Bolsonaro está produzindo mortes. Até quando?

"Não há dúvidas de que Nelson Teich foi sabotado pelo presidente em sua escalada insensata rumo ao poder absoluto", escreve o colunista Ricardo Bruno. "Algo precisa acontecer. Rápido. Bolsonaro não tem o direito de continuar destruindo o Brasil e provocando mortes", defende o jornalista

Jair Bolsonaro e Nelson Teich
Jair Bolsonaro e Nelson Teich (Foto: Agência Brasil)
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Nem mesmo um médico, exageradamente cordato, com traços de servilismo e submissão, conseguiu conviver com os desvarios do presidente. Não há como conciliar as orientações de Bolsonaro com os mais elementares princípios da ciência. A lógica de suas ações é a da destruição, da terra arrasada, da demolição de reputações, para nos escombros tentar se impor como salvação.

Se o negacionismo presidencial girasse em torno de questões irrelevantes poder-se-ia relevar em nome da autonomia de estilos e métodos dos governantes. Mas não é o caso. Ao empurrar o país para o colapso médico-sanitário, inviabilizando qualquer esforço no enfrentamento racional da pandemia, Bolsonaro está precipitando a morte de milhares de brasileiros, abandonados nas filas sem fim dos hospitais públicos.  Não há como dissimular a natureza criminosa da ação presidencial.

As instituições democráticas não podem mais assistir ao caos instaurado no país por conta e risco de Bolsonaro. Notas de repúdio são inócuas diante da obsessão deletéria do presidente. Em respeito às famílias de quase 15 mil brasileiros mortos pela Covid-19, Bolsonaro precisa ser afastado. Os ministros do Supremo Tribunal Federal e os integrantes do Congresso não podem mais aquiescer aos desmandos criminosos de Bolsonaro. Repito. Não se trata de respeito a autonomia de poderes, observância à liturgia dos cargos. Bolsonaro está conflagrando o País. E produzindo mortes. E deve ser responsabilizado por isto.

Não há dúvidas de que Nelson Teich foi sabotado pelo presidente em sua escalada insensata rumo ao poder absoluto. Bolsonaro não admite o contraditório; odeia os diferentes; maltrata a razão em nome do obscurantismo emanado por seu guru, Olavo de Carvalho. Imerso neste mundo tacanho, de ódios e fantasmas, de ameaças e contendas, alimenta pulsão pela morte. Vê-se permanentemente ameaçado, na iminência de um ataque, em escaramuças de guerrilha. Seu mundo é sombrio, soturno, vizinho à morte. Há traços incontrastáveis de psicopatia.

Ao emitir conceitos sem qualquer base científica, como o uso da cloroquina e o fim do isolamento, Bolsonaro não apenas mostra-se sem razão, tolo ou parvo. Isto seria de somenos. O que o presidente da República está fazendo, ao fim e ao cabo, é contribuindo para a morte de brasileiros. E ele não pode continuar a agir desta forma.

Não satisfeito em apregoar conceitos clínicos sem fundamento, num flagrante exercício ilegal da medicina, o presidente estimula aglomerações; menospreza o isolamento, e caçoa dos que respeitam à ciência. Faz da presidência palanque para barbaridades, fruto de seu temperamento malsão. Estupefata, a Nação assiste a este festival de atos criminosos à espera de uma reação institucional, que não vem, que não brota, que se posterga em respeito à autonomia dos poderes. Enquanto isto, as mortes avançam; brasileiros padecem aflitos sem ter a quem recorrer, sem assistência, sem respiradores, sem leitos, sem até mesmo a compaixão presidencial.

Com temperamento cordato, Teich tentou se conciliar com Bolsonaro. Aceitou o aparelhamento militar do ministério; controlou-se diante das reiteradas transgressões do chefe ; foi comedido quando confrontado com as declarações impróprias de Bolsonaro sobre a pandemia. Mas o presidente queria mais, desejava que ele renunciasse à ciência e encampasse o discurso irresponsável da utilização da cloroquina. Queria transformar Teich em ventrículo de suas teses aberrantes. Foi demais, mesmo para um ministro disposto a não brilhar em respeito submisso ao chefe autoritário.

Algo precisa acontecer. Rápido. Bolsonaro não tem o direito de continuar destruindo o Brasil e provocando mortes. Há que se ter alguma unidade para detê-lo. O presidente do STF, Dias Toffolli, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o do Senado, David Alcolumbre, não podem mais continuar se omitindo diante dos riscos decorrentes das ações presidenciais. Se o fizerem, serão cúmplices de um genocídio anunciado. Na saúde, neste momento grave, há um clima de acefalia; de falta de rumo, de balbúrdia, de fracasso, de omissão. Ao lado, as mortes se acumulam num cenário trágico de valas comuns. Até quando?

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