China e o seu baita desafio da “prosperidade comum” como superação da armadilha e riscos da financeirização

"O esforço da China é o de construir uma ponte que salte sobre o pântano da armadilha da financeirização para um desenvolvimento que mantenha as atividades econômicas, mas continue a garantir a elevação do bem-estar da população chinesa", explica Roberto Moraes

(Foto: REUTERS)
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A China em seu socialismo de mercado (outros chamam de capitalismo de Estado) abriu espaços para o setor privado no setor imobiliário e de alta tecnologia e assim produziu um colossal crescimento econômico, em meio ao aumento da especulação, enlaces e cruzamentos desses setores com o mundo das finanças que também fez surgir muitos enriquecimentos pessoais.

O projeto chinês desembocou em processos de expansão da economia para dentro (reduzindo pobreza) e para fora que gerou uma potente e crescente integração global. A propriedade (imóveis e dinheiro) e a tecnologia, desenvolvidas a partir de políticas do Estado, foram de maneira paulatina e consciente, entregues à iniciativa privada através de empresas que adiante se transformaram e ganharam a condição de conglomerados e gigantes corporações.

Essa estratégia gerou um cenário de colossal crescimento econômico, mas também produziu muitos riscos, decorrentes das inovações financeiros (papeis) e lançou ao mercado dezenas (talvez centenas) de bilionários individuais. Casos do Jack Ma (Alibaba), Xu Jiain (Evergrande Real Estate Group) e Ren Zhengfei (Huawei) entre outras dezenas ou centenas. Junto, tudo isso agora se apresenta como ameaças e como desafios.

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Não é uma tarefa simples regular estes setores da economia que ajudaram a China a crescer neste século acima de 10% ao ano na primeira década e quase 8% (em média) na 2ª década. Hoje, o setor imobiliário responde por algo em torno de 29% do PIB da China. Já o setor de alta tecnologia de internet, redes e plataformas digitais, através de suas Big Techs – em alguns casos maiores que suas congêneres americanas – transversalmente, se tornou meio (condições gerais de produção) indispensável, a todos os demais setores da economia chinesa em suas múltiplas conexões intranacionais e global.

Também transversalmente, mas de forma potente, foi exatamente no interior destes dois setores (imobiliário-urbano e tecnologia) que a financeirização se imbricou desde os últimos anos dos anos 90. Sofisticadas inovações ajudaram a produzir uma “expansão desordenada do capital”, vinculada à ideia-mãe de transformar quase tudo em gestão de ativos, com a lógica majoritária do valor de troca (especulação), mesmo que enlaçada ao desenvolvimento da economia real e da produção com valor de uso que atrais massas enormes dos vilarejos do interior para as grandes cidades.

No processo de desenvolvimento da China há ainda que se observar a realidade do seu federalismo e relações com o planejamento e a gestão estatal. Assim como em outras nações, trata-se de uma complexa distribuição de responsabilidades entre o governos central, os provinciais e os locais, tanto em termos de arrecadação de tributos, composição de fundos públicos, orçamentos e investimentos, quanto na provisão dos gastos para manutenção da infraestrutura e equipamentos públicos.

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Essa questão federativa tem, aliás, profunda relação com as questões que atualmente emergem no setor imobiliário-urbano (construção habitacional e comercial) na China, em que pese o fato de que hoje, as questões-chaves da China pareçam, em boa medida, mais setoriais e intersetoriais (órbita da nação), embora com profundas conexões matriciais com o território e com o desenvolvimento regional e locais, onde vivem as pessoas e se desenvolvem os problemas da sociedade chinesa, em seus locais de trabalho, moradia e vida

Porém, também é real o fato de que o governo chinês dispõe, como nenhuma outra nação no mundo contemporâneo, de recursos, instrumentos e capacidades institucionais estatais e políticas para superar as ameaças e os desafios expostos. Será necessário ainda mais planejamento para enfrentar a conhecida crise cíclica do capitalismo, hoje hegemonicamente financeiro, que alcançou os meandros e interstícios da economia chinesa, mas também é certo que isso demandará poupança interna que antes tinham sido planejados para uso em vários megaprojetos dentro e fora da China.

A história seguirá seu curso diante das ações e dos movimentos dos agentes na sociedade. O mundo acompanhará a implantação, já é curso, da denominada “transição para a prosperidade comum”, política (mais que programa e projeto) do governo chinês (e PCC), observando como serão administrados os interesses nacional e geopolíticos em suas dimensões e escalas.

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Em síntese, o esforço da China é o de construir uma ponte que salte sobre o pântano da armadilha da financeirização - fortemente imbricada nos setores imobiliários e de alta tecnologia - para um desenvolvimento que mantenha as atividades econômicas, mas continue a garantir a elevação do bem-estar da população chinesa. Um baita desafio, muito além do debate ideológico.

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