A lógica Bolsonaro

Ao defender o uso da tortura no estrito cumprimento da Lei, o deputado Jair Bolsonaro redime o homem que autorizou todo o martírio de Jesus Cristo. A lógica Bolsonaro compreende a crucificação do Homem de Nazaré como necessária para a manutenção da ordem e autoridade do poder de Roma sobre Jerusalém e no resto do seu império

perseguição - imagem para artigo A Lógica Bolsonaro de Celso Raeder
perseguição - imagem para artigo A Lógica Bolsonaro de Celso Raeder (Foto: Celso Raeder)
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O deputado federal Jair Bolsonaro acredita ser vítima de uma campanha difamatória. Para ele, ao homenagear o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, não estava enaltecendo a prática da tortura, mas defendendo o princípio de que a ordem estabelecida deve ser respeitada a qualquer preço. Sob a ótica do parlamentar, Ustra não foi um torturador, mas um servidor dedicado ao cumprimento da missão que lhe foi confiada, de sufocar a subversão daqueles que lutaram contra o regime militar.

Jair Bolsonaro manipula a História para respaldar suas ideias e pensamentos. Ao citar o coronel Ustra, o deputado não cultuava o personagem em questão, mas todos aqueles a quem couberam o triste e incompreendido papel de sujar as mãos de sangue para manter a lei e a ordem. Essa é a "Lógica Bolsonaro", que tem como eixo central a redenção de todos os "cidadãos de bem", que se tornaram torturadores e assassinos por exigência do establishment.

A Lógica Bolsonaro é legalista sem se importar com a moral. A ordem sempre deve estar acima da ética, da razão, de valores cujo conjunto convencionou-se chamar de Direitos Humanos. Tem como base a segregação, a discriminação, o ódio, e depende de climas sociais conturbados para vicejar. Claramente inspirada na cartilha nazista, busca simpatizantes contando com uma bem estruturada rede de colaboradores na Internet.

No livro "Os Carrascos Voluntários de Hitler", o professor de Harvard, Daniel Jonah Goldhagen, busca compreender o processo de lobotomia intelectual que transformou pessoas comuns, pais de família, trabalhadores, gente que costumava tomar cerveja no final de um dia de trabalho, em cúmplices de assassinos. O foco de sua investigação não são as atrocidades cometidas pelos militares que cumpriam ordens do Reich, mas a omissão e insensibilidade da população civil, que testemunhava risonha a humilhação e violência cometidas contra homens, mulheres e crianças, bem diante dos seus olhos.

A Lógica Bolsonaro vem conseguindo bons resultados no processo de lobotomia intelectual dos seus seguidores. Hoje, se um sujeito notadamente de esquerda sair para jantar com a esposa, será ofendido publicamente até que reaja. Aí logo aparecerá um celular gravando imagens para transformar o agressor em vítima, que se espalharão pelas redes sociais com legendas caluniosas e distorcidas da realidade. Não tardará e teremos um cadáver, com direito a selfie.

A Lógica Bolsonaro existe para que seu mentor ascenda ao poder. E suas chances aumentam quanto piores forem os números da economia. Existe um eixo central que comanda toda a estratégia, que é a busca por aliados intolerantes com as minorias. Bolsonaro não tem diálogo sincero em defesa dos negros, mulheres, homossexuais, índios, quilombolas e nordestinos, por exemplo. Mas seu discurso soa como música aos ouvidos de um desses Malafaias da vida. Com o apoio dos mercadores da fé, é possível avançar na busca de votos em segmentos sociais que ele simplesmente despreza. Para alcançar esse objetivo, a Lógica Bolsonaro apelará para o reducionismo, com o intuito de dividir o país entre "comunistas" e "capitalistas". Mas não existe plano perfeito.

Tempos atrás, o líder de um grupo subversivo foi preso e barbaramente martirizado. Segundo relatos de testemunhas, a tortura praticada em praça pública serviria para desmoralizar os insurgentes e mostrar ao povo quem mandava no pedaço. Os militares aplicaram violenta surra de chicote, deixando seu corpo em carne viva. Negaram-lhe alimento e água, e a humilhação e zombaria popular incitavam ainda mais o sadismo dos torturadores. Morreu atravessado por um objeto cortante diante dos olhos de sua mãe. Vítima do coronel Ustra? Não! De Pôncio Pilatos.

Aí está o ponto vulnerável da Lógica Bolsonaro. Ao defender o uso da tortura no estrito cumprimento da Lei, o deputado Jair Bolsonaro redime o homem que autorizou todo o martírio de Jesus Cristo. A lógica Bolsonaro compreende a crucificação do Homem de Nazaré como necessária para a manutenção da ordem e autoridade do poder de Roma sobre Jerusalém e no resto do seu império. Cada chicotada, cada prego cravado nas mãos e pés de Jesus foram, na concepção filosófica de Bolsonaro, absolutamente necessários para sufocar o levante que propunha a substituição de um regime de opressão por um mundo de amor.

Num país de população majoritariamente cristã, a ruína da Lógica Bolsonaro ocorrerá pela opção equivocada do seu líder em favor do assassino de Jesus Cristo. Como Silas Malafaia, Edir Macedo e Valdomiro Santiago explicarão isso aos seus fiéis? Que argumento terá um bispo da Igreja Católica, simpático da ultradireita, capaz de contrariar o símbolo máximo da fé, que é o sacrifício de Jesus para salvar os homens?

A defesa e homenagem ao coronel Brilhante Ustra foi um arroubo impensado que custará muito caro ao deputado federal Jair Bolsonaro. Ele, que pretendia lutar usando a estratégia da dualidade entre comunistas e capitalistas, acabou entregando aos grupos que se opõem à Lógica Bolsonaro uma outra bandeira de luta. Agora, é Pilatos contra Jesus.

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