Austeridade é o cazzo!

Não sei vocês mas não aguento mais ouvir falar em “austeridade”. Nem em “reforma”.  Cada uma dessas palavras sequestradas pelo étimo neoliberal encobre uma intenção: ferrar as nossas vidas

Brasília - O presidente interino Michel Temer e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, durante reunião com líderes da Câmara e do Senado, no Palácio do Planalto. (Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Brasília - O presidente interino Michel Temer e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, durante reunião com líderes da Câmara e do Senado, no Palácio do Planalto. (Marcelo Camargo/Agência Brasil) (Foto: Ayrton Centeno)

Não sei vocês mas não aguento mais ouvir falar em “austeridade”. Nem em “reforma”.  Cada uma dessas palavras sequestradas pelo étimo neoliberal encobre uma intenção: ferrar as nossas vidas. As da maioria. São o biombo atrás do qual se oculta o bandido. Negam uma intenção, dissimulam, iludem. Aos olhos daqueles dos quais são instrumento é preciso que seja assim. Se usassem o termo mais adequado para descrever a “austeridade” que alardeiam seria outra mais reveladora. No caso da sua percepção de “austeridade” – palavra austera porém prostituída – seria preciso falar em “arrocho” ou “exploração”. Ou, tão altissonante quanto porém com tintura mais vermelha, “espoliação”. Qualquer uma, porém, mais verdadeiras quanto ao conteúdo daquilo que o pior congresso que o dinheiro pôde comprar pretende impor à gentalha. À plebe nem tão rude assim porque, se o fosse, removeria a pontapés as aberrações que infestam o Planalto Central.

         E “reforma”? Reforma-se algo para que nos preste melhor serviço. Aquele melhoramento na casa, o conserto de algum equipamento para que melhor realize a sua função, a viga que necessita ser trocada. Então, quando as corporações de mídia falam em reforma – e falam em uníssono – pretendem nos empurrar justamente esse peixe, o da vida melhor. Mas não é assim. Na sua mais justa tradução, a “reforma” não é acréscimo mas supressão. Não vem para melhorar mas para agravar. A “reforma” que nos impingem mais fielmente seria descrita como “estelionato” ou “roubo”.

         Hoje, a ideia que a mídia, a banca e a horda de ladravazes que assaltou Brasília vende é a de que é preciso “austeridade” e “reforma” para “salvar o Brasil”. Tanto que o circense governicho temerário é apresentado pelo sujeito que brande o chicote no picadeiro como “de salvação nacional”.  Seria hilário se não fosse trágico.

        É sempre assim na novilíngua mercadista: a primeira arma que nos fere é a semântica. Atrás do paraíso prometido – existe algo de místico e religioso embutido nessa pregação -- vem o inferno que, se quiserem, podem chamar de dura realidade. Funciona quase sempre na mesma maneira: 1) vende-se a ideia da pátria náufraga; 2) o responsável pela calamidade é o Estado; 3) é necessário puní-lo, fazendo-o murchar a porretadas; 4) vende-se no martelo o patrimônio do Estado que, depois, “até ficará mais eficiente”; 5) impõe-se o desemprego, o corte dos orçamentos da saúde, educação e outras áreas básicas que, depois, “até irão melhorar”. Quem tem idade ou memória sabe que esse foi o ramerrame dos aprendizes de feiticeiro e de seus fantoches midiáticos durante a era de ouro da privataria nos anos FHC. Aquele governo que quebrou o país três vezes. Cujos maiores malfeitos ainda aguardam o escrutínio da História. 

         Também não me venham falar em “reengenharia”,  “flexibilização”, “desregulamentação”, “empregabilidade”, “fazer a lição de casa”, vocábulos usados para engambelar o próximo enquanto lhe extraem os dentes sem anestesia.

        Na arenga da moda, “fazer a lição de casa” representa sacrificar os compromissos mínimos do governo em face da cidadania em prol do pagamento dos credores. Do ponto de vista da maioria – ou seja, daqueles, em uma democracia, votam e escolhem os governantes – “fazer a lição de casa” significa, sobretudo, honrar suas dívidas perante os cidadãos. Em outros termos: jamais retirar dinheiro da saúde, educação, moradia e segurança para entupir os cofres da banca.

          É interessante perceber como o jargão neolibelês emula o da guerra. “Bombardeio cirúrgico” e “dano colateral”, por exemplo, também existem para ocultar o significado das ações bélicas e dos fatos que geram. “Bombardeio cirúrgico” chega a parecer algo bom, talvez uma intervenção a laser. “Recebi um bombardeio cirúrgico ontem”, diz um sujeito. “E aí, como foi?” quer saber outro. “Ótimo. Estou novo em folha”.  E “dano colateral” poderia ser algo desprezível e passageiro. “Tive um dano colateral. Estava picando cebola e dei um talhinho no indicador”. 

         Mas a novilíngua não está aí apenas para nos martelar palavras. Quer nos acobertar aquelas outras que nos desvelam o real sentido das coisas. Fabricante do herbicida Roundup, a gigante Monsanto constatou que o termo “transgênico” provoca repulsa. Como o Roundup é usado justamente na lavoura de soja transgênica – cujas sementes a multinacional distribui -- os publicitários da Monsanto bolaram uma peça na qual o Roundup é associado com as “forças da natureza”. Tão natural quanto. Nem uma sílaba sobre “transgênico” ou “veneno”.

         No século passado travou-se uma batalha silenciosa nos jornais entre a indústria química e a cidadania. As empresas rotulavam como “defensivos agrícolas” seus herbicidas e inseticidas. Que consumidores e ecologistas chamavam de “agrotóxicos”. Na mídia, a simpatia patronal era, claro, pelo “defensivo”. Que os agricultores – suas vítimas diretas – sempre designaram como “veneno”. A custo, triunfou “agrotóxico”. Agora, um projeto do deputado Covatti Filho (PP/RS), da base do governo, tenciona “reformar” a lei de agrotóxicos para impor a expressão “defensivo fitossanitário”. E o Brasil – ou seja, você, caro leitor – já é o maior consumidor mundial de venenos agrícolas. São sete litros/ano por habitante. A novilíngua, portanto, também mata.

        Frente a frente com este quadro da dor, fico abismado de ver o comportamento passivo e anódino das esquerdas, de militantes a acadêmicos. Que repetem papagaiadamente tais palavras criminosas, chancelando e disseminando seu emprego. Cada vez que usamos “austeridade”, “reforma” ou outros produtos oriundos do mesmo laboratório de substâncias de alta toxicidade – mesmo de forma crítica -- tornamos mais natural sua aplicação. Comprar esse pacote de maldades jamais nos deixará mais fortes ante o inimigo e sim mais débeis diante de sua argumentação. Estaremos jogando no seu campo e com suas armas.

         Antes do final, um comentário: o pulsar do meu coração rebelde gostaria de intitular este artigo como “Austeridade é o caralho!” Contudo, suspeitando que o editor acharia demasiado atrevimento, troquei o caralho – que tantas vezes surge nos lábios desta reserva moral da nação que é Aécio Neves nas suas conversas com Joesley Batista à sombra da república - pelo peninsular “cazzo!” Que exprime a mesma figura, aqui mitigada pelo italiano, primo da nossa última flor do Lácio inculta e bela... E “cazzo!” escudado pelo ponto de exclamação, também explicita a mesma e necessária revolta.

 

 

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