Bolsonaro, a eugenia cognitiva e o gado indo para o abate

Não é lavagem cerebral; é eugenia cognitiva[1]. A parcela significativa de eleitores leais ao bolsonarismo é muito mais que devoção a um homem

(Foto: Reprodução)
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Não é lavagem cerebral; é eugenia cognitiva[1]. A parcela significativa de eleitores leais ao bolsonarismo é muito mais que devoção a um homem. Trata-se de limitação severa de inteligência social e emocional, bem como o trabalho exigente de formação de uma consciência coletiva controversa. Senão uma patologia mental, ao menos a inversão mais instrumental da ética.

Mas veja: não foi Jair Messias Bolsonaro quem implantou essas tendências auto-destrutivas e anti-civilizatórias; egoístas mesmo em nosso povo. Não, ele não tem essa força toda. Nem mesmo com todo o arsenal de fake news produzidos por seus filhos acéfalos e os aliados, conseguiria em tão curto intervalo de tempo nos transformar em mutantes mumificados e inebriados (zumbis burros, melhor dizendo).

O problema de competência cognitiva não pode ter sido implantado em nossas mentes (numa maioria simples bastante qualificada) do dia para a noite e tampouco por um homem quase sem cérebro (ou capacidade mínima que se deva alguma dignidade intelectual). Nossa demência (mais aguçada em alguns que em outros) é fruto da colonização; é herança de uma era das trevas para esse território do lado de cá do Atlântico. Foram os exploradores, degradados e a elite europeia, sobretudo, a portuguesa do século XVI quem comeu a parte cultural contida em nossa biologia na qual predomina a cognição social[2] e, portanto, retirou de nós a mobilidade imediata no agir coletivo e nos implantou um modelo de interpretação distante dos fatos conjunturais e históricos.

E qual é o grande problema disso tudo? Do ponto de vista da disputa social, “apenas” a perda de direitos e a aceitação segregacionista. Por conseguinte, a manutenção e o encorajamento de uma elite mesquinha que consigna hegemonicamente quase todas as riquezas e oportunidades extraíveis deste País. Entretanto, em tempos de crise crônica – como essa da pandemia do coronavírus –, a própria morte da maioria e da maioria mais frágil das pessoas, aquelas já sem quase nada para sobreviver diante de uma desgraça tão absoluta quanto é a infestação de uma doença sem cura, sem vacina, sem controle como a COVID-19, sucumbem mais rapidamente, seja pela falta de acesso aos serviços preventivos de saúde, seja pela fome (causada pela falta de recursos e assistência legítima do Estado). O alheio que nos denuncia como polarizados diante de nossa própria incompetência civilizatória. Fomos forjados nos séculos de colonização para servirmos aos “senhores”. Sempre sermos explorados, escravizados, ou retidos no subplano de um projeto de nação. Éramos (somos) o resto humano à serviço dos grandes interesses da aristocracia europeia, logo transferida para o Brasil, para continuar a nos dominar e subjugar. E nossa ment(alidade) sempre trabalhada para não bufar diante das turbulências fisiológicas e sociológicas de nossa existência. Acalmaram-nos, domesticaram-nos, entorpeceram-nos, “engadeceram-nos”, para piorar. Pois bem! Feita esta análise, desfechamos este texto ao verdadeiro escopo da preocupação: vamos todos morrer com esse coronavírus, todos!(?) Alguns milhões vão à óbito de fato. A maioria, senão a totalidade, padecerá pela dor interminável e o trauma intergeracional pela perda dos parentes e das coisas existentes após o vírus se extirpar efetivamente. Se nosso povo (gado), este que foi vítima primeira da eugenia cognitiva durante e após o período colonial continuar a ouvir um ser minúsculo que incompreende qualquer coisa que extrapole seu ego torpe, sua visão limitada, sua mediocridade escrotal, se nossa gente seguir os conselhos deste (presidente) doente, iremos humilhados para o abismo cheirar o podre dos corpos jogados naquela vala silenciosa até morrermos – também. Ou ficamos em casa, respeitando o necessário isolamento social já tão explicado pelos cientistas e, principalmente, pelas vidas que estão restando lá na Itália, pelas lideranças e autoridades dos países que choram seus mortos, ou milhões de nossos compatriotas perderão a vida, literalmente. 

Ou ficamos por um curto intervalo de tempo em quarentena para diminuir a curva da epidemia, a fim de não colapsar nosso sistema de saúde (ter leitos e UTI’s para todos os pacientes de COVID-19, de AVC, de ataque cardíaco, de acidente de carro etc.), ou iremos como gado para o abate, pior, sem que nossa carne sirva para nada no Mercado (após).

Quanto ao Bolsonaro: apenas entrará para a História do Brasil como o maior assassino em série do Brasil, tendo em vista que nos aconselhou romper a quarentena, irmos para as ruas, abrirmos nossos comércios e fingirmos que está tudo bem (quando não está). Contudo, para nossos parentes, reitero: a dor será incurável por gerações e gerações – que sobrarem. 

Portanto, continue FICANDO EM CASA, se ainda acredita que podemos romper com essa sina de boiada abatida pela nossa construção histórica (eugenia cognitiva, ou ao menos se entendeu que é melhor não pagar para ver a potência mortificadora (física, cultural, emocional e estrutural) do coronavírus.

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[1] Segundo Rego Santos (2020, p. 85), “a eugenia surge com Francis Galton, inspirado pelas descobertas da biologia do século XIX, como a fisiologia e microbiologia. Foi também fortemente inspirada pela teoria de Darwin”, a quem é atribuído o evolucionismo e a seleção natural dos seres e seres humanos.

Eugenia, segundo Galton (apud REGO SANTOS, 2020, p. 85) é a “busca pela melhoria da raça humana do ponto de vista biológico”.

Tornada corrente teórica, os eugenistas, de modo particular no impacto da Primeira Guerra Mundial, implementaram uma política eugênica. “Estas políticas estavam vinculadas especialmente às ações de cunho higiênico que se apresentavam como um dispositivo de controle social, de disciplinamento, de massificação e individualização, enfim, de esquadrinhamento”. (REGO SANTOS, 2020, p. 87)

Em síntese a eugenia tanto serve como uma desculpa segregacionista com o intuito de “melhorar”, como de “empobrecer” as raças humanas.

Já cognição é definida como o processo de aquisição do conhecimento. São as construções e acúmulos de ordem representativa, simbólica, sensoriais que forjam a compreensão humana.

Funda esses dois conceitos e chegamos ao que estou afirmando como EUGENIA COGNITIVA.

(REGO SANTOS, Ronivaldo de O. História da loucura: o Projeto do Manicômio Adauto Botelho de Goiânia. São Paulo: Fonte Editorial, 2020.)

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