseadas em argumentos supostamente científicos. De um lado a oposição evidencia o conhecimento clínico adquirido até ao momento no mundo inteiro e preconizado pela Organização Mundial de Saúde (O.M.S.): afastamento físico, uso de máscaras e álcool gel, confinamento sempre que necessário e vacinação como meio único de imunização; do outro lado vemos a defesa de tratamentos com medicamentos sem validação clínica, abertura total da economia e a famigerada imunidade de rebanho.

Este embate apresenta-se como um confronto entre dois pontos de vista válidos, com argumentos aparentemente científicos. Assim encontramos médicos/as a defender o uso de Hidroxicloroquina e Ivermectina como pilares de um suposto tratamento precoce para a covid-19, contra todas as evidências, conclusões e práticas da restante comunidade médica internacional, como se tratasse de conhecimento científico alternativo. Consagram a autonomia de prescrição e atuação dos/as médicos/as com a pretensão de situar a discussão no campo da opinião e assim colocar a decisão ao nível individual: a utilização deste "tratamento" depende do entendimento e opção quer do/a profissional de saúde quer do/a paciente.

Somos convidados a assistir ao mais recente rounddesta luta cada vez mais evidente entre a democratização do conhecimento científico e a acumulação capitalista.

Negacionismo com tradição

O século XX trouxe um desenvolvimento tecnológico e científico ímpar na história humana. Com ele, o capitalismo estabeleceu novas formas de produção, criando novos e maximizando antigos problemas de saúde pública e/ou ambientais, que ao se tornarem do domínio público colocam dúvidas quanto ao modelo de desenvolvimento, questionando o consumo de certos produtos ou a existência de setores inteiros da economia. As evidências científicas tomam um papel central na disputa da opinião pública, havendo um grande investimento por parte de grandes empresas na criação e propagação de "conhecimento científico" que contradiga a ciência e ajude o mercado a permanecer inalterado. Constituem-se Institutos e Fundações que elaboram inúmeros estudos que são lançados nos meios de discussão científica, abalando a discussão pública com a produção sistematizada de ignorância, o que, como abaixo se expõe, resulta em milhões de mortes e na destruição quase irreversível da habitabilidade do planeta.

Das batalhas anteriores destaca-se a discussão sobre o consumo de cigarros, imortalizada no filme "Obrigado por fumar" 2006 (Thank you for smoking no original), que levou a indústria do tabaco a investir pesado na desinformação durante décadas, atrasando as medidas de regulação que mudasse a composição e produção dos cigarros e alertasse os consumidores quanto aos malefícios do seu consumo. Nem a presença nos corredores do congresso nacional norte americano parecia segurar o aumento da consciência pública sobre a relação entre o consumo de cigarros e o aumento de cancros (cânceres) nos aparelhos respiratório e digestivo. Foram necessários muitos milhões de dolares de investimento em "cientistas" que promovessem "estudos" que "comprovassem" que fumar não fazia mal à saúde, conseguindo atingir durante décadas o objetivo mínimo da indústria da ignorância: criar a dúvida.

Essa dúvida permitiu a consolidação do cigarro como elemento cultural do século XX, levando a indústria tabaqueira a lucrar bilhões de dólares, matando milhões de pessoas pelo mundo inteiro para atingir esse lucro. 

Também o aquecimento global e alterações climáticas mereceram por parte da indústria energética forte posicionamento na discussão científica. Até há poucos anos ainda se questionava o aquecimento global como consequência direta da atividade humana. Recordemos que a própria indústria petrolífera tinha conhecimento deste facto desde o final da década de 1950. Al Gore, ex vice presidente norte americano na era Bill Clinton, insuspeito no seu compromisso com o desenvolvimento capitalista, já vinha alertando desde 1992 para os desiquilíbrios entre a socio e a bio e geoesfera no seu livro "A Terra à procura de equilíbrio: ecologia e espírito humano" (Earth in the balance, ecology and the human spirit no original). 

