A nova estética civilizatória e o fundamento da (à) vida

Tenho pensando muito a respeito sobre qual sociedade restará para meus netos. Não estou conseguindo trabalhar com afinco para deixar “um mundo melhor” às futuras gerações. E é aqui que  reside uma proposta que teimo investir se tratar de uma dialética conjuntural de condição sine qua non para a [re]existência humana no Planeta, sob as matizes: ecossistema, sociedade, individuação, a explicar cada ponto.

Deriva-se daí, para o que já infiramos acerca do todo propositivo, a necessária e consequente emergência de se elaborar e implementar uma nova estética civilizatória.

Senão, vejamos. Podemos empreender ao ser humano uma urbe interna que se introjeta no caráter consignado da formação e evolução cognitiva de cada ser. Portanto, o humano é antes de tudo um membro de sua própria “sociedade internalizada” na relação do Eu-Eu a partir do acervo consciente e inconsciente que lhe propõe vivências, dores, satisfações, desejos, utopias, crenças etc., e todos estes acúmulos lhes são fonte de evolução. Muito embora, mesmo involuindo alguns da espécie humana, o fato é que tudo se resinifica e, doravante, é evolução do mesmo jeito.  

Destarte, podemos dizer que a individuação é também esse componente de pertencimento do homem (e da mulher) em si mesmo(a). Ademais, trata-se de um equilíbrio psíquico. Nos ensinamentos de Carl Gustav Jung (1875-1961), “é a habilidade de a pessoa formar para si uma personalidade individual unificada, coerente e, apesar disso, singular em profundidade e riqueza”[2]. E, por extensão, podemos supor que o acervo ético também se cambia desta matiz humana.

É a síntese de terceiro componente fundante de um esforço por uma releitura civilizatória. Devemos passar adiante. Devir...

Ao plano do meio, qual seja, sociedade, há inúmeras questões a perfazer a análise. A primeira é de ordem cultural, isto é, dentro das explanações da ciência da antropologia, o ser humano é um “animal-cultural”. Ainda podemos estender a tese ao dizer que adaptamo-nos à existência e ao convívio com o outro a partir da competência linguística e da capacidade de raciocínio que nos deriva o conhecimento das coisas e, por conseguinte, a estruturação dos aparatos para se viver (e viver em sociedade).

A segunda ode da sociedade é a política. Ora, a sociedade não se autogestiona; ela é governável por elementos negociáveis e convencionáveis. Aí reside a política. Política enquanto exercício, enquanto práxis, enquanto lógica inter-relacional.  

Entretanto, é na política que habita o ethos de cada um[3], seus interesses (legítimos e ilegítimos) e os interesses colegiados (corporativismo). Esse exercício é altamente complexo para proferir a mediação equitativa e justa, quando na maioria dos processos, são produtores de desigualdades estratosféricas, portanto, potencialmente promotora de danos, a serem contingenciados e mitigados.

A terceira é conjuntural. A sociedade se comporta coletivamente sob os auspícios da conjuntura. Isto é, a tendência, a onda que produz hegemonia (temporal) e denota regulação dos processos vigentes. Em síntese: situação ocorrente no espaço-tempo da sociedade.

É a conjuntura que pauta a forma de governo de determinado tempo, o lado volátil (flexível) da cultura, o regime estatal, a concepção das garantias e direitos individuais e difusos, os princípios fundantes da sociedade; a agenda política (de Estado e de Governo). Exemplo: uma onda de polarização passional da política[4], com tendência inclusive ao ódio na sociedade traz como consequência líderes políticos fascistas, casuístas e/ou autoritários.  

Em todas as três, a síntese, a História (quarta abordagem). A sociedade humana é produto e produtora de história, é fruto dos fatos e artefatos históricos. Consigna-se civilização e avanço civilizatório a partir do acervo histórico-cultural-político-conjuntural. A história é o repositório dos acúmulos humanos e suas fraquezas, com consequente determinação de pressupostos e hipóteses, testadas.

Quanto ao elemento de gênese da reflexão proposta neste texto, o ecossistema é deriva de importância em necessário exagero. Falamos da Natureza, da Mãe-Terra, esta que nos emprestou seu ventre com toda a generosidade necessária para que tivéssemos vida e vida em plenitude. Isto é, dele (ecossistema) tirássemos – com moderação – o alimento, a energia, os insumos essenciais, a semântica útil.  

Entender isso. Trata-se de obter uma cognição ecológica que somente é cedida àqueles que se abrem à ética individual (Eu-Eu) e ética coletiva (Eu-Outro), por adiante, a alteridade e empatia às coisas essenciais da existência.

Tudo isso que tratamos até aqui é estética civilizatória, onde estética aqui precisa ser compreendida em múltiplas abordagens, no entanto, ao platô de uma síntese, qual seja, a plasticidade do belo – objetivo.

Destarte, lidas estas inferências, podemos aludir que o que tratamos por “uma nova estética civilizatória” nada mais é que atribuir ao ser humano, agente primeiro da ordem social, uma reflexão em polo positivo, ou evento de ação no sentido de que este seja capaz de intervir nos processos civilizatórios, relembrando-os como a simbiose essencial das estruturas do ecossistema, da sociedade e da individuação e seus fundamentos, reconstruindo-os para o bem comum, para o bem-viver equitativo, justo, solidário e harmônico nas esferas da existência humana e no todo dos espaços culturais, sociais, institucionais e estatais (podemos chamar de hiperestrutura) em todo o Planeta, doravante a civilização humana.[5]

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[1] Texto produzido especificamente para servir de base reflexiva (inquietação do pensamento civilizatório) ao ensaio de uma aluna minha, orientanda ao TCC, de Pós-Graduação, curso: “Linguagem, Letramento e Cibercultura na Educação Básica”, especialização ofertada pela UEG - Campus Campos Belos.

[2] Compreender melhor em https://www.psicologiasdobrasil.com.br/o-conceito-de-individuacao-para-jung/. Acesso em 16/08/19.

[3] Veja que invertemos a ideia que “habitação”. No ethos, grosso modo, dizemos habitar o caráter de alguém. Aqui a proposta é que o ethos habita algo, a saber, a política. É a “meta-habitação”, por assim dizer.

[4] Isto é, a política desarrazoável, feita com o pulmão e não com o cérebro, não com cálculos lógicos e hipersensibilidade. Trata-se do improviso coletivo, da ignorância política. É a antipolítica.  

[5] Considerações adicionais do autor: fico pensando em “Luzia”. Lembram-se do fóssil encontrado por arqueólogos em 1975, em São Leopoldo-MG, considerado do que pode ser o ser humano mais antigo das Américas? Luzia viveu no Brasil, segundo os cientistas, há mais 13 mil anos atrás. Fico pensando em “sua” sociedade, seu povo, seus pensamentos. Terá Luzia feito as mesmas besteiras que estamos fazendo para que se decorra a sucumbência de toda uma CIVILIZAÇÃO?

Não saberemos jamais. Entretanto, ainda temos tempo de corrigir nossas mazelas. Só depende de nós.

Ah, o crânio de Luzia pegou fogo recentemente junto com o Museu de História Nacional do Rio de Janeiro. Por descaso, nossa História – e a de Luzia – corre risco de morrer para sempre.

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