Bolsonaro está produzindo mortes. Até quando?

"Não há dúvidas de que Nelson Teich foi sabotado pelo presidente em sua escalada insensata rumo ao poder absoluto", escreve o colunista Ricardo Bruno. "Algo precisa acontecer. Rápido. Bolsonaro não tem o direito de continuar destruindo o Brasil e provocando mortes", defende o jornalista

Jair Bolsonaro e Nelson Teich
Jair Bolsonaro e Nelson Teich (Foto: Agência Brasil)
Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

Nem mesmo um médico, exageradamente cordato, com traços de servilismo e submissão, conseguiu conviver com os desvarios do presidente. Não há como conciliar as orientações de Bolsonaro com os mais elementares princípios da ciência. A lógica de suas ações é a da destruição, da terra arrasada, da demolição de reputações, para nos escombros tentar se impor como salvação.

Se o negacionismo presidencial girasse em torno de questões irrelevantes poder-se-ia relevar em nome da autonomia de estilos e métodos dos governantes. Mas não é o caso. Ao empurrar o país para o colapso médico-sanitário, inviabilizando qualquer esforço no enfrentamento racional da pandemia, Bolsonaro está precipitando a morte de milhares de brasileiros, abandonados nas filas sem fim dos hospitais públicos.  Não há como dissimular a natureza criminosa da ação presidencial.

As instituições democráticas não podem mais assistir ao caos instaurado no país por conta e risco de Bolsonaro. Notas de repúdio são inócuas diante da obsessão deletéria do presidente. Em respeito às famílias de quase 15 mil brasileiros mortos pela Covid-19, Bolsonaro precisa ser afastado. Os ministros do Supremo Tribunal Federal e os integrantes do Congresso não podem mais aquiescer aos desmandos criminosos de Bolsonaro. Repito. Não se trata de respeito a autonomia de poderes, observância à liturgia dos cargos. Bolsonaro está conflagrando o País. E produzindo mortes. E deve ser responsabilizado por isto.

Não há dúvidas de que Nelson Teich foi sabotado pelo presidente em sua escalada insensata rumo ao poder absoluto. Bolsonaro não admite o contraditório; odeia os diferentes; maltrata a razão em nome do obscurantismo emanado por seu guru, Olavo de Carvalho. Imerso neste mundo tacanho, de ódios e fantasmas, de ameaças e contendas, alimenta pulsão pela morte. Vê-se permanentemente ameaçado, na iminência de um ataque, em escaramuças de guerrilha. Seu mundo é sombrio, soturno, vizinho à morte. Há traços incontrastáveis de psicopatia.

Ao emitir conceitos sem qualquer base científica, como o uso da cloroquina e o fim do isolamento, Bolsonaro não apenas mostra-se sem razão, tolo ou parvo. Isto seria de somenos. O que o presidente da República está fazendo, ao fim e ao cabo, é contribuindo para a morte de brasileiros. E ele não pode continuar a agir desta forma.

Não satisfeito em apregoar conceitos clínicos sem fundamento, num flagrante exercício ilegal da medicina, o presidente estimula aglomerações; menospreza o isolamento, e caçoa dos que respeitam à ciência. Faz da presidência palanque para barbaridades, fruto de seu temperamento malsão. Estupefata, a Nação assiste a este festival de atos criminosos à espera de uma reação institucional, que não vem, que não brota, que se posterga em respeito à autonomia dos poderes. Enquanto isto, as mortes avançam; brasileiros padecem aflitos sem ter a quem recorrer, sem assistência, sem respiradores, sem leitos, sem até mesmo a compaixão presidencial.

Com temperamento cordato, Teich tentou se conciliar com Bolsonaro. Aceitou o aparelhamento militar do ministério; controlou-se diante das reiteradas transgressões do chefe ; foi comedido quando confrontado com as declarações impróprias de Bolsonaro sobre a pandemia. Mas o presidente queria mais, desejava que ele renunciasse à ciência e encampasse o discurso irresponsável da utilização da cloroquina. Queria transformar Teich em ventrículo de suas teses aberrantes. Foi demais, mesmo para um ministro disposto a não brilhar em respeito submisso ao chefe autoritário.

Algo precisa acontecer. Rápido. Bolsonaro não tem o direito de continuar destruindo o Brasil e provocando mortes. Há que se ter alguma unidade para detê-lo. O presidente do STF, Dias Toffolli, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o do Senado, David Alcolumbre, não podem mais continuar se omitindo diante dos riscos decorrentes das ações presidenciais. Se o fizerem, serão cúmplices de um genocídio anunciado. Na saúde, neste momento grave, há um clima de acefalia; de falta de rumo, de balbúrdia, de fracasso, de omissão. Ao lado, as mortes se acumulam num cenário trágico de valas comuns. Até quando?

Participe da campanha de assinaturas solidárias do Brasil 247. Saiba mais.

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247