Carta aberta aos participantes do “Se nada der certo”

Se eu tivesse nascido onde eles nasceram, passado pelo que eles passaram, estaria eu onde eu estou hoje? Talvez sim, talvez não. Mas o exercício de se colocar no lugar do outro cria uma vida mais consciente

Caros professores, pedagogos, membros da diretoria, pais, mães, amigos e, acima de tudo, participantes da atividade "Se nada der certo",

Primeiro, quero dizer que os entendo.

Ao contrário de muitos militantes que se manifestaram até agora, eu tive uma vida privilegiada. Nasci branco e classe média, com família estável financeiramente e varias oportunidades simplesmente caíram no meu colo, independente do meu trabalho.

Digo isso, pois durante anos quando mais jovem, me negava a aceitar o quão privilegiado eu era. A doutrinação de direita da classe média me fazia acreditar que minhas oportunidades vinham pelo meu talento, pelo trabalho dos meus pais e que os que não tinham as mesmas oportunidades simplesmente não tinham trabalhado o suficiente.

Além disso, os entendo por acreditarem que faxineiros, vendedores e atendentes estão abaixo de vocês. Tal noção também me foi passada por anos, de que o trabalho braçal é menor do que o intelectual, e que os profissionais e cidadãos "de bem" são os médicos, engenheiros, advogados.

Demorou tempo e muito esforço para eu entender o quão ignorante tal pensamento era. Ao ver a quantidade de massa falida de advogados que as universidades jogam no mercado todo ano, médicos de péssima qualidade que são produzidos para estamparem jornais com escândalos de maus tratamentos são os exemplos dessa atitude viciada.

Todos os países desenvolvidos têm uma grande apreciação por seus trabalhadores. Na Holanda, onde moro, crianças com aptidões técnicas (sendo manuais, laborais, agrárias, etc) são encaminhadas para tais ofícios desde pequenas e respeitadas por isso. Tal atitude cria uma sociedade igualitária e respeito independente das posições.

Entendo também que foi uma brincadeira. No meu ensino médio ouvi muitos dessas brincadeiras também, havia até professores que brincavam "se você não aprender isso direito, vá aprender a fritar hambúrguer". Todos riam abertamente. Uma alemã que sentava em minha sala chegou a literalmente vomitar depois de um desses comentários.

Vocês devem estar se sentindo atacados neste momento, e espero que essa carta chegue a vocês. Ao ser atacado, a primeira reação é reagir. Talvez vocês pensem que se encastelar ainda mais em suas opiniões é o caminho, caminhando na direção do extremismo.

Peço que reconsiderem. O Brasil ainda é um país extremamente desigual, marcado por miséria e subdesenvolvimento. Tais cicatrizes se abrem quando situações assim acontecem. O que está acontecendo não é um ataque à vocês como pessoas, mas ao sistema que os levou a acharem que tal atividade era justa.
Usem toda essa reação que esta acontecendo para estudarem. Sejam duros consigo mesmos, olhem criticamente o seu cotidiano e o das pessoas que se vestiram como e se perguntem: Se eles tivessem acesso à mesma escola que eu, o mesmo tempo livre que eu e os mesmos cursos que eu, estariam fazendo o que fazem?

E melhor: Se eu tivesse nascido onde eles nasceram, passado pelo que eles passaram, estaria eu onde eu estou hoje?

Talvez sim, talvez não. Mas o exercício de se colocar no lugar do outro cria uma vida mais consciente, e consequentemente mais entendimento do país em que vivem. Isso evitará que permaneçam numa bolha cada dia menor, e que se tornem o pior da sociedade brasileira.

De alguém que os entende, por favor e com muito amor, melhorem.

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