O investimento na produção de ignorância por parte da indústria dos combustíveis fósseis foi o maior alguma vez feito. Por mais de cinquenta anos, as petrolíferas garantiram que as alterações climáticas advinham de eventos cíclicos na evolução climática do planeta e que nada tinha a ver com a atividade humana. Através de centenas de fundações e institutos que produziram milhares de "estudos científicos" conseguiram atrasar a inevitável descarbonização da economia a níveis quase irreversíveis, potenciando situações de transtorno e risco de vida de grande parte da população mundial.

Estamos ainda hoje confrontados com o maior desafio da espécie humana: as alterações climáticas e o esgotamento do modelo ambiental, mas agora 60 anos atrasados para resolver o problema e depois de muitas mais toneladas de carbono emitidas para a atmosfera. Luta cada vez mais difícil de enfrentar também por falta de alternativa política e económica ao sistema atual.

A esquerda e a ciência

Com a pretensão de transformar a sociedade, foi natural à esquerda desenvolver seus conhecimentos em torno das ciências sociais. Constatamos na composição intelectual dos partidos de esquerda a presença de muitos quadros provindos das academias, normalmente de áreas sociais e humanas. O relacionamento entre a esquerda e as ciências exatas tem sido desleixado, em particular na disputa de temas que necessitam de base científica exata para o seu entendimento e resolução. Os motivos deste afastamento são variados, da mediatização da política que requer respostas políticas num tempo incompatível com a ciência, à ausência de proposta alternativa sistémica que compreenda a ciência e o seu tempo de maturação.

No resultado fica um entendimento aparentemente preguiçoso de temas nucleares, levando a que o próprio capitalismo identifique os problemas antes da esquerda e oriente as soluções.

A transição ambiental é um expoente dessa incompreensão da ciência na esquerda. Enquanto o capitalismo global já apresenta soluções descentralizadas quanto à produção de energia, colocando a ciência ao serviço da necessidade ambiental de reduzir o circuito de produção/distribuição/consumo/reciclagem, a esquerda altercapitalista ainda entende o problema como mais uma caracterização do socialismo, como o feminismo e o antirracismo. Não existe o domínio científico que determine que as lutas civilizacionais têm o tempo humano para se travarem e resolverem, enquanto as ambientais, atualmente de foro existencial, tem o tempo do planeta e sua natureza para se superar, ou seja, de acordo com a generalidade dos modelos climáticos, 10 anos. Este debate será central na discussão entre o socialismo ecologista e o ecossocialismo. Sendo o segundo na sua emergência mais respeitador das ciências exatas.

A diferença entre protozoário e vírus

Retomando o atual palco de confronto entre negacionismo e ciência, a C.P.I. da covid-19 notabiliza-se pela forma despudorada com que médicos/as e técnicos/as mentem sobre os factos científicos. Estudos sem cumprir os melhores critérios científicos, adulteração de dados e a negação do consenso científico internacional têm sido a base para a proliferação de fake news em plena C.P.I., ecoadas pelos senadores da base governista. Seria necessário que a C.P.I. desvendasse o circuito financeiro da cloroquina para o Brasil e o mundo conhecerem as verdadeiras motivações destes supostos profissionais da ciência e saúde pública. Não seria novidade que se em vez da preocupação nobre em ter um medicamento eficaz contra o vírus se encontrem contas bancárias recheadas por empresários que investiram na produção e venda dos medicamentos do suposto tratamento precoce.

Foi necessário um senador da oposição com formação médica, Otto Alencar (do Partido Social Democrático) questionar a Dra. Nise Yamaguchi (a médica de referência do governo na adoção do tratamento precoce e negação das vacinas, que lhe deu a fama de Dra. cloroquina) sobre a diferença entre protozoário e vírus para ficar demonstrado que um dos lados da contenda científica não dominava conhecimentos básicos de biologia. Um confronto técnico que surge somente na 3ª semana da C.P.I., revelando um despreparo de senadores e suas equipas na abordagem do tema. Também seria conforto para esta reflexão se o desmonte técnico do negacionismo tivesse surgido de um dos dois senadores mais à esquerda na C.P.I., que também têm formação médica. 

Entretanto a dúvida foi criada por mais de um ano e ainda permanece para parte da população. O valor dessa dúvida deve ser apurado, tornando público o lucro que os empresários da cloroquina tiveram neste processo. O custo já o sabemos e está a chegar a meio milhão de razões de intolerabilidade.

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