A realidade do retorno as aulas

É na volta que mostraremos ao mundo à frágilidade da nossa realidade e traremos a educação para o centro do debate. É na dor que se dará a luta de classes.

(Foto: CECILIA BASTOS/USP Imagem)
Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

Voltaremos para as escolas. Essa é a nossa realidade. Precisaremos voltar em algum momento. O isolamento não se dará de forma eterna na espera da vacina contra um vírus que apresenta mutações.

O que emerge, é a expressão máxima da ausência absoluta de debates sobre a educação e as condições de vida que estão enfrentando as crianças e jovens mais vulneráveis, por parte de governantes, sociedade e mídia hegemônica a ponto de se zombar com propagandas na TV e rádio, coloridas e bem feitas, sobre a lindeza de oportunidades que seria fazer o Enem em condições normais.

O "apagão educacional" por conta de governantes, desconsiderando a retirada em massa da escola de crianças e jovens e que afeta milhões de famílias é para enviar um recado a todas e todos que se colocam contra a retirada de direitos desenfreada promovido na educação. É para calar a voz dos oprimidos. Não é coincidência ou um erro de análise.

Quando falamos em educação não falamos apenas de transmissão de conhecimento, falamos de vida e oportunidade de integração do sujeito ao meio em que vive com condições dignas de sobrevivência.

A primeira coisa necessária é o olhar diferenciado para essas crianças e jovens, muitas delas hoje pelas ruas das cidades em busca de doação de alimentos.
O que encontraremos no retorno às nossas pobres escolas não é nada bonito, romântico, cristão ou "um mundo melhor". Encontraremos o resultado de um estado racista, terrorista e genocida, que não usa máscaras para dizimar a educação e consequentemente o povo pobre das vilas e periferias.

Retirar a educação do centro do debate público envolvendo a sociedade faz com que crianças e jovens pobres, alunas e alunos das escolas públicas não se vêem como cidadãos, como alguém que tem direitos. Nós professoras e professores muitas vezes percebemos nas escolas, mães e pais que agradecem muito quando recebem atenção ou são tratados com dignidade, como se dar boas aulas, servir uma merenda de qualidade, ter bom espaço físico ou um ambiente de aprendizagem acolhedor fosse um favor, como se não fossem merecedores de uma educação de qualidade. E é aí que se apega essa política criminosa, gerando vínculos de dependência, negando o debate, ganhando a confiança com assistencialismo no intuito de mostrar o quanto o pobre é desajustado e incapaz de viver a sua cidadania com autonomia e com direito de ter uma vida diferente.

A primeira grande questão é que ao contrário do que diz o senso comum, crianças e jovens que vivem nas comunidades mais pobres tem um risco maior de adquirir doenças e consequentemente mais dificuldades em aprender o que as diferencia das demais formando um abismo enorme no nível de oportunidades entre outras crianças e jovens mais favorecidos economicamente.

São jovens e crianças que aimentam-se mal, estão submetidos mais facilmente a alterações climáticas, dormem mal, compartilham espaços aglomerados, vivem sob intenso nível de stress, com medo de sofrer diversos tipos de violência, não tem acesso a recursos e ferramentas digitais e o ambiente dificilmente é alfabetizador.

Outra dificuldade é a da percepção do individuo em relação a aprendizagem. Sabem que tem dificuldades e precisam do ensino mas não priorizam estudar, simplesmente por viverem numa lógica de sobrevivência. Quando não se sabe o que se vai comer ou como se vai passar o dia o estudo fica em segundo plano.

Embora o acesso as escolas públicas é universalizado a realidade nos mostra que para muitos ainda há agravantes. Para se chegar até a escola também é difícil. Crianças com freqüência precisam caminhar longas distâncias para chegar até a escola, doentes ou não, não faltam as aulas, muitas vezes chegam febris. Faltar a aula significa não comer. É a lógica da sobrevivência. Comida primeiro, médico depois.

Também é comum que estejam com roupas sujas ou não tenham tomado banho, o que faz com que sejam mal recebidas. São discriminadas e sofrem preconceitos.

O resultado final de tantas dificuldades é a busca pelo estudo em último caso.
Assim, muitas questões de ensino tornam-se crônicas e por isso mais difíceis de resolver.

Essa é a realidade enfrentada por milhares de crianças e jovens alunas e alunos da maioria de nossas escolas públicas.
Esse é o perfil atendido em nossas escolas. Esse é o perfil que a mídia e governantes fazem questão de desconhecer. Esse o grande abismo da Educação.

O enfrentamento dessa realidade é mais do que necessário. É muita ingenuidade achar que a escola e os alunos que vão voltar serão diferentes no sentido cristão de um mundo mais humanizado, dar vazão a essa ideia sem nada fazer pra mudar essa realidade é beirar a hipocrisia.

É na volta que mostraremos ao mundo à frágilidade da nossa realidade e traremos a educação para o centro do debate. É na dor que se dará a luta de classes.
Não podemos romantizar mais essa realidade, pois em plena pandemia mundial o Estado, o capitalismo brasileiro e suas instituições seguem funcionando, com seu perfil histórico de manutenção das desigualdades estruturais e de perpetuação direta ou indireta da barbárie contra o povo.

O enfrentamento sem romantismo cristão ou ilusão conciliatória é mais do que necessário é urgente.
Que a dor nos seja suportável!

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

Cortes 247

Apoie o 247

WhatsApp Facebook Twitter Email