As fazendas do Gaspar



Entre 1984 e 1998 meu pai investiu muito tempo, dinheiro e sonhos em seus negócios numa cidade do triângulo mineiro chamada Romaria. 

Para explicar meu pai em uma frase é possível dizer que ele poderia ter inspirado Tim Burton na realização do seu filme “Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas”, portanto, podem chamá-lo de Peixe Grande. Mas voltemos a Romaria. Na época a cidade não alcançava 2 mil habitantes, e, creiam, nada acontece por lá e, ao mesmo tempo, é onde aconteciam coisas extraordinárias, segundo o olhar do meu pai. Mas, nos meses de agosto há a famosa festa que comemora o dia de Nossa Senhora da Abadia, a cidade recebe milhares de visitantes, são armadas barracas onde se vende de tudo, elas ocupam todo entorno do enorme santuário e boa parte da pequena cidade. Passam por lá mais de cento e cinquenta mil pessoas entre os dias seis e quinze de agosto.

Romaria, cujo nome anterior era Água Suja, começou a ser povoada logo depois da guerra do Paraguai, quando ex-soldados descobriram jazidas de diamante por lá. Seus primeiros habitantes eram devotos de Nossa Senhora... Bem, essa é outra história que depois eu conto.

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Hoje vou falar sobre o Gaspar, na época um jovem muito simples, com baixíssima escolaridade, não completou o primário, mas era conhecido em Romaria como “o homem mais trabalhador da cidade” e era mesmo.Ele trabalhava para a prefeitura na construção das casas populares, na manutenção de prédios públicos, reforma de móveis etc. Também cavava poços - ele se orgulhava de ser capaz de cavar um poço caipira mais rapidamente que qualquer outro -, ele era uma espécie de “faz tudo” na pequena cidade e era também garimpeiro.Casado com a Margarida, que faleceu muito jovem,  seus filhos Flavia, Fabinho e Fabiana eram crianças educadas, bem cuidadas e felizes; elas criavam um mundo de infinitas possibilidades na “casa de chão de terra batida”, sob as árvores de frutas no quintal e nas brincadeiras de criança, as quais são cada vez mais apenas lembranças.

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Fato é que meu pai usava das habilidades e da força de trabalho do Gaspar, acabaram tornando-se bons amigos e seu filho Fabinho tornou-se afilhado dos meus pais. 

Eu gostava das histórias do Gaspar, especialmente as “histórias de assombração”, eram as mais originais, pois ele acreditava que as assombrações existiam (e talvez existam mesmo).Certa feita meu pai e eu testemunhamos um diálogo, exemplo perfeito do que é uma crença limitante (aqueles pensamentos que tomamos como verdadeiros, mas na verdade são falsos). Essas crenças afetam nossa vida, impedem que nos tornemos pessoas melhores e impedem nossa evolução. Bem, alguns funcionários do meu pai e o Gaspar – nesse momento sua pessoa de confiança – conversavam e mostravam-se preocupadíssimos com a possibilidade de Lula vencer as eleições presidenciais, preocupados com o comunismo e, principalmente, preocupados com o fato de que “se Lula ganha vai toma nossas casa tudo e as nossa fazenda” (sic).

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E Gaspar falava com autoridade e era ouvido por todos com certa reverência.

Ouvimos, mas não interferimos. Meu pai convidou Gaspar para jantar conosco conversamos e rimos muito durante o jantar, meu pai contou histórias e ouvimos várias histórias de assombração e, já na hora do cafezinho, retomou-se o assunto das eleições e o risco comunista. 

Eu, sempre afobado, tentei explicar a importância histórica da vitória do Lula, um operário, nordestino, retirante; falei à exaustão, mas o Gaspar mantinha seu ponto de vista inalterado.

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Foi quando o Peixe Grande perguntou ao Gaspar: “Gaspar, quanto você pagou pela sua casa?”, constrangido ele respondeu, “a casa não é minha Rogério, é da prefeitura, é emprestada”; e meu pai continuou, “mas você tem as suas fazendas, né? Aquelas que o Lula vai tomar se ganhar... Você tem que me levar para conhecer um dia.”.Aquelas perguntas foram reveladoras para o humilde Gaspar, e como o operário do poema “O Operário em construção” do Vinicius de Moraes, ele foi tomado de “súbita emoção. (...)"

"Ao constatar assombrado. 

Que tudo naquela mesa 

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- Garrafa, prato, facão - 

Era ele quem os fazia 

Ele, um humilde operário, 

Um operário em construção. 

Olhou em torno: gamela 

Banco, enxerga, caldeirão 

Vidro, parede, janela 

Casa, cidade, nação! 

Tudo, tudo o que existia 

Era ele quem o fazia 

Ele, um humilde operário 

Um operário que sabia 

Exercer a profissão.”

Ele não tinha casa própria, nem fazendas, não tinha nada além de suor e cansaço ao fim de cada dia, não tinha nada além da sua força de trabalho a qual ele vendia barato, como de resto todos nós.

Nos seus olhos pudemos perceber que ele tomou consciência que não havia possibilidade de mudança da sua condição, percebeu que que suas crenças não se sustentavam na realidade, que as preocupações que ele verbalizava não eram dele.

Essa história é de 1994, Lula não venceu aquela eleição e a vida do Gaspar continuou a mesma, morando numa casa emprestada, nada mudou na vida de todos aqueles que, como ele, defendiam um mundo que não lhes pertencia e nunca pertencerá.

Sua vida só melhorou a partir de 2003, com o “Minha Casa Minha Vida”, com a Bolsa-Família e o PROUNI levou dois de seus filhos à universidade (e nenhuma fazenda foi “tomada”).Mas é triste constatar que, passados quase vinte anos, ainda ouvimos a preocupação in fundada dos “sem-fazenda”, dos “sem casa”, dos “sem ações na bolsa” e dos “capitalistas sem capital” com o risco comunista que “vai toma nossas casa tudo”.

E mais trinte ainda é falta a preocupação genuína com a desigualdade sistêmica, desigualdade que torna os substantivos liberdade e o mérito individuais palavras sem nenhum sentido e distantes da realidade.

Essas são as reflexões.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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