Bolsonaro testa negativo para presidente

Por Marco Aurélio de Carvalho

Não fosse pelo português que fala, poderíamos vislumbrar a figura de um ditador qualquer, desses egressos, por ironia, de uma ex-república soviética.

Cercado por seguranças de preto, vociferando contra a imprensa, inseguro, irritadiço e acusador...

Mas é Jair Bolsonaro, presidente eleito do Brasil, indefectível, em seu desfile diário para as câmeras, na saída do Palácio da Alvorada, em Brasília.

Com frequência, constrange e agride jornalistas que cobrem o seu ritual matinal. Sempre com o apoio de uma legião truculenta de terraplanistas fanáticos.

Dia desses, subindo ainda mais o tom, em flagrante desrespeito à liberdade de imprensa, mandou diversos jornalistas calarem a boca, bem como fizeram e fazem diversos ditadores no decorrer da história da civilização, com seus trejeitos típicos e muito singulares.

Considerando o padrão, não foi um de seus piores rompantes autoritários, mas o comportamento enseja reflexões importantes: o que ele quer e até onde é capaz de ir para tentar atingir seus objetivos? 

Há vários sinais de que Bolsonaro não sabe governar, e outros tantos de que realmente nem ao menos quer tentar ou aprender.

A pandemia foi sua grande oportunidade para revelar algum traço de liderança e humanidade, capaz, quem sabe, de mobilizar brasileiros divididos em nome de um interesse comum.

Quase todos os seus colegas presidentes conseguiram, fazendo só o feijão com arroz.

Sairão da crise mais populares do que entraram.

Por ignorância ou crueldade, Bolsonaro preferiu refutar verdades universais e conduziu o Brasil ao clube dos mais tacanhos negacionistas, ao lado dos ditadores da Nicarágua e Tajiquistão.

Para essa trupe, isolamento social é bobagem e o Coronavírus é "uma gripezinha, que se trata com vodca ou reza".

Aposta alta, irresponsável e muito perigosa.

Já somos, hoje, o terceiro país em número de infectados, e a tendência é nos mantermos como o novo epicentro desta crise pandêmica no mundo.

Ultrapassamos o número assustador de 1000 mortos em único dia , e Jair, o “Messias” , em tom de escárnio, receita cloroquina para uns, o seu séquito de beócios, e “tubaína” para outros...

Aqui, abro uma janela para um curto e importante registro.

Em cada uma das tristes e irreparáveis perdas que já superam até o presente momento o número assustador de mais de 18 mil brasileiros, não é difícil encontrar as digitais do ex-ministro Sérgio Moro.

Sim, pois ainda enquanto juiz, Moro empreendeu uma perseguição implacável contra o líder mais popular da história do país, que era, inclusive, o franco favorito nas últimas eleições presidenciais.

Lula foi preso de forma injusta e criminosa. Com um único, inconfessável e exclusivo objetivo... favorecer eleitoralmente o genocida que nos assusta e envergonha diariamente, interrompendo um ciclo virtuoso de distribuição de renda e riquezas.

Genocida a quem Sérgio Moro serviu com entusiasmo, determinação e alegria.

São faces da mesma moeda.

As mãos de ambos estão sujas de sangue...

Tivéssemos outro destino no pleito de 2018, o país hoje poderia contar com a liderança de alguém à altura dos desafios que se apresentam. Para nosso orgulho e alegria.

Seguimos...

Quem vê Bolsonaro logo cedo, bravo, grunhindo com jornalistas, pode até pensar que ele acumula diversas noites mal dormidas. Sonhando, quem sabe, com a boa vida de Ortegas e Rakhmovs.

Exemplos não faltam. Bolsonaro efetivamente não quer governar, quer apenas mandar.

E deve ser absurdamente frustrante para ele gritar e não ser ouvido.

Ou pior, gritar e ter que ouvir de troco: “por quê o senhor quer nomear para o comando da PF um amigo do seu filho, que está sendo investigado?”, “por quê não mostrou antes seus exames para Covid19”?, ”onde está o Queirós?”, “o que faziam milicianos nos gabinetes da família?”, “Sérgio Moro está falando a verdade?” , “ o que de fato tem nas tais gravações da fatídica reunião presidencial ? “ ...

O problema é que já são tantas as perguntas que ele deixou sem resposta, ou que rebateu com ataques, que talvez apenas lhe reste como defesa  os berros para aplacar a dor de suas vozes interiores.

Cabe especular até onde pode ir alguém em tal estado de perturbação e frustração com o fato de que não pode calar jornalistas, nem deter um vírus com suas blagues, e por descobrir que a BIC de um ministro do Supremo, em alguns casos, tem mais tinta do que a sua.

Bolsonaro nunca teve um projeto para a saúde, para a educação, para a segurança pública e nem mesmo para a economia. Foi um parlamentar pífio, cujos inúmeros mandatos poderiam ter sido simplesmente ignorados se não fossem as aberrações produzidas com cálculo, frieza e disciplina.

O que, se não a vontade de mostrar quem manda, faz alguém convocar reuniões públicas, quando todas as autoridades de saúde do mundo recomendam exatamente o contrário?

Dias atrás, quando Bolsonaro foi informado por um jornalista que o Brasil chegara ao número assustador de milhares de mortos pela Covid19, respondeu: “E daí?”.

Não foi capaz de mostrar empatia, ou qualquer preocupação. Pelo contrário, foi irônico ...  “sou Messias, mas não faço milagres”, disse, para diversão e espanto das pessoas que o acompanhavam.

Ele já perdeu tantas oportunidades para revelar um lado humano que os que chegaram a ter dúvidas a respeito já começam a ter certezas de que ele realmente não tem.

Em breve, precisaremos inventar novos adjetivos para descrevê-lo, pois nenhum foi o bastante para traduzir a dimensão do seu despreparo e de sua irresponsabilidade, que talvez só não sejam maiores que o ódio e o autoritarismo que cotidianamente destila.

Teremos que rever nossos conceitos quanto aos limites, porque ele os ultrapassa todos os dias. A questão não é mais qual, mas quando será o próximo absurdo.

O fato é que Bolsonaro insiste na tática diversionista de criar uma crise para resolver outra.

Nestes tempos tão tristes, em que o Brasil e o mundo mergulham em uma crise que já matou mais de 300 mil pessoas, Bolsonaro parece lançar o país à própria sorte. Em 30 dias, três Ministros da saúde...

Entre berros e palavrões, é como se Bolsonaro, em uma de suas “lives” ou coletivas, dissesse ao vírus : “Covid, faça o que for necessário ! “.

Assustador, revoltante e inadmissível.

Nesse cenário, o “cala a boca” do presidente não deixa de ter um lado positivo.

Pode ser lido como um sinal de que a sociedade não concorda com seu comportamento, que quer respostas e que vai fazer perguntas, goste Bolsonaro, ou não.

Enquanto as perguntas estiverem sendo feitas, Bolsonaro não poderá ir muito longe.

